Como fazer uma horta caseira – parte 1

por Anderson Porto

De tempos em tempos recebo pedidos de ajuda de pessoas do mais variados locais do Brasil (e até do exterior) querendo dicas de como iniciar um cultivo caseiro de alimentos.

Em geral procuram saber qual a melhor forma de aproveitar um espaço que possuem em casa ou apartamento para fazer uma hortinha com verduras e legumes, talvez um canteiro de ervas medicinais ou mesmo de temperos e ervas aromáticas.

Ao meu ver estas pessoas que se pegam olhando um espaço no quintal, ou um pedaço da casa que bate sol uma parte do dia, ficam ali pensando em como seria bom se pudessem colher alguns tomates, alfaces, temperos… Vegetais fresquinhos e orgânicos.

Bem… O que está faltando? Conhecimentos básicos, ferramentas e disposição para começar!

Uma vez tomada a decisão de cultivar pequenas hortas residenciais; seja porque gostam de alimentos mais saudáveis, sem agrotóxicos ou fertilizantes inorgânicos (destroem o equilíbrio da terra), seja porque entendem que cultivar uma horta em casa pode ser muito prazeroso e excelente terapia; enfim, seja lá o motivo que for, a tarefa sem dúvida é uma das formas prazerosas de voltar a ter um contato maior com a Natureza, através do cultivo de plantas.

Cultivar hortas é simples: requer um pouco de conhecimento, atenção e bastante disposição para pequenas tarefas rotineiras. O segredo de uma horta bem cuidada é, através da observação minuciosa, utilizar o que vamos aprendendo durante o processo de desenvolvimento de cada planta, percebendo necessidades de água, nutrientes ou luz solar, cor das folhas, pragas que possam tentar se instalar etc.

Foto: Ernildo José Lanzarini

Todas as dicas de como cuidar delas são elas mesmo que nos ensinam, através de uma linguagem de sinais. As plantas falam através de sinais químicos, visualmente perceptíveis ou mesmo através de odores, como cheiros na terra e no ar.

Basicamente irei tentar passar adiante um pouco do conhecimento que adquiri desde o início do projeto Tudo Sobre Plantas e irei destacar algumas dicas importantes para um bem sucedido cultivo.

Se tiverem dúvidas é só perguntar no espaço para comentários, ok?

Bem… Vamos lá!

Para fazer uma horta caseira você precisará de:

Etapa 1 – Planejamento

.
Tudo começa no planejamento. É imprescindível que você descubra o melhor lugar (ou os melhores lugares) em seu terreno, para construir os canteiros de sua horta.

Existem alguns fatores importantes que devem ser levados em conta:

1) Posição do sol durante o dia ( e ) ao longo das estações do ano – Plantas necessitam de luz para se desenvolver, é fato. A fonte de luz mais barata que temos é nosso Sol. Acontece que o sol muda de posição ao longo das estações do ano. Na parte da manhã de uma primavera ele está num determinado ponto do céu. Se você prestar atenção ao longo do ano, o sol estará em outro ponto do céu, ás vezes diametralmente oposto, numa manhã de outono.

Por isso é importante descobrir o melhor lugar para instalar sua horta, porque em geral o melhor lugar tende a ser sempre aquele que recebe sol parcialmente durante o Verão e bastante sol no Inverno. Nem sempre isso acontece e aprender como lidar com isso ajuda muito no planejamento da horta.

DICA: anote! Escolha um ponto de referência no centro do terreno e marque com estacas, mês a mês, a posição do sol no horizonte tanto no nascer quanto no poente = trace uma linha imaginária entre o ponto de referência e o sol, marque com o bambu ou madeira um ponto no meio desta linha imaginária. Perceba também as sombras que ele poderá fazer ao longo do dia.

Por que isso é importante? Simples! Um local que recebe sol direto pode receber cobertura com sombrite ou telas, amenizando o calor e a iluminação e, numa estação em que o local fique na sombra, a cobertura pode ser temporariamente retirada.

