Entre o conhecimento popular e o científico

Entre o conhecimento popular e o científico

http://www.comciencia.br/reportagens/fito/fito1.htm

A fitoterapia tem se tornado cada vez mais popular entre os povos de todo o mundo. Há inúmeros medicamentos no mercado que utilizam em seus rótulos o termo “produto natural”. Produtos à base de ginseng, carqueja, guaraná, confrei, ginko biloba, espinheira santa e sene são apenas alguns exemplos. Eles prometem, além de maior eficácia terapêutica, ausência de efeitos colaterais. Grande parte utiliza plantas da flora estrangeira ou brasileira como matéria-prima. Os medicamentos à base de plantas são usados para os mais diferentes fins: acalmar, cicatrizar, expectorar, engordar, emagrecer e muitos outros.

É essa utilização das plantas para o tratamento de doenças que constitui, hoje, um ramo da medicina conhecido como fitoterapia. A fitoterapia, apesar de ser considerada por muitos como uma terapia alternativa, não é uma especialidade médica, como a homeopatia ou a acupuntura, e se enquadra dentro da chamada medicina alopática.

O uso das plantas como remédio é provavelmente tão antigo quanto a própria humanidade. Nas Ilhas Oceânicas, por exemplo, há séculos a planta kava kava (Piper methysticum) é usada como calmante. Durante muito tempo, foi utilizada em cerimônias religiosas, para um tipo de “efeito místico”. Depois, cientistas alemães comprovaram que seu extrato tem efeito no combate à ansiedade.

No entanto, é preciso ter cautela. A crença popular de que as plantas não fazem mal, estimulada ainda mais por fortes apelos de marketing, faz com que o quadro fique um tanto distorcido. “Havia um conceito pré-estabelecido, popular, de que o que vem da natureza não faz mal. Isso não é correto”, lembra Elisaldo Carlini, pesquisador do Departamento de Psicofarmacologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Quem é que não sabe que a planta conhecida como “Comigo ninguém pode” é extremamente tóxica e pode matar? E afinal, estricnina, morfina e cocaína também são produtos naturais.

Todo medicamento, inclusive os fitoterápicos, deve ser usado segundo orientação médica. É claro que dificilmente chega-se a uma overdose de chá de boldo. Mas há ainda muitas plantas cujos efeitos não são bem conhecidos e seu uso indiscriminado pode prejudicar a saúde. Por outro lado, vários estudos científicos comprovam que a fitoterapia pode oferecer soluções eficazes e mais baratas para diversas doenças.

Para Carlini, os preconceitos em relação ao uso de fitoterápicos estão diminuindo. “O uso da fitoterapia como prescrição até há pouco tempo não era aceito pelos próprios cientistas. Ela era considerada uma medicina inferior, alternativa, principalmente por conta dos benefícios propagados por aproveitadores e charlatões. Era vista como ‘medicina popular`, desenvolvida à base de plantas que podiam ser encontradas na quitanda, na loja de artigos de umbanda, casas de chás, praças, etc”, diz.

Segundo o pesquisador, o conceito de uso dos fitoterápicos vem sendo modificado graças a produtos que os próprios médicos vêm utilizando e que têm base científica comprovada: “O crescimento do uso de fitoterápicos deve-se à competência científica de estudar, testar e recomendar o uso de determinadas plantas para usos específicos”, afirma.

É considerado fitoterápico toda preparação farmacêutica (extratos, tinturas, pomadas e cápsulas) que utiliza como matéria-prima partes de plantas, como folhas, caules, raízes, flores e sementes, com conhecido efeito farmacológico. O uso adequado dessas preparações traz uma série de benefícios para a saúde humana ajudando no combate a doenças infecciosas, disfunções metabólicas, doenças alérgicas e traumas diversos, entre outros. Associado às suas atividades terapêuticas está o seu baixo custo; a grande disponibilidade de matéria-prima (plantas), principalmente nos países tropicais; e a cultura relacionada ao seu uso.

Quais são, então, os riscos e benefícios dos fitoterápicos?

Fitoterapia é uma saída para reduzir gastos no sistema público de saúde

http://www.comciencia.br/reportagens/fito/fito3.htm

Num país como o Brasil, onde a população carente não só tem dificuldades para obter os medicamentos convencionais mas também adoece muito mais, o uso criterioso da fitoterapia no sistema público de saúde pode ser uma alternativa para a redução do custo dos medicamentos.

Enquanto na região Sudeste os medicamentos convencionais ainda são os mais prescritos pelos médicos, estados como o Ceará e a Paraíba desenvolvem algumas iniciativas bem sucedidas de uso de medicamentos não-convencionais.

A experiência mais antiga é da Universidade Federal do Ceará (UFCE) que em 1983 começou a implantar o programa Farmácias Vivas, sob a coordenação do professor José Abreu Matos. Seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), o programa oferece assistência farmacêutica fitoterápica de base científica às comunidades mais carentes de Fortaleza, aproveitando as plantas de ocorrência local ou regional dotadas de atividade terapêutica comprovada.

O programa vem mostrando seus resultados. Dados de 1995 mostram, por exemplo, que para os casos de amebíase e giardíse (doenças parasitárias muito comuns) cápsulas de hortelã têm efeito comprovado e custavam, à época, R$ 0,96 enquanto que o medicamento convencional, Flagyl (da Rhodia) custava R$ 4,12. Outro exemplo é o xarope de cumaru-malvariço-hortelã japonesa, utilizado como broncodilatador e expectorante, que custava R$ 1,30 ao passo que o Aerolin (da Glaxo) custava R$ 2, 17.

