Salvação da lavoura

Por Fábio de Castro

O controle do cancro cítrico
faz com que os produtores
brasileiros gastem
R$ 40 milhões anualmente

Agência FAPESP – Cientistas brasileiros seqüenciaram cerca de 55 mil genes únicos de frutas cítricas, sendo 32 mil só de espécies de laranjas, criando o maior banco de dados científicos no setor no mundo.

O objetivo do projeto é desenvolver mapas, identificando genes associados com a resistência a doenças que ameaçam seriamente a citricultura – atividade estratégica para a agricultura brasileira, com faturamento anual de US$ 1,5 bilhão.

“Trata-se de uma ampla cobertura do genoma expresso de uma planta, configurando um banco de informações valioso. Mas o genoma é uma etapa do processo – estamos interessados em integrar e usar essas informações no melhoramento genético, que é nosso objetivo fundamental”, disse Marcos Machado, diretor do Centro Apta Citros do Instituto Agronômico, de São Paulo, à Agência FAPESP.

A pesquisa, iniciada em 2001, foi realizada pelo Instituto do Milênio de Integração de Melhoramento Genético, Genoma Funcional e Comparativo de Citros, que é coordenado por Machado. Segundo ele, além do banco de dados, a pesquisa gerou diferentes híbridos que estão sendo avaliados em condições de campo.

“Temos mais de 500 híbridos só no âmbito do Instituto do Milênio, além de mais 800 outros em avaliação. Montamos uma rede experimental para testes de campo das plantas selecionadas por sua resistência a doenças”, explicou.

Para Machado, o melhoramento de uma única espécie já é suficiente para compensar os esforços de pesquisa. “Dentro do quadro de variedades de cítricos do Brasil, usamos muito o tangor murcott [murcote], um híbrido de tangerina e laranja. Há 10 milhões dessas plantas apenas no Estado de São Paulo. Elas são processadas pela indústria e servem como tangerina. Se um dos nossos 400 híbridos for igual ou melhor que o tangor, ele já pagará todo o programa”, afirmou.

A pesquisa tem gerado grande número de publicações, mas o aspecto mais importante é o número de genes envolvidos na resposta da resistência à doença. “Investimos inclusive em plantas transgênicas dentro do grupo dos cítricos. Se vários genes de tangerina estão associados à resistência à Xylella, por exemplo, por que não passá-los para a laranja?”, indaga.

Competição e cooperação

O próximo passo dos pesquisadores do Instituto Agronômico é a negociação com grupos norte-americanos para definir a participação brasileira no projeto de seqüenciamento completo do genoma da laranja. A equipe viajará em janeiro até o Joint Genome Institute, do Departamento de Energia dos Estados Unidos.

“Vamos participar em conjunto com o Consórcio Internacional para o Seqüenciamento do Genoma de Citros, do qual somos membros fundadores”, explica Marcos Machado. Ao lado do Brasil, o consórcio, fundado há quatro anos, conta com a participação de representantes dos Estados Unidos, Japão, Espanha, Austrália, China, Israel, Itália e França.

O consórcio teve limitações, desde sua criação, principalmente por conta da intensa concorrência comercial entre o Estado de São Paulo e a Flórida – os dois maiores produtores mundiais. “Na concepção de trabalho dos norte-americanos, todos os dados obtidos em projetos financiados com recursos públicos devem ser tornados públicos irrestrita e imediatamente. Não é nosso ponto de vista. Apesar disso, eles estão buscando parceiros e nossa perspectiva agora é participar do seqüenciamento total”, afirmou Machado.

O pesquisador conta que o modelo de exploração agrícola brasileiro está esgotado, pois trabalha com poucas variedades, é altamente extensivo, tem amplo uso de defensivos e alto custo de produção. Ainda assim, o país tem chances de se tornar o primeiro produtor mundial.

“A citricultura na Flórida está muito debilitada. Eles perderam o controle do cancro cítrico e de doenças como o greening. Os furacões também são um problema sério para o controle de doenças. Além disso, há uma pressão imobiliária violenta nas áreas de cultivo e custos muito altos de produção. O Brasil precisa aproveitar a oportunidade para se consolidar como maior produtor”, disse.

Prejuízos imensos

A citricultura é estratégica. “Ela é a segunda atividade agrícola paulista depois da cana-de-açúcar. O Estado é o maior exportador de suco de laranja do mundo, dominando 50% do mercado mundial”, conta Machado. Além da questão crônica dos preços, a vulnerabilidade a doenças é o principal desafio atual do setor.

A doença que acarreta maiores prejuízos atualmente é a leprose, de acordo com Machado. A citricultura paulista gasta cerca de US$ 100 milhões anualmente no controle químico do agente vetor – um ácaro que transmite o vírus da doença. O maior volume de uso de acaricidas é dirigido à citricultura.

A clorose variegada dos citros (CVC), conhecida como amarelinho, que é causada pela Xylella fastidiosa, atinge atualmente 47% das plantas em São Paulo. “Há estimativas de que sejam gastos R$ 100 milhões por ano no controle da CVC”, conta Machado. Segundo ele, o controle geralmente implica a eliminação e poda das plantas doentes, com controle químico do vetor.

O fato de as plantas de cítricos serem perenes aumenta a dificuldade de controle das doenças. Uma das mais difíceis é a gomose. “Não há estimativa precisa sobre quanto ela traz de prejuízo, mas São Paulo produz 15 milhões de plantas por ano e a gomose mata 10%”, disse.

O greening é apontado como a mais terrível doença dos citros. “Foi detectado em 2004 e ainda não há dados estatísticos sobre o prejuízo. Mas, nas partes do mundo em que a doença chegou, a citricultura acabou”, disse Machado.

O greening, de acordo com o pesquisador, está presente em cerca de 110 municípios paulistas. “A única solução é eliminar a planta. Normalmente, as doenças de plantas lenhosas não matam a árvore, mas esse não é o caso com do greening”, afirma. A doença é conhecida há cem anos, mas estava restrita à Ásia e à África do Sul.

“O cancro cítrico [causado pela Xanthomonas] é uma doença que não se vê muito, mas é uma das que causam mais prejuízos”, disse Machado. Anualmente, segundo conta, são gastos R$ 40 milhões em contenção do cancro, nas áreas em que ocorre.

“Uma vez que ela entra em uma área, não sai mais. A luta é impedir o avanço. A doença não aparece muito, justamente porque se gasta muito nos programas de erradicação”, disse.

Fonte: [ Agência FAPESP ]

+ infos: [ Superinteressante ]

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Arquivado em Alimentos, Biotecnologia, Pragas, Projetos

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