Por que razão as plantas e as árvores necessitam de evoluir?

A evolução não resulta só da selecção do mais forte, mas também da cooperação e das sinergias entre os vários membros de uma população

“Pergunte que os cientistas respondem” foi o repto lançado pelo Expresso aos seus leitores, a propósito da comemoração em 2009 da passagem dos 200 anos sobre o nascimento de Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução das Espécies através da selecção natural.

Hoje damos resposta às três questões que nos foram colocadas pelo leitor Isaac Caetano, as quais são explicadas num único texto da autoria de Francisco Carrapiço, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

E aproveitamos a oportunidade para renovar o convite aos nossos leitores para que nos enviem questões que desejem ver respondidas por cientistas ligados à evolução.

PERGUNTAS

1. Na Teoria da Evolução das Espécies de Darwin (e é bom que se considere “teoria”) as plantas são consideradas?

2. Aos animais, porque em última instância acabam todos por interagir com todos, pode-se aplicar a evolução e consequente variedade. Mas por que razão as plantas e as árvores necessitam de evoluir para outras espécies diferentes?

3. Desconheço em que é que a sexualidade afecta as plantas e, por conseguinte, em que as afecta em termos evolutivos. Teoricamente, todas as árvores poderiam ser iguais porque não interferem entre si mesmas. Porquê então a “necessidade” de variedade?

Isaac Caetano
caixadoisac@gmail.com

RESPOSTA

Compreendo as suas dúvidas, que correspondem às dúvidas de muitas pessoas, mas que frequentemente não têm a coragem de as colocar. Por isso agradeço a sua frontalidade em colocá-las, sem qualquer tipo de “trauma”.

Talvez seja importante clarificar a questão do conceito de teoria em ciência. Ao contrário do que é vulgar dizer, este conceito não tem o mesmo significado no que é a “voz do povo” e o que os cientistas definiram para ela.

Assim, em ciência, teoria é uma explicação baseada e adequadamente sustentada por dados do mundo natural e que incorpora factos, leis, inferências e hipóteses testadas e não algo que é hipotético ou eventualmente desejável.

Indo agora mais directamente à sua questão, a evolução não deve apenas ser vista como o resultado da selecção natural ou da selecção do mais forte. Existem outras valências que devem ser incluídas, como as da cooperação e do desenvolvimento de sinergias entre os vários elementos de uma população em evolução.

Cooperar bem para melhor competir

Com isto quero dizer que provavelmente é necessário cooperar bem para melhor competir. Talvez seja esta a grande chave do processo evolutivo. Não estou a querer dizer que a competição e a selecção do mais apto não sejam muito importantes no processo evolutivo. O que quero dizer é que existem outras valências para além dessas.

Se quiser ter uma visão mais detalhada do que lhe refiro pode ler o capítulo “Simbiogénese e evolução” (págs. 175-198) do livro “Evolução – Conceitos & Debates” (vários autores), recentemente publicado pela Esfera do Caos Editores. No entanto, a evolução é um facto inquestionável. A nível das plantas, estas tiveram e têm um processo e uma história evolutiva, da mesma forma que os animais.

As plantas também apresentam reprodução sexuada, só que nalgumas espécies não é tão fácil a sua observação. Por exemplo, talvez possa parecer estranho, mas existe uma ligação evolutiva entre uma alga e uma planta com flor.

Em primeiro lugar estes organismos vegetais são constituídos por células, que têm pontos em comum. A parede celular apresenta constituintes químicos semelhantes ou mesmo idênticos. Muitas das células apresentam cloroplastos (organitos celulares que são responsáveis pela fotossíntese, isto é, pela a produção do oxigénio que existe na nossa atmosfera).

Têm informação genética que está no núcleo da célula e que é fundamental para que se dê o processo reprodutor e toda a organização e desenvolvimento do organismo vegetal. O processo reprodutor numa alga e numa planta com flor é diferente, mas tem alguns aspectos em comum. Por exemplo, na reprodução sexuada ambas têm gâmetas masculinos e femininos.

Quando ouve falar ou vê o pólen das flores talvez não saiba, mas essa estrutura vai originar a formação de dois gâmetas masculinos, em que um vai fecundar a oosfera (gâmeta feminino) para dar origem ao embrião e o segundo gâmeta masculino vai fundir-se com um outra célula, para formar um tecido de reserva que vai alimentar o embrião.

Quando estas estruturas ficam envolvidas por um tegumento, temos a semente. Com toda esta explicação, o que lhe quero dizer é que ao apresentarem reprodução sexuada podem sofrer variações resultantes do próprio processo reprodutor e com isto sofrer alterações que são transmitidas à descendência. Por isso é que as plantas com flor são as que estão mais largamente distribuídas no nosso Planeta.

Plantas adaptaram-se a novas situações

As plantas evoluíram não porque quiseram ou por vontade própria, mas porque tiveram de adaptar-se a novas situações. Por exemplo, a passagem do habitat aquático para o terrestre foi uma etapa essencial nessa evolução.

Houve inicialmente uma população de plantas que vivia na água e que, por razões que não conhecemos bem – talvez porque as condições em que viviam se alteraram (por exemplo, o local tornou-se gradualmente mais seco) -, sofreram uma pressão evolutiva que as obrigou a adaptar ao novo habitat terrestre.

Mas isto não ocorreu de um dia para outro. Levou muito tempo e neste processo teve um papel muito importante a reprodução sexuada. Hoje ainda encontramos vários exemplos de plantas que são capazes de ter esse tipo de comportamento adaptativo. Pensamos igualmente que em todo este processo a presença de simbioses terá tido igualmente um papel significativo na obtenção de novas valências evolutivas.

Muitas das plantas que temos hoje não são iguais ou idênticas às que viveram há milhões de anos. Por exemplo, e voltando às plantas com flor, estas surgiram há 125 milhões de anos a partir de plantas com habitat aquático, como o demonstram os fósseis encontrados há algum tempo.

Se estiver interessado em obter mais informação científica credível sobre esta matéria, pode ir à minha página e descarregar o material que tenho relativo a uma disciplina que lecciono para os alunos do 1º ano de Geologia (http://azolla.fc.ul.pt/aulas/Recursos_BiolBotanica.html).

Há um processo evolutivo claro no Reino Vegetal e muitas das espécies que existiram no passado desapareceram, tendo surgido outras espécies que mantêm uma linha evolutiva clara com essas plantas. É evidente que uma alga não dá origem directamente a uma planta com flor, mas no processo evolutivo de ambas existe um antepassado comum.

Francisco J. Carrapiço
Investigador do Departamento de Biologia Vegetal, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Centro de Biologia Ambiental
fcarrapico@fc.ul.pt

Fonte: [ Expresso ]

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