Queimadas em foco

Paulo Brack escreve:
Retrocessos Ambientais no Rio Grande do Sul
Queimadas e Corte Raso viram soluções “Mágicas” para a Crise no Campo

13/06/2002

A exploração dos recursos naturais no Rio Grande do Sul tem sido, na maior parte dos casos, exercida de forma predatória do ponto de vista social, econômico e ecológico. Soluções “Mágicas”, reducionistas e imediatistas, ainda são hegemônicas. O Estado não conseguiu superar as visões convencionais, insustentáveis, apesar de esforços em agroecologia. A monocultura ainda é um modelo dominante, cada vez mais absurdo e excludente. A pecuária permanece em níveis de produção em cerca de dez vezes menor do que em países onde não se pratica a queimada.

A ausência de pesquisa e estímulo tem levado à perda do conhecimento sobre técnicas de manejo e dos benefícios potenciais dos recursos do campo. Ainda não existe no país, e no Rio Grande do Sul, uma política séria voltada ao manejo sustentável dos recursos naturais e dos agrossistemas.

Os campos nativos do Rio Grande do Sul são talvez os mais ricos do Brasil. São mais de 3.000 espécies de ervas e arbustos nativos, muitas já ameaçadas e ainda desconhecidas em seus potenciais econômicos e ecológicos. Há muitos anos, os estrangeiros vem realizando biopirataria em nossos campos sulinos, levando plantas ou sementes (em especial petúnias, cactos, goiabeira-do-campo e plantas medicinais) e animais (particularmente anfíbios e répteis). São milhões de dólares envolvidos e que dão lucro, somente lá fora.

Os defensores das queimadas argumentam que não existe outra forma menos onerosa de livrar-se da “palha-seca” do campo, renovando pastagens e campos abandonados. Crêem insuficiente, ou inviável, o investimento em roçadeiras mecânicas. Nem falar em usar algum instrumento manual. Ademais o campo está vazio de mão de obra. Por que o campo estaria tão vazio de força de trabalho? Entre as respostas, uma delas não estaria ligada, justamente, ao esgotamento do campo e do modelo agrícola. Alguém já pensou no quanto as queimadas contribuíram a este esgotamento?

Por que”não às queimadas”?

  • Porque diminuem a matéria orgânica e a fertilidade do solo. Sob altas temperaturas o Nitrogênio do solo se volatiliza para a atmosfera. É então necessário a utilização de adubo químico.
  • Porque diminuem a infiltração de água no solo pois, sem matéria orgânica, torna o mesmo mais compactado, escoando rapidamente as águas da chuva, aumentando o pico das enchentes devido a falta do poder de amortecimento da vegetação, comprometendo também o lençol freático dos mananciais. A água, assim, é menos armazenada tornando-se mais escassa.
  • Porque aumentam a erosão do solo, pois sem a camada vegetal e o húmus, o solo torna-se nu, sem vida, desestruturado e tremendamente sujeito à erosão.
  • Porque ameaçam as plântulas de Araucaria angustifolia que crescem, predominantemente, nos campos do Planalto, contradizendo a recente campanha de plantio da Araucária no Rio Grande do Sul. É bom lembrar que o pinhão é alimento oriundo de árvores, muitas das quais cresceram em campos onde não ocorrem queimadas.
  • Porque destróem com dezenas de espécies vegetais alimentícias, com conteúdos nutricionais importantes, descobertas recentemente, que vivem nos campos, ainda não aproveitadas pois as indústrias de agrotóxicos (herbicidas) as rotularam de “daninhas”. Neste caso estão o almeirão-do-campo, a serralha, a beldroega, a língua-de-vaca, o mastruço, o caruru, a urtiga, o picão, o dente de leão, a tanchagem, o nabo-silvetre, os trevos, etc.
  • Porque destróem com a fauna, em especial os animais do campo como as perdizes, o tico-tico, o furão, o tatu, a ema, sapos (predadores de insetos), cobras (predadoras de ratos granívoros), etc., aumentando o risco de desequilíbrio ecológico.
  • Porque aumentam o problema do efeito estufa na Terra. O século 20 apresentou aumento em cerca de 30% de CO2 na atmosfera, devido às mais variadas tipos de gases ou fumaças de origem humana, com risco ao clima da Terra, inclusive, já apresentando valores de cerca de um ou dois graus centígrados acima das médias anuais.
  • Porque comprometem o turismo ecológico, criando cenários cinzentos e sem vida, queimando as flores do campo, as palhas e capins ornamentais (barba-de-bode, rabo-de-burro, cevadilha, azevém, briza, etc.) que poderiam ser utilizados economicamente.
  • Porque matam as plantas produtoras de néctar e pólen, de interesse na apicultura.
  • Porque destróem as plantas medicinais dos campos como a carqueja, a douradinha, a sete-sangrias, a centela-asiática, a marcela, a pfáfia, a cavalinha, e outras tantas que poderiam ser melhor aproveitadas contribuindo à renda e à saúde familiar do agricultor.

As queimadas são uma “solução” convencional e imediatista, infelizmente fazendo parte das receitas da agropecuária insustentável (ecológica e socialmente), tornado depauperados muitos dos campos do Rio Grande do Sul. Com relação a questões ambientais não existem soluções mágicas, ou soluções imediatistas.

As queimadas promovem uma ilusão, beneficiando políticos de visão curta. Obviamente, em um primeiro momento as queimadas até podem trazer uma maior produtividade, entretanto ao longo dos anos esta vai caindo drasticamente, desencadeando múltiplos problemas ecológicos e econômicos.

(Prof. Paulo Brack Dep. de Botânica -UFRGS (pbrack@orion.ufrgs.br)

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