Sem radicalismo ou com radicalismo?

Elisabeth Spinelli de Oliveira

A palavra radical origina-se do latim radix, que quer dizer raiz. Radical é aquele que se preocupa em identificar a raiz de um problema, e conseqüentemente “extirpá-lo pela raiz”. Essa é exatamente a postura que se espera daqueles que ocupam posições de decisão na sociedade, especialmente se essas decisões dizem respeito ao meio ambiente (MA). Mais do que nunca se exige um novo olhar, moderno na sua concepção de integração, da questão ambiental (vejam “Conservação Voltada para as Pessoas”, Sci. Am. BR 66:66-73, 2007).

De uma maneira simplificada identificamos três fases na gestão do MA: a implementação de medidas para a preservação de espécies ameaçadas (por exemplo, os esforços de proteção do mico-leão-dourado); em seguida houve a identificação de que isso não bastava e era necessária a introdução de medidas que preservação de, pelo menos, a integridade de determinados biomas (os hot spots, locais de grande biodiversidade), sendo um deles o cerrado brasileiro. Mais recentemente fez-se claro que, se quisermos conservar o Homo sapiens, é necessária a preocupação com a interação entre biomas, ou seja, uma conservação que identifique a raiz do problema, o seu contexto histórico, os condicionamentos econômicos e uma concepção da natureza que inclua o bem estar das populações humanas.

A razão é a revelação da vulnerabilidade da nossa espécie, que tem uma história ainda muito breve no planeta Terra, de aproximadamente 100.000 anos, um tiquinho de tempo se comparado ao de outros animais e plantas. Não estamos ameaçando a vida na Terra. Entre as milhões de espécies de insetos ou as milhares de espécies de roedores provavelmente existirão inúmeras que sobreviverão a uma hecatombe provocada pelo homem ou por eventos naturais. A questão é que somos uma espécie unitária, dentro do gênero Homo, e basta um aumento na população de um determinado mosquito (por exemplo, o da dengue) para que morramos literalmente “como moscas”.

Para finalizar gostaria também de indicar aos leitores deste jornal, e inclusive à Ms Mariel Silvestre, recém empossada na presidência do Comdema, a leitura do “A Agricultura do Futuro e um Retorno às Raízes” (Sci. Am. BR 64:58-65, 2007). Contemporânea é a idéia da substituição de plantas anuais (como a cana de açúcar) por plantas perenes na agricultura. A ênfase na monocultura da cana é mais um retrocesso dentre tantos que permeiam a história de nosso país, movido pelo interesse de poucos. Pena que a conta será paga pelos nossos netos e bisnetos, inclusive pelos oriundos dos que hoje usufruem economicamente da presente situação, pois não há poder ou fortuna no mundo que controle as forças de uma natureza, aos nossos olhos, desgovernada. Na verdade a natureza tem suas próprias regras e é nossa obrigação descobri-las e humildemente respeitá-las. Se o Homo sapiens tem uma especificidade, como outros seres vivos têm as suas, que é a de conhecer a vida através da cultura, essa capacidade não é mágica e não existe fora dos limites da biologia, assim como o homem não existe fora da sua essência de ser social. É hora de abolirmos a superficialidade das ações enquanto há tempo.

Profa. Dra. Elisabeth Spinelli de Oliveira, representante da Adusp no Comdema, Ribeirão Preto.

Fonte: [ Gazeta de Ribeirão ]

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