Leia entrevista com Gerdt Hatschbach, defensor da floresta

O botânico percorre o PR desde os anos de 1943 preservando e catalogando as espécies

Gerdt_Hatschbach

Mesmo antes do “Meio Ambiente” virar moda na mídia, nos discursos de políticos e de ambientalistas, Gerdt Hatschbach, lá pelos meados da década de 60, já andava metido em movimentos em defesa da floresta Atlântica, da Serra do Mar, em especial, o Pico do Marumbi. Nesta entrevista ele fala em biodiversidade, defende as florestas, faz crítica aos “falsos reflorestamentos” da indústria de papel e diz que a biopirataria começou com a chegada dos portugueses.

Autodidata com título de Doutor Honoris Causa em Botânica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), desde 1943 percorre o Paraná, o Brasil e alguns países das Américas para observar as espécies da flora, cuja maioria já está introduzida no mercado de plantas ornamentais e com valores medicinais.

Aos 83 anos, e, mesmo aposentado, ele mantém a rotina diária — de segunda à sexta, acorda às 6 da manhã para se preparar para fazer o que mais gosta — ir para o trabalho. Hoje ele cuida do Museu Botânico de Curitiba que fica no Jardim Botânico. Costuma brincar dizendo que conserva o corpo com mesma técnica usada para conservar as plantas — à base de álcool e naftalina. O Álcool é usado para desidratar as plantas que são embaladas e catalogadas cientificamente e a naftalina para espantar as traças que costumam visitar o museu para “beliscar” as folhas das quais ele cuida como parte de sua família.

Hatschbach é a própria história dos estudos botânicos em Curitiba. Ele já tem algumas espécies por ele descobertas que leva seu nome, por exemplo, a Fúcsia Hatschbachii — que já está sendo plantada em jardins públicos de Paris.

Jornal do Estado — Muito antes dos termos, “Meio Ambiente”, “Biodiversidade”, “Biopirataria” “Preservação Ambiental” entrarem na moda, o senhor já andava envolvido com movimentos em defesa da Serra do Mar. A partir de quando os ambientalistas começaram a se preocupar com isso?

Gertd Hatschbach — A gente nem usava o termo ambientalista. Mas já nos preocupávamos com a preservação porque a gente via, in loco, a devastação desenfreada. Era preciso tomar uma atitude. Então, eu, o Bigarela (João José Bigarella, professor de geologia da UFPR) e outros colegas de áreas afins, nos juntamos com alguns jornalistas da Gazeta do Povo, em 1965. A gente se reunia, toda semana para discutir o assunto e criamos um movimento de preservação da Serra do Mar. E essas discussões viravam artigos publicados no jornal.

JE — E hoje, como o senhor avalia os movimentos, organizações e as legislações preservacionistas?

Hatschbach — Hoje as coisas são bem diferentes. O nível de consciência é outro. As pessoas estão menos egoístas e mais preocupadas com as futuras gerações. O trabalho de preservação é levado a sério. Curitiba tem legislação que oferece descontos nos impostos territoriais para quem possui área preservada. Isso é um avanço.

JE — Como o senhor analisa o reflorestamento da indústria do papel que optaram pelo pinus elliots e eucaliptus que não são nativos de florestas brasileiras?

Hatschbach — Um crime. Essas espécies destroem o meio ambiente porque subtraem excessiva quantidade de nutrientes do solo para poder resistir e se adaptar. Não servem para reflorestar, ao contrário, são predadores ambientais. Espantam até animais e se proliferam com muita rapidez, impedindo o crescimento das espécies nativas.

JE — Que espécies o senhor sugere para o reflorestamento?

Hatschbach — Temos o pau-de-vinho e a guaricica que são espécies que demoram um pouco mais para crescer, mas produzem fibras muito melhores para a produção de celulose. São árvores bonitas e produzem florada que atraem outras espécies de animais. Embaixo do eucalipto não nasce nada. Nem cobra sobrevive à sua sombra.

JE — E a biopirataria? É um fenômeno dos anos 80, 90?

Hatschbach — Claro que não. A biopirataria começou com a chegada dos portugueses ao Brasil.

JE — E como é hoje?

Hatschbach — Do mesmo jeito de sempre. Desde pessoas disfarçadas de turistas, até os “mateiros” que servem muitas vezes, até sem muita consciência, aos grandes laboratórios multinacionais. São pessoas que tem conhecimentos (de pai para filho) das propriedades medicinais de plantas, muitas vezes dominam a técnica de conservação, armazenagem e transporte e mandam ver floresta adentro. A gente sabe que tem mochileiros disfarçados que atuam como piratas da floresta.

JE — A Prefeitura de Curitiba tem um projeto para plantar espécies nativas da floresta Atlântica nos parques da cidade.

Hatschbach — Estamos cultivando no Jardim Botânico trinta espécies da Serra do Mar paranaense — entre elas, xaxim, guapuruvu, quaresmeira, palmito, ipês, cauvi. Algumas espécies, como o guapuruvu, podem chegar a 30 metros de altura. O cauvi, encontrado na Serra da Graciosa, tem uma flor de cor creme com um perfume tão extraordinário que seria a essência perfeita para um perfume de mulher.

JE — E quanto à adaptação dessas espécies ao solo e clima urbano?

Hatschbach — Antes do plantio, foi feito um estudo de distribuição das plantas no terreno para garantir o desenvolvimento da floresta. A transformação do ambiente nesta área do Jardim Botânico será notada dentro três anos, quando as plantas estarão bem formadas. Como são espécies nativas de ambientes úmidos, serão irrigadas diariamente.

Fonte: [ Bem Paraná ]


Gerdt Guenther Hatschbach, fundador do Museu Botânico Municipal de Curitiba. Considerado o maior botânico de campo do Brasil, Hatschbach faleceu aos 89 anos, na madrugada de 16/04/2013. Gerdt Hatschbach formou-se em Química na Universidade Federal do Paraná em 1945 e pós-doutorou-se na mesma instituição em 1986. O professor deixa esposa. Não teve filhos.

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