O Farmácias Vivas de Fortaleza já se tornou referência para outras faculdades de Farmácia do Nordeste brasileiro. Em 1998, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), após 10 anos de pesquisas com fitoterápicos, começou a implantar o projeto no seu hospital universitário, com financiamento da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Em breve estará sendo iniciado atendimento ambulatorial, no qual serão feitas avaliações clínicas de uma planta com propriedades broncodilatadoras. O nome da planta por enquanto é segredo, pois, segundo a professora Rinalda A. G. de Oliveira, da Faculdade de Farmácia, a universidade pretende patenteá-la.

Outra iniciativa é a da Secretaria de Saúde do Estado da Paraíba que a partir de 1998 começou a implantar o Programa de Alternativas Alimentares, Terapias Complementares, Homeopatia e Acunpuntura (PROACHA), sendo que a fitoterapia está contemplada dentro das terapias complementares.

Os médicos, de modo geral, aceitam bem a fitoterapia, mas não a prescrevem por falta de conhecimento técnico, fruto de uma educação deficiente nessa área, conforme mostrou uma consulta realizada pela Secretaria de Saúde. Para suprir essa demanda, as universidades Federal e Estadual da Paraíba já oferecem a disciplina de fitoterapia para alguns cursos da área de saúde.

Trabalho Interdisciplinar – Implantar a fitoterapia no sistema de saúde não é um trabalho fácil, pois envolve diversos profissionais, como médicos (para prescrever), farmacêuticos (para manipular) e agrônomos (para planejar o cultivo das plantas), entre outros. Além disso, é necessário conhecimento técnico sobre as plantas, seus efeitos terapêuticos e tóxicos, parte utilizável, via de administração e um bom banco de dados de referências bibliográficas. Tudo isso só é possível através da pesquisa contínua, desenvolvida dentro das universidades.

Tão importante quanto a pesquisa é a divulgação e o ensino da fitoterapia nos cursos de graduação da área de saúde, para que aos poucos vá se formando uma nova mentalidade, que proteja e ao mesmo tempo utilize o potencial da flora brasileira, colocando-o, de maneira mais acessível, à serviço da saúde.

Veja também qual o valor da flora medicinal para a economia do país.

Fonte: [ Com Ciência ]

Projeto Farmácias Vivas: boas expectativas para o futuro

Da Agência Funcap
Por Sílvio Mauro

O Horto de Plantas Medicinais, base do projeto Farmácias Vivas criado pelo farmacêutico e professor da UFC Francisco de Abreu Matos e que hoje leva o seu nome, deverá ser reconhecido como Horto Matriz do Estado do Ceará ainda esse ano. Essa é a expectativa da professora Mary Anne Medeiros, que assumiu a coordenação do programa com o falecimento do professor, no fim do ano passado. Ela garante que a iniciativa de estudar cientificamente ervas medicinais usadas pela população, criada pelo professor, terá continuidade.

“A Farmácia Viva é uma grande escola. A gente não pode deixar morrer”, afirma Mary Anne. Ela acrescenta que uma das principais fontes de recursos do projeto, a verba fornecida pela Veda (uma instituição internacional que financia empreendimentos agrícolas em todo o mundo), já foi garantida para esse ano com a renovação do contrato, ocorrida recentemente.

Segundo a professora Maria Goretti Vasconcelos, do Laboratório de Produtos Naturais, que fica anexo ao Horto de Plantas Medicinais Francisco José de Abreu Matos, ainda há muito a fazer no processo de continuidade do projeto. Existem cerca de cem espécies catalogadas, mas apenas um quarto delas já teve os efeitos comprovados cientificamente.

Além do trabalho de estudo das plantas, também há planos de expansão do Farmácias Vivas. Um dos mais importantes, para esse ano, de acordo com Goretti, é a criação de uma farmácia no Jangurussu, uma das áreas mais pobres de Fortaleza e onde ficava localizado o antigo aterro de lixo da cidade. Ele já foi desativado, mas os efeitos da poluição do solo ainda são sentidos pela população. “Um problema muito freqüente por lá é a diarréia. Também pretendemos fazer com que eles tenham acesso à acerola, que é uma fonte de vitamina C”, explica.

A partir da oficialização do Horto Matriz do Ceará, Mary Anne espera que o local se torne referência, no Nordeste, e leve a filosofia do projeto Farmácias Vivas para toda a região. Outro benefício, com a medida, é o possível estabelecimento de convênio com a Secretaria de Saúde, o que poderá expandir a atuação dos tratamentos feitos a partir das plantas regionais.

Atualmente, mesmo com limitações financeiras, o projeto Farmácias Vivas já foi implantado em cidades do Ceará, Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte e em Brasília. Além disso, o professor Abreu Matos mostrou o projeto para pesquisadores de Belém do Pará e da região Sul. Mary Anne acrescenta que outra meta para popularizar a iniciativa é a criação de um curso de fitoterapia caseira para pessoas da comunidade. Nele, os interessados poderão passear pelo horto, fazer o reconhecimento de plantas (diferenciando espécies parecidas) e aprender a preparação de chás e lambedores.

Sem esconder o entusiasmo pelo projeto, a professora assegura que a filosofia do Farmácias Vivas, de possibilitar à população o uso de remédios extraídos de plantas populares – e, dessa forma, baratear os tratamentos – será mantida. “O professor Matos foi um grande cientista. Mas o grande legado dele foi ensinar o homem a fazer uso das plantas da sua terra”, finaliza.

Fonte: [ Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior ]

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2 Comentários

Arquivado em Fitoterápicos, Plantas Medicinais

2 Respostas para “Entre o conhecimento popular e o científico

  1. alvaro

    pesso a todas as pessoas do mundo para que não mate as plantas

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  2. Naturalmente saudavel para aqueles que estao enfermo pouco divulgado uma questao capitalista…

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