Manisfesto a favor da Fitoterapia

Meu nome é Degmar Ferro, sou médico há 25 anos, cardiologista e intensivista, acupunturista e homeopata, formado pela UNESP-Botucatu e com residência médica na USP-Ribeirão Preto, autor de livro sobre fitoterapia pela editora Atheneu, e estou muito perplexo, como muitos, pelo quadro que se iniciará no Fantástico sob a responsabilidade do dr. Drauzio Varella, médico de renome