O que aprendi com as aves silvestres

por: Gert Roland Fischer
em: 25/11/2001

Os pássaros sempre me fascinaram. Como engenheiro agrônomo ligado direta e permanentemente à Natureza e mesmo antes, como cidadão do Planeta, com a infância e minha juventude inesquecível e prazeirosamente vividas em Porto União, sempre tentei entender os recados que vinha das aves silvestres.

Ensinaram-me as aves que os filhotes tirados do ninho e criados presos em gaiolas, não tem mais condições de voltar à natureza; ensinaram-me as aves que o BHC – inseticidas clorado proibido hoje e aplicado às sementes do arroz antes do plantio, dizimou a esmagadora maioria dos curiós que habitavam os vales do Itajaí, Itapocú e outros em Santa Catarina na década de sessenta. A mortandade era assustadora.

Após o semeio de arroz envenenado, o solo ficava coberto de cadáveres de canários da terra, vira-bostas, pombas e principalmente curiós. O cheiro da morte contaminava os arrozais químicos e venenosos.

A morte de pássaros nos arrozais continua com o uso de herbicidas nas valas de irrigação e nos tabuleiros e mata os que se alimentarem das sementes de gramíneas intoxicadas pelo veneno. Essa mortandade também é constatada em todo o percurso das ferrovias, onde uma lei dos brasileiros subservientes dos ricos e dóceis idólatras dos americanos, permite a aplicação de milhares de toneladas de Glyphosate(*) para manter a malha ferroviária limpa de plantas indesejáveis.

As saracuras estão por toda a Joinville. Comem macarrão, milho e arroz cozidos e fornecidos pelas pessoas que sabem que se não o fizerem, irão para a extinção. Todos os banhados foram destruídos pelo famigerado programa que se chamou um dia de PRÓ-VÁRZEA, orgulho de muitos governantes desinformados e arrogantes.

Com o desaparecimento das áreas úmidas, perderam seu habitat: as garças, as saracuras, as madalenas, os anfíbios como sapos e pererecas, os jacarés de papo amarelo, a capivara, a lontra, entre outros e tantos outros animais e aves silvestres.

Os grandes inimigos dos pássaros são os felinos – gatos – que as pessoas criam aos milhares e quando as proles ficam muito grandes e incontroláveis, essas mesmas pessoas os soltam em regiões próximas aos fragmentos restantes da Mata Atlântica. Esses gatos domésticos ao entrarem nesses nichos silvestres nos perímetros urbanos, mudam o comportamento na busca da comida. Passam a se alimentar de pássaros, principalmente os filhotes que caem dos ninhos localizados nas copas das árvores.

Os sabiás, as corruíras, saíras, rolinhas marrons, saracuras, e tantos outros, perdem – a cada primavera – das duas ou três ninhadas que chocam, mais de 50% de seus filhotes, os quais quando não são comidos pelos gaviões, tucanos, corujas e anus brancos e pretos, são alimento também dos gambás.

Os pássaros não carnívoros se alimentam o ano todo das sementes das árvores. A figueira nativa no mês de março oferece milhões de figos minúsculos para as saíras, sanhaços, sabiás, bem-te-vis, periquitos e até morcegos não hematófagos nos elegantes vôos noturnos, agarram com as unhas os frutos que são devorados em pleno ar.

O camboata outra árvores nativa da Mata Atlântica, frutifica em novembro e é o alimento dos sabiás vermelhos, bem-te-vís, sanhaços e siriris que também são insetívoros. O jacatirão-açú que floresce entre novembro e dezembro, tem seus minúsculos frutos pretos em março e abril e suas copas serão colonizadas novamente pelos sanhaços, bem-te-vís, saíras, siriris e até os morcegos.

Um espetáculo que se repete duas vezes ao dia é o vôo das garças brancas da Baia da Babitonga, que aos milhares se deslocam ao alvorecer para as regiões de plantios de arroz e pastagens de gado onde se alimentam de insetos-pragas do arroz e de ectoparasitos do gado localizados em Araquari, Guaramirim e Jaraguá do Sul.

Ao entardecer retornam voando em formação delta para os ninhais localizados em algumas ilhas eleitas por elas na Baia da Babitonga, até o dia em que um político qualquer desinformado, autorize a construção de casas de pescadores e veranistas do partido clientelista.

A importância dos pássaros é enorme. As cidades estão cada vez mais colonizadas por eles infelizmente. O centro urbano que não é lugar para esses infelizes.

Contribuíram para a dizimação e aniquilação das aves silvestres; madeireiros que transformaram as florestas em apartamentos localizados no balneário de Camburiú; agricultores reféns da industria química e das sementes que jamais procuraram saber como funciona a natureza; os caçadores que com muita convicção dizem que matam os pássaros por que destruíram as matas e assim se livram da culpa.

Entre todos esses atores, constam os agrotóxicos da lista dos principais inimigos dos pássaros.

As associações de observadores de pássaros estão chegando também ao Brasil. São pessoas que os observam e fotografam, inovando nas opções de lazer e ocupação do prazer de viver.

(*) herbicida. O mais usado é o Roundup da Monsanto – inimigo da vida selvagem.

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