O ideal é escolher um local que receba pelo menos 6 horas de sol por dia, de preferência na parte da manhã. Se seu quintal nos fundos não é ensolarado o suficiente, pense na possibilidade de usar o jardim da frente.

DICA: O local ideal fica afastado de ruas e avenidas, longe de poluição carregada pelo vento.

Se o gramado for o local mais ensolarado do seu jardim, considere mudá-lo de lugar. Desenterre o torrão e transporte para outro lugar, elimine a grama cobrindo-a com jornal ou plástico, ou então construa um jardim suspenso.

Não plante sua horta muito perto de árvores frondosas ou de folhas muito grandes. Elas vão sombrear os legumes e verduras e competir por água e nutrientes.

Resumindo: sol demais tem solução, sol de menos ou falta de sol, não (excetuando-se, claro, as iluminações artificiais).

2) Irrigação – quanto de água disponível existe no local? É possível captar água de chuva e armazenar em bombonas ou cisternas? A água da chuva segue para algum ponto específico no terreno, isto é, escoa para algum lugar?

Cave um buraco com cerca de 30 cm de profundidade e encha-o d’água. Se a água empoçar por muito tempo, você precisará instalar uma tubulação especial para escoar o excesso de água ou cultivar em canteiros suspensos.

Um fator importante é a posição de torneiras, disponibilidade (se falta água ou não) e distância do local da horta, simplesmente porque sem água as plantas murcham, secam e morrem. Água é essencial.

Uma horta pequena em geral necessita de pouca água – uma mangueira resolve o problema – mas se você cultivar vários e vários canteiros, pode ser mais interessante investir num sistema de gotejamento, para manter o solo úmido. Para cada caso há uma necessidade específica.

Uma boa idéia é começar com irrigação por regadores. Caso a horta cresça e valha a pena o investimento, você pode instalar uma irrigação por gotejamento. A fertirrigação orgânica hoje em dia está mais em conta e facilita bastante, porque você pode adubar e irrigar ao mesmo tempo, poupando trabalho.

Dica: atenção para os horários de rega: sempre na parte da manhã e/ou à tardinha, quando o sol está ameno. Regar quando está muito calor com sol a pino faz a água evaporar rapidamente e as plantas podem ficar até queimadas nas folhas, pois as gotas concentram os raios do sol como lupas.

3) Tamanho dos canteiros – comece sempre construindo pequenos canteiros, suficientes para cultivar 3 ou 4 espécies diferentes. Tenho certeza que, quando você colher a primeira safra, irá se sentir tão bem que irá querer fazer mais canteiros e ensinar seus vizinhos a cultivar também.

Uma medida ideal é:

- largura: um pouco menor que duas vezes o tamanho do seu braço;

Evite canteiros muito largos, para não ter que se apoiar na terra na hora de cuidar das plantas ou ficar em posições muito incômodas.

- comprimento: vai variar em função do espaçamento das espécies cultivadas. Pode-se tomar como regra um espaçamento de 40 cm, de uma planta para outra.

Por exemplo: uma família com 4 pessoas consome, em geral, um molho de alface, 3 tomates, metade de uma couve-flor e uma ou duas cenouras – por dia! Se você for plantar alface, tomate, couve-flor e cenoura (4 plantas), então o canteiro terá que ter 4 x 40cm = 1,6 metros.

Se não quiser fazer contas, comece com canteiros de 2 metros de comprimento.

Foto: Ernildo José Lanzarini

Evite canteiros muito compridos, para não ter que misturar plantas que não possuam as mesmas necessidades de água e iluminação solar, ou terra preparada de formas diferentes.

- altura: quanto mais alto o canteiro fica acima do chão, mais terra e mais trabalho, mas menos necessidade de se abaixar. As raízes de tubérculos necessitam de maior profundidade e existem alguns cultivos que precisam de suporte para os galhos.

