Pimenta para bravos

Olívia Fraga

Perto dela, malagueta, habanero e dedo-de-moça não passam de frágeis senhoritas. A nova rainha do quanto-mais-quente-melhor se chama Bhut jolokia e é simplesmente a pimenta mais forte do mundo

Mania. Criada na Índia, a jolokia, ou ‘fantasma’, virou febre na valente tribo dos pimenteiros. Foto: Keiny Andrade/AE

Quando a pimenta biquinho apareceu, fez fama por não ser ardida e em pouco tempo virou mania. Mas a moda agora é outra: quanto mais quente, melhor. As pessoas estão querendo pimentas cada vez mais fortes. Se fizer chorar, então, perfeito. Vale até provocar suadouros e desmaios.

A pimenta sensação atende pelo nome nada simpático de Bhut jolokia. É chamada também de pimenta-fantasma ou simplesmente de jolokia, como é mais conhecida. Seja qual for o nome, o fato é que ela é a pimenta mais forte do mundo – por enquanto – e isso não é força de expressão.

A jolokia foi criada em Tezpur, na Índia, há dez anos, fruto de um cruzamento entre as pimentas mais ardidas de que se tinha notícia. Sua pungência ultrapassa 1 milhão na escala Scoville*.

Atraiu as atenções e espalhou-se pelo mundo, provocando lágrimas e fortes emoções. Pimenteiros em grupos de discussão já fizeram apologia dela e há até teses sobre o seu poder de fogo – a jolokia tem o dobro da pungência de variedades como a red sativa, a scotch bonnet e a habanero. Na internet, diversos sites vendem sementes de jolokia e frutos prontos para o consumo.

Por que um fruto que queima a boca faz tanto sucesso? Os especialistas têm uma boa explicação: pimenta vicia.A pungência é interpretada como uma queimadura e o cérebro libera endorfina para combater o desconforto. Assim, a pessoa sente bem-estar. É uma espécie de recompensa“, diz Arlete Marchi Tavares de Melo, pesquisadora de hortaliças do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

Mais que fã confesso, Nelusko Linguanotto Neto, dono da Bombay Food Services, admite ser um desses viciados em pimenta. De manhã, toma cápsulas “para garantir a pimenta do dia”. “Vai que não consigo almoçar ou jantar”, brinca o autor do Dicionário Gastronômico de Pimentas.

O ardor e o aroma da pimenta dependem de centenas de substâncias. Mas a pungência é causada principalmente pela capsaicina, substância presente em células da placenta, onde se ligam as sementes. É por isso que muita gente se confunde, achando que as sementes causam o ardor.

Basta um leve toque nas células da placenta para que elas liberem a capsaicina e ‘contaminem’ as sementes e o fruto. A região mais ardida da pimenta é sempre o terço superior, perto do cabo“, explica a Arlete.

Família Capsicum. Acredita-se que as pimentas sejam todas originárias da Bacia Amazônica. Ainda que tenham sabor e pungência distintas, a cambuci, o pimentão, o tabasco, as pimentas-de-cheiro e o jalapeño são parentes. Até a pimenta biquinho, grau zero de pungência, é prima da jolokia. Todas pertencem ao gênero Capsicum.

Os frutos têm sementes abundantes e fáceis de cultivar. E, por um capricho da natureza, a grande família das pimentas pode sempre agregar mais algum parente por meio de novos cruzamentos. Ou seja, se plantadas próximas, pimentas mais doces e mais picantes podem se reproduzir, dando origem a frutos de sabor e pungência variados.

Foi assim que surgiu, por exemplo, o tipo malaguetão: cruzamento da ardida malagueta com a menos picante dedo-de-moça. “Entre as 30 espécies de pimentas existentes, cinco são cultivadas: Capsicum chinense, Capsicum annuum, Capsicum baccatum, Capsicum frutescens e Capsicum pubescens“, explica Arlete.

No Brasil, pimenta é fruta de se comer em porções pequenas ou a conta-gotas, fresca ou em conserva. “Não temos costume de secá-las e de processá-las em pasta como os peruanos”, diz Cyro Abumussi, produtor da Fazenda Ituaú, no interior de São Paulo.

