Seu carro a álcool e os cadáveres da cana

O brasileiro anda por aí achando o caos aéreo uma vergonha nacional.Tem razão. As pessoas estão indignadas com o desprezo do governo. Mandam cartas aos jornais, assinam aquela lista da CPI em pleno saguão dos aeroportos e entram na Justiça clamando por indenizações milionárias.

O Brasil também ficou indignado, todos ficamos, com a cara-de-pau do presidente americano George W. Bush, de vir aqui, conhecer nossa tecnologia para extração do álcool, assinar acordo de cooperação e dizer que não pode fazer nada para derrubar as sobretaxas ao nosso etanol impostas pelo lobby dos produtores de lá sobre os parlamentares.

A violência urbana, devido às mortes terríveis, também comove a sociedade. Muitos saem em defesa da pena de morte e o país caiu num debate sem fim sobre a redução da idade penal, depois do assassinato do menino João Hélio.

No entanto, uma notícia – divulgada dia 31 de março e dia 1º de abril – no jornal O Estado de S. Paulo mostrou como a sociedade brasileira está preocupada com os problemas nacionais desde que esses problemas sejam seus vizinhos.

A notícia dava conta da morte de José Pereira Martins, de 51 anos, cortador de cana-de-açúcar, de enfarte do miocárdio, em plena plantação, depois de um dia de trabalho.

Ele é apenas mais um trabalhador vítima do excesso de trabalho. A reportagem de José Maria Tomazela desenha um quadro assustador do interior de São Paulo.

Aqui vale um parênteses: há dois interiores, um rico, onde a riqueza do agronegócio chega de forma mais democrática ao trabalhador. Outro atrasado e anacrônico. A indústria canavieira, por exemplo, melhorou muito, mais ainda é o Wal-Mart do agronegócio.

A reportagem informa que 260 mil trabalhadores irão cortar cana este ano. Como as espécies transgênicas são mais leves e os trabalhadores ganham por tonelada cortada, precisam cortar de 10 a 20 toneladas POR DIA para manter o mesmo salário. Logo, os mais velhos, com 60, 70 anos são excluídos.

Há preferência pelo porte valorizado pelos senhores de escravo do século 17. A demanda é por mão-de-obra altamente produtiva e de baixo custo. Os imigrantes nordestinos chegam em ônibus clandestinos e trabalham até o corpo não mais suportar.

Foi assim com José. Tombou, depois de um dia de trabalho estafante.

Ele trabalhava há 4 anos e meio nas terras do Grupo Cosan, na região de Ribeirão Preto. O grupo, da família de Rubens Ometto, é um dos maiores produtores de cana e álcool do mundo.

O curioso é a notícia desta morte, no dia seguinte, embrulhar peixe para ser consumido na semana santa.

Não houve suíte (acompanhamento da notícia pelo jornal), cartas aos jornais, processos por meio de grupos organizados, manifestação do governo. Nada. Nenhuma indignação.

Nenhum usuário de carro a álcool quer saber de onde está vindo este combustível? Estão preocupados apenas com o preço? O etanol, pelo menos no Brasil, extraído da cana, é um combustível comprometido com a sustentabilidade mesmo matando trabalhadores?

José é o 18º cadáver da cana desde abril de 2004. Número da Pastoral do Migrante de Guariba. Uma média de uma morte há cada dois meses.

Vale dizer que a maioria dos trabalhadores é legalmente registrada pela CLT. Outra parte é terceirizada. José tinha carteira assinada.

Nestes dias, acompanhei a seção de cartas do Estadão. Nada. Esperei outro domingo para ver o destino do caso. Nenhuma linha. Entrei no site da Cosan. Lá nada encontrei, apenas esta mesmice que, de tão absurda, vale a reprodução:

“Políticas de R.H.

Qualidade de vida para você e a comunidade

O grupo COSAN investe em projetos de desenvolvimento pessoal e profissional aos seus funcionários e em ações sócio-ambientais que beneficiam toda a comunidade. Além disso, a empresa estimula a participação dos funcionários em seus projetos, com o intuito de integrar ainda mais empresa e comunidade e contribuir para a melhoria da qualidade de vida de todos.

Organização dinâmica e colaborativa

Trabalho em equipe é uma de nossas premissas. Por isso, a COSAN busca profissionais competentes e com capacidade de liderança e trabalho em equipe. Com uma organização dinâmica e colaborativa, o grupo pode replicar experiências de sucesso com agilidade e garantir a máxima eficiência.”

É desta forma que a Cosan busca a tão propagada produtividade.

É assim também que o megaprojeto do etanol pode morrer na praia. Se os nossos usineiros continuarem acreditando que as razões ambientais sustentarão quaisquer abusos e crimes trabalhistas, o país certamente produzirá para o mundo mais uma avalanche de notícias negativas e comprometerá sua imagem neste processo global.

Fonte: Blog do Jofe

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