Árvores viram poste e cabide em São Paulo

FLÁVIA MANTOVANI
DE SÃO PAULO

“Restaurante La Tambouille conserva esta área.” A placa refere-se a um canteiro bem cuidado em frente ao estabelecimento de culinária franco-italiana. Um olhar mais atento, porém, revela que estão pendurados, em duas árvores, dois refletores, duas câmeras de vídeo e até uma lixeira, fixada com prego.

Árvore na rua dos Pinheiros, altura do número 464; espécies são usadas como suporte de objetos
Foto: Maria do Carmo/Folhapress

A prática é proibida e, segundo especialistas, faz mal às plantas. E não é só no restaurante da avenida Nove de Julho que se vê isso. Diversos comércios estão transformando as árvores em verdadeiros cabides.

Os refletores são os penduricalhos preferidos, mas a sãopaulo também achou bebedouros para pássaros, reatores e até uma tomada.

Na rua dos Pinheiros, em frente ao restaurante Fração da Pizza, uma só árvore serve de suporte para vários objetos: seis luminárias, um reator, uma corda e um emaranhado de fios. Na rua Bela Cintra, nos Jardins, em frente à loja de decoração L’Oeil, uma seringueira carrega dois refletores.

Mas na boêmia Vila Madalena, com sua alta concentração de bares e restaurantes, foi possível ver mais exemplos. Na esquina das ruas Mourato Coelho e Wisard, uma paineira-rosa sofre com três refletores pendurados por braçadeiras de metal. “A casca está abrindo, o galho está ulcerado. É um absurdo”, lamenta Ricardo Cardim, fundador da Associação dos Amigos das Árvores de São Paulo.

Ao lado, um suporte de ferro está preso a uma figueira. “O prego está sendo engolido pela casca. Isso torna a árvore suscetível a micro-organismos. É como se a gente furasse um dedo: ele pode infeccionar.

Com isso, a árvore pode até morrer ou cair. “Não é bater um prego hoje que haverá queda amanhã. Mas, com dois ou três anos, isso pode acontecer”, diz Gregório Ceccantini, professor de botânica na USP (Universidade de São Paulo), que já viu placas de lojas e estacionamentos penduradas em árvores.

A prefeitura não permite a colocação de “adereços, enfeites, placas e similares afixados por objetos como pregos, grampos, arames, cintas inadequadas, fios e similares”. A multa por árvore é de no mínimo R$ 10 mil. Segundo a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, neste ano, já foram emitidas 107 multas por maus-tratos às árvores –em 2009, foram 261.

Parafusadas

Ainda na Vila Madalena, um alfeneiro-do-japão, próximo ao bar Empanadas, está com três luminárias fortemente parafusadas nos galhos. Perto dali, na rua Jericó, em frente ao bar Tribunal, um bebedouro para passarinhos pendurado numa sibipiruna parece muito ecológico –pena que está afixado com um prego. Ao lado, uma palmeira virou parede: foi pregada uma tomada, para que os clientes carreguem seus celulares.

Na rua Mourato Coelho, uma merindiba tem mais de 15 ganchos pregados em seu tronco –por eles passava um fio com luzinhas. Mário Colombo, 47, proprietário da academia em frente, diz que foi ele quem plantou a árvore, há 19 anos, e que o ex-dono do bar ao lado pôs os ganchos. Mário diz que já convenceu outros proprietários a tirar as luzes, mas não conseguiu nesse caso. “Ele não se preocupava com a natureza.”

Atraído pelas lâmpadas afixadas por bares vizinhos, Ari de Carvalho, dono do Sushi Bayano, gastou R$ 900 em abril para parafusar um refletor e luzes de LED na árvore em frente. Alertado por um morador de que aquilo fazia mal à planta, retirou tudo. “Quando soube que era ruim para a árvore, tirei e pus tudo no telhado. Não ficou tão bonito, mas valeu a pena.”

Outro lado

Os donos ou gerentes dos estabelecimentos citados na reportagem disseram que não sabiam que a prática é proibida. “Nossa ideia é defender o meio ambiente. Quando chegamos, a árvore estava ruinzinha, a gente cuidou. Se [pregar coisas] prejudica, vou tirar”, diz Marcelo Prota, gerente da Fração da Pizza.

A gerência do La Tambouille se comprometeu a retirar os objetos “o mais breve possível” e afirmou que preserva o meio ambiente, tendo adotado uma praça ao lado do restaurante. A L’Oeil afirma que havia contratado um agrônomo para tirar os cupins da árvore em frente e que vai tirar os refletores. Mário do Nascimento, gerente do Tribunal, e Flávio Santos, sócio do Empanadas, também disseram que retirarão os objetos.

Verde ameaçado

Por que pregar e pendurar objetos prejudica a árvore:

– Luminárias e objetos pendurados podem exercer carga excessiva e, em alguns casos, levar à ruptura de galhos ou da própria árvore

– Luzes muito fortes podem aquecer o tronco, ressecando folhas e galhos

– O buraco que se forma ao bater um prego vira porta de entrada para micro-organismos como fungos, bactérias e vírus. Com o tempo, se houver apodrecimento, a árvore pode até cair

– A oxidação dos metais do prego pode favorecer o ataque de insetos ou “envenenar” a árvore, que pode morrer

– Arames e cordas sintéticas enroladas podem “estrangular” o crescimento da árvore, além de se tornarem focos de podridão e infecção. Tudo isso pode levar à morte da planta

  • É possível denunciar maus-tratos a árvores à prefeitura (3396-3285 ou respeiteasarvores@prefeitura.sp.gov.br)
  • Após retirar os objetos, procure a subprefeitura da região para que ela trate dos ferimentos da árvore

Fontes: Gregório Ceccantini, professor de botânica da USP, e Ricardo Cardim, fundador da Associação dos Amigos das Árvores de São Paulo e mestrando em botânica.

Disponível online em: [ Folha Online ]

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