Com regiões bastante ensolaradas, o Brasil tem pimenta o ano todo. Os maiores produtores são Minas Gerais, Goiás, Pará, Ceará, Bahia e São Paulo. Além da dedo-de-moça (menos picante que a malagueta), as pimentas-de-cheiro (espécie Capsicum chinense) são abundantes aqui.

Os frutos são atarracados, em geral amarelados, e a pungência varia muito – por aqui vingam desde as pimentas-de-cheiro verdadeiras, de pungência média, às variedades chora-menino e pimenta-de-bode, bem ardidas.

“Por muito tempo as pessoas fugiram das pimentas ardidas achando que faziam mal. Era difícil encontrá-las em restaurantes, mas com a popularização das casas de comida mexicana e peruana, a pimenta passou a ser valorizada”, diz Arlete.

COMO UMA DROGA

O efeito bombástico da pimenta começa na língua. Quando alguém morde uma pimenta, ela se rompe e libera a capsaicina, seu composto químico ativo mais importante.

A substância estimula os receptores de calor e de dor presentes em toda a língua. O cérebro interpreta esse ardor como se a língua tivesse sido queimada e faz com que os receptores opióides do sistema nervoso simpático produzam endorfina – responsável pela sensação de bem-estar.

Esses receptores são os mesmos que respondem a algumas drogas. A capsaicina também altera o equilíbrio térmico do corpo, provocando ondas de calor e suor.

Fonte: [ Estadão ]

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(*) Escala de Scoville, ou teste Organoléptico de Scoville: é usada para medir o grau de “ardor” da pimenta ou malagueta. Quanto mais solução de água e açúcar é necessária para diluir uma pimenta, mais alto seu “grau de calor”.

1 xícara de pimenta que equivale a mil xícaras de água, corresponde a 1 unidade na escala de Scoville.

Unidades Scoville Tipo de picante
15 000 000 – 16 000 000 capsaicina pura[1]
9,100 000 Nordihydrocapsaicin
2 000 000 – 5,300 000 Spray de pimenta padrão pepper spray[2]
855 000 – 1 041 427 Naga Jolokia[3][4][5][6]
876 000 – 970 000 Dorset Naga[2][7]
350 000 – 577 000 Red Savina™ Habanero[8]
100 000 – 350 000 Habanero Chile[9]
100 000 – 350 000 Scotch Bonnet[9]
100 000 – 200 000 Jamaican Hot Pepper[2]
50 000 – 100 000 Thai Pepper, Pimenta Malagueta, Chiltepin Pepper
30 000 – 50 000 Cayenne Pepper , Ají pepper[9]
10 000 – 23 000 Serrano Pepper
7 000 – 8 000 Molho Tabasco Habanero[10]
5 000 – 10 000 Wax Pepper
2 500 – 8 000 Jalapeño Pepper
2 500 – 5 000 Molho Tabasco[10]
1 500 – 2 500 Rocotillo Pepper
1 000 – 1 500 Poblano Pepper
600 – 800 Molho Tabasco Jalapenho[10]
500 – 1000 Pimenta Anaheim
100 – 500 Capsicum,[2] Pepperoncini
0 Não-picante, Pimentão (br.)/(Pimento, pt.)[2]

3 Comentários

Arquivado em Alimentos, Cultivo, Plantas Medicinais

3 Respostas para “Pimenta para bravos

  1. jairto j doll

    Gostei da materia, faço tratamento p/ depressao e como estou consumindo mais molho de pimento(azeite de oliva e pimenta), tenho observado que tive uma melhora, estou +ou- 2meses sem medicação e estavel. Ja tinha comentado com o médio,mas ele não deu credito, agora comparando o que a pimenta libera estou mais convicto da ação terapeutica dela.
    É claro tem mais fatos somando com ela.
    grato pela materia, abraço

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  2. Essa Pimenta mata um qualquer dia desse…rsss

    Legal o blog

    Fred

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  3. roberto dias

    gostaria aonde encontrar nutrientes pra pimentas favor por imail

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