Jardim orgânico das delícias

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Alice Waters foi atendida. A chef e ativista em prol da alimentação orgânica lançou durante a campanha presidencial dos Estados Unidos um desafio para o novo presidente: plantar um jardim orgânico na Casa Branca. Dois meses após a eleição de Barack Obama, a primeira-dama Michelle Obama anunciou que irá atender ao pedido de Alice. A família do presidente vai passar a se alimentar de alimentos sem agrotóxicos, cultivados no jardim de casa.

Michelle afirmou que o mais importante desta iniciativa é educar as crianças sobre comida saudável e fresca, numa época em que doenças crônicas como obesidade e diabetes afetam a população. Mas a primeira-dama enfatizou que nem todos os americanos teriam condições de plantar uma horta para consumo próprio. Então, o exemplo é uma estratégia para incentivar a redução de alimentos processados, o ato de cozinhar com mais frequência para a família e incorporar mais frutas e vegetais na dieta.

A decisão de Michelle provocou um questionamento sobre o investimento pesado no marketing da palavra “orgânico”. Mark Bittman, jornalista do New York Times e autor do livro “Food Matters: A Guide to Conscious Eatin”, destaca que orgânico não é, necessariamente, sinônimo de seguro, saudável, justo, bom e étnico. Ele aponta que o mercado de orgânicos é um grande negócio que não para de se expandir. Dados recentes da Organic Trade Association estimam que o comércio de alimentos e bebidas movimentou US$ 16,7 bilhões de dólares, em 2006.

Bittman indaga que para muitas pessoas, bombardeadas pelo marketing e publicidade alimentar, comer bem significa incluir orgânico no prato. Ele cita uma afirmação da nutricionista e professora da Universidade de Nova York, Marion Nestlé, que chama atenção para os industrializados “naturais”: “junk food orgânico continua a ser junk food”.

Para Carlos Braghini, autor do livro Ecologia Celular – que aborda o papel da alimentação e do meio ambiente para a longevidade –, o tema orgânicos deve ser uma discussão ampliada. “Há uma corrente de pensamento que defende a seguinte reflexão: um salmão orgânico, alimentado com ração orgânica não é o mesmo alimento que um salmão selvagem, pescado em alto mar. O mesmo vale para uma galinha alimentada com ração de soja orgânica e uma galinha criada solta que cisca minhocas e come milho (algo que ela foi projetada pela evolução a fazer). Um cookie orgânico nunca terá o mesmo valor nutricional que uma maçã, mesmo que a fruta não seja orgânica”, explica.

Os ativistas dos orgânicos estão entusiasmados com a decisão da primeira-dama. Eles esperam que a medida seja a maior precursora de mudanças políticas em relação ao sistema alimentar americano, hoje baseado em subsídios para grãos como milho e soja. A ambição deste grupo é que aumente a demanda por alimentos frescos, locais e orgânicos. Alice Waters, considerada a mãe americana do movimento Slow Food, quer mais do que um jardim. O próximo pedido já foi feito: introduzir alimentação saudável nas escolas. Já o jornalista Michael Pollan propôs para o presidente Obama uma reforma no sistema alimentar. A prioridade, segundo o jornalista, é a diversidade e comida regional.

A notícia também agradou entusiastas brasileiros. Para a diretora do site Planeta Orgânico, Maria Beatriz Martins, a iniciativa de plantar uma horta orgânica na Casa Branca terá um efeito multiplicador. “Tenho certeza que a medida será uma motivação para inúmeras famílias. Afinal, não é qualquer setor que tem o presidente da república dos Estados Unidos como formador de opinião. Parabéns ao casal Obama”, declarou.

Carlos Braghini aponta que os governos são os principais responsáveis por permitir que comida ruim seja mais barata que comida saudável. “Qualquer iniciativa de governo que vá na direção de uma alimentação saudável é louvável e merece nosso aplauso”, justifica. Na opinião do autor, o caminho mais seguro para o Brasil seria avançar nas práticas de agricultura familiar. Nessa direção, o Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Agrícola (MDA) promove há cinco anos a Feira Nacional de Agricultura Familiar, que estimula a produção e a cultura local. Talvez a Granja do Torto possa ter seu jardim com frutas e hortaliças cultivadas sem agrotóxicos.

A chef e consultora Ana Pedrosa, que atua há mais de 25 anos com alimentação natural, também comemora a iniciativa da família Obama. “Essa ação nos reporta ao passado, quando podíamos plantar, colher e comer. Hoje, já não temos esse privilégio. É uma oportunidade para consumir alimentos de pequenos produtores, valorizando a economia local e a sustentabilidade”, diz.

Da mesma forma que a primeira-dama está preocupada com a alimentação infantil foi esse o motivo que levou Ana a descobrir o universo da comida saudável, integral, fresca e orgânica. “Assim que tive filhos comecei a me preocupar com a alimentação deles. Venho de uma família de exímias cozinheiras e queria transmitir o valor da comida bem feita e com qualidade, sem gorduras e processados para eles. Daí, comecei a pesquisar sobre o assunto e acabei me envolvendo profissionalmente”, conta a chef, formada pelo Natural Gourmet Institute e uma das primeiras no Rio de Janeiro a comercializar salgados e quentinhas integrais.

Os entusiastas dos orgânicos nos Estados Unidos têm consciência dos entraves políticos e econômicos para implantar uma dieta baseada na redução de alimentos industrializados. “Não há infra-estrutura jurídica para implantar um modelo sustentável”, defende Pollan. Há também questões como o abastecimento da população com comida barata e em abundância e os subsídios agrícolas do governo americano para grãos como soja e milho.

Comer uma comida autêntica com qualidade, conectada ao meio ambiente e aos agricultores é uma tendência observada com destaque na mídia, na fala de chefs, acadêmicos, pesquisadores e escritores. Se é orgânico ou não, se é local ou global, se é saudável ou prazeroso; o cidadão que se alimenta precisa responder a uma série de questões. Entretanto, o que é fresco, local e variado é uma oportunidade de comer melhor. E isso não é uma lição atual, faz parte das tradições alimentares. O desafio é aplicar essa prática à vida urbana, cotidiana e frenética.

Para a chef Ana, existem alimentos do dia a dia ricos em sabor e nurtrientes que não são valorizados na dieta. “Você pode comer melhor e reeducar sua família com vegetais preparados de maneira diferenciada”, indica. É o caso da batata-doce, das abóboras e do inhame. Ana ensina duas receitas deliciosas para estimular o paladar e o interesse em buscar uma alimentação prazerosa e saudável. | Por: Juliana Dias/Malagueta Comunicação [Crédito/foto:Carolina Amorim].

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Arquivado em Alimentos, Cultivo, Orgânicos

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