A altura ideal fica entre 20 cm à 50 cm. Já vi alguns canteiros suspensos utilizando caixas de madeira (aqueles de feira livre). Consegui pensar em alguns motivos: cansa menos, é mais fácil de observar, mantém a plantação longe de animais domésticos e facilita a colheita.

Uma horta suspensa é ótimo para quem tem disposição para construir mas não é essencial.

Etapa 2 – Construção

4) Material para a construção: dependendo da altura escolhida, você poderá usar toras de madeira, tijolos e até mesmo garrafas PET cheias de terra / areia. Aqui, a criatividade é fundamental.

Se você não quer ser criativo ou não quer economizar, pode utilizar tijolos com cimento para o muro do canteiro. Pode até mandar ladrilhar. O canteiro é seu e você faz do jeito que desejar.

O importante é:

a) O fundo do canteiro deve permitir a drenagem da água da irrigação.

b) Ao juntar terra para o canteiro, lembre-se de completar com terra adubada, húmus de minhoca, composto orgânico e terra preta com um pouco de areia. Para preparar o substrato do canteiro basta uma enxada e misturar a terra em um monte.

c) Funciona melhor adubar antes de plantar, pelo menos 30 a 40 dias antes, do que adubar somente depois.

d) Anote a data de início do seu plantio! Assim você poderá ter uma estimativa de quando poderá colher.

5) Quais vegetais devo plantar?

Sem dúvida, essa é uma das perguntas mais frequentes. Aqui eu destaco o seguinte: para pessoas com pouca experiência em plantios, o melhor é iniciar uma horta comprando algumas mudas já em desenvolvimento – alface, rúcula, alecrim, manjericão, tomilho, salsa, cebolinha, manjericão roxo, erva-cidreira etc, em hortos ou viveiros.

Só tente plantar a partir de sementes se você tiver um lugar protegido do sol para fazer de viveiro. Use copos plásticos furados no fundo, de café ou água, com terra peneirada, para plantar as sementes que deseja germinar e deixe na sombra protegidas de chuva e ventos fortes. Quando as mudinhas estiverem com 3 ou 4 folhas, aí é hora de transplantá-las para os canteiros.

Procure agrupar sempre, no mesmo canteiro, plantas com necessidade de sol e água semelhantes. Estude alelopatia, isto é, plantas que cultivadas juntas acentuam o sabor umas das outras e/ou se protegem mutuamente.

6) Utilize a rotação de culturas como regra sempre – se você utiliza um canteiro para cada espécie, após a colheita plante sempre espécies que sejam de famílias diferentes da que foi cultivada antes, para evitar o esgotamento de nutrientes da terra.

Você pode plantar as chamadas 3 irmãs ao mesmo tempo e no mesmo local: feijão, milho e abóbora. Elas se complementam e uma espécie auxilia o desenvolvimento da outra. Repare que para produzir um quilo de feijão são necessárias 30 a 50 pés. Abóboras, melancias e batatas não servem para plantar em jardins suspensos, pois são plantas que tendem a se espalhar pelo terreno.

7) Espaçamento entre canteiros: o ideal é que permita a passagem de duas pessoas lado a lado. Caso não seja possível, diminua o espaçamento entre os canteiros mas também não construa canteiros muito compridos.

É importante poder caminhar ao lado das plantas sem esbarrar nelas.

Etapa 3: Manutenção

8) Regas / adubação: regue sua horta sempre ou na parte da manhã ou no fim de tarde, evitando sempre regas durante as horas mais quentes.

Se for usar mangueira, lembre-se de guardá-la em local protegido do sol, para que não esquente a água que fica dentro da mangueira.

Adube cada canteiro de acordo com as espécies que lá estão plantadas. Em geral só é necessário adubar de 30 em 30 dias, ou 45 em 45 dias.

