DNA de parasita da malária e de micróbio da fome da batata são similares

Gregory Bull -22.out.2000/AP
[img:0926497.jpeg,full,alinhar_esq_caixa](Pesquisadores no México carregam plantas mortas pelo P. infestans, micróbio causador da fome da batata irlandesa)

Certas pragas têm mais em comum do que a ciência imaginava. À primeira vista, uma doença que mata 1 milhão de crianças africanas por ano nada teria a ver com outra que destrói apenas batatas e tomates. Mas a recente decodificação do material genético deste ser matador de plantas mostrou surpreendentes semelhanças com o parasita causador da malária.

“Morcegos não são pássaros /golfinhos não são peixes/oomicetos não são fungos”, revela para quem estiver interessado a parte traseira de uma camiseta usada por membros do Laboratório Sainsbury, de Norwich, Reino Unido. Na frente, uma árvore de família mostra a posição dos tais oomicetos, parentes mais próximos de algas marrons do que de fungos, animais e plantas verdes.

Parece e até age como um fungo. Tanto que só em 2000 o ser conhecido como Phytophthora infestans foi reclassificado como oomiceto graças a estudos sobre suas proteínas.

“Não, não é um fungo. Seus parentes mais próximos são as algas marrons. A próxima família é a dos alveolados, que incluem o parasita da malária”, disse a Folha a chefe do Laboratório Sainsbury, Sophien Kamoun, que sequenciou o genoma desse oomiceto.

O Phytophthora infestans é um velho e letal conhecido da humanidade, contudo. Nunca na história deste planeta um organismo influenciou tanto a história de um país.

Na década de 1840 ele foi responsável por uma epidemia de fome na Irlanda que matou 1 milhão de pessoas e fez outro milhão imigrar, principalmente para os EUA. Os números são imprecisos, mas ainda hoje a população do país reflete a enorme crise do século 19. Há menos irlandeses em 2009 do que havia em 1845 –6 milhões hoje, 8 milhões então.

E ainda hoje o oomiceto causa seus estragos. No artigo descrevendo o sequenciamento do seu genoma, publicado neste mês na revista “Nature”, a equipe de quase cem pesquisadores lembra que ele causa perdas anuais de US$ 6,7 bilhões em todo o mundo.

“São epidemias recorrentes. Há uma acontecendo no tomate nos EUA bem agora. Mas nós não somos dependentes de uma monocultura como os irlandeses eram na década de 1840. Apesar de ele ainda causar doenças devastadoras, as consequências sociais são diferentes”, afirma Kamoun.

Manipulação

E o que este ser exótico tem a ver com o outro?

Os dois são pragas manipuladoras das suas vítimas. E, apesar de serem diferentes e terem alvos diferentes, usam táticas semelhantes, como Kamoun e colegas mostraram em um trabalho anterior, agora reforçado pela soletração do DNA.

Parasitas e hospedeiros evoluíram ao longo de milhões de anos numa espécie de corrida armamentista. O parasita descobre uma nova arma, o hospedeiro cria (ou não) uma nova defesa. Esses estilos de vida patogênicos surgem ao longo da evolução biológica repetidamente, aparentemente sem relação entre si. Mas, como na guerra, estratégia e tática tendem a se repetir.

Um excelente exemplo é a chamada “ordem oblíqua”. Um exército atacante concentra forças em um dos flancos do inimigo, usando o que restou para manter o resto da linha inimiga no lugar. Com isso, uma superioridade numérica artificial pode ser criada pelo lado mais fraco na batalha.

O tebano Epaminondas usou essa tática para vencer os espartanos em Leuctra em 371 a.C.; Frederico, o Grande, rei da Prússia, fez o mesmo para vencer os austríacos na batalha de Leuthen em 1757.

Os oomicetos e os plasmódios causadores da malária também não aprenderam suas “táticas” um com o outro.

“Entretanto, estão emergindo evidências de que diferentes patógenos podem compartilhar mecanismos de infecção”, escreveram Kamoun e mais quatro colegas em um artigo na “Nature Reviews”. Os resultados de estudos recentes demonstram que o Plasmodium falciparum e o Phytophthora infestans usam sinais bioquímicos equivalentes para penetrar a “fortaleza” -as células, humanas e de plantas.

A importância disso é a possibilidade de estudos de uma área darem ótimas pistas para os da outra. Por exemplo, uma descoberta importante do sequenciamento do genoma do P. infestans foi a “estratégia de duas velocidades”. Partes do genoma evoluem em ritmos diferentes. Uma delas, cheia de repetições de DNA, consegue mudar rapidamente e, com isso, rapidamente se adaptar ao sistema de defesa das plantas.

E como já se sabia que esse tipo de repetição de regiões de DNA era capaz de aumentar a inovação gênica, o processo deve ocorrer em algum grau em outros genomas.

“Esse patógeno tem uma incrível capacidade de se adaptar e mudar, e é isso que o torna tão perigoso”, declarou outro coordenador do sequenciamento, Chad Nusbam, do Instituto Broad, dos EUA. “Esperamos que esse conhecimento possa engendrar novos enfoques para diagnosticar e responder a surtos da doença.”

Fonte: [ Folha Online ]

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