Não jogue cascas e restos de alimentos diretamente na superfície do solo. O ideal é preparar composto orgânico ao longo dos meses e ir utilizando um pouco de cada vez.

Em casa é mais fácil produzir composto pois basta construir uma composteira. Separe restos de alimentos e folhas para fazer seu adubo orgânico e depois utilize em sua horta.

9) Monitoração: sua horta precisará de acompanhamento diário (no início) e depois que as plantas estiverem crescidas pelo menos um acompanhamento de perto a cada 2, 3 dias. É através da observação que você perceberá algum problema no cultivo como pragas, doenças, falta / excesso de água, sol ou nutrientes.

Além disso, é importante fazer a limpeza das plantas – retirar as folhas velhas e galhos secos – e dos canteiros, retirando plantas daninhas, matos e outras que ali nascerem, para que as que você plantou possam se desenvolver de forma plena e vigorosas.

Fique de olho em pássaros e outros animais – você está cultivando alimentos e eles irão ser atraídos pelas plantas, cores e perfumes. Os animais, da mesma forma que nós, são atraídos pela mudança de cor dos frutos do tomate, por ex., pelas flores ou cheiros lançados no ar.

Para proteger sua horta você pode construir cercas em volta ou fechar a área com telas, construindo um viveiro.

10) Colheita: retire apenas o que for utilizar naquele dia. Se você for usar apenas algumas folhas de alface, por ex., retire o necessário da parte externa e deixe a planta lá, se desenvolvendo. Desta forma, os pés de alface irão produzir sementes e você poderá plantar novamente, reiniciando todo o processo.

Escolha os frutos mais maduros e deixe os verdes no pé para amadurecerem. Colha uma parte, desfrute dos sabores e texturas, separe alguns para presentear alguém, que tal?

Cada espécie possui formas diferentes de cultivo e colheita, então procure se informar sobre as espécies que plantou. Acesse o [ Banco de Plantas ] e procure por informações sobre cultivo em nosso grupo de estudos: [ GEP TSP ].

O importante da colheita é: esta é a hora da verdade. É neste momento que iremos verificar se o cultivo foi correto, através da qualidade dos frutos que colhemos.

Portanto, verifique todos os passos e se alguma coisa deu errado veja se você pulou alguma parte ou esqueceu de fazer alguma coisa. Quanto mais você tentar mais irá aprimorar-se e logo, logo estará colhendo maravilhosos morangos, tomates, alfaces, couves etc.

– Prós & contras –

Cultivar em casa é econômico?

No primeiro ano, será difícil economizar por causa dos gastos com a implementação – cercas, divisórias, fertilizantes e plantas. E, se continuar a comprar mudas e fertilizantes, esses gastos podem ultrapassar o planejado.

Para economizar ao máximo, cultive suas plantas a partir de sementes, faça seu próprio composto, procure fazendas que forneçam esterco de graça e reduza o uso de substâncias químicas.

Além disso, escolha plantas que sejam mais caras nos mercados, como rúcula, acelga e brócolis.

Faça uma mini-horta

  • Se o espaço for pequeno, cultive uma “salada” num vaso. Plante alface e cebolinha ao redor de variedades de tomates que crescem pouco.
  • Procure formas de legumes e verduras que não sejam rasteiros, como as de abobrinha e abóbora
  • Experimente a forma anã das seguintes variedades, que também são adequadas para plantar em vasos: beterraba (você precisará de uma profundidade de solo de pelo menos 20 cm para que as raízes tenham espaço para crescer), pimenta-malagueta, tomate, nabo, rabanete, rúcula, mostarda.
  • Não esqueça que você pode plantar tanto horizontal quanto verticalmente! Faça um tripé para ervilhas e feijões com três estacas de madeira de lei ou bambu amarradas no topo e depois enrole uma rede de fios ao redor das estacas.

Boa sorte e bom cultivo!

(artigo original por Anderson Porto – projeto Tudo Sobre Plantas)

[poll id="2"]

About these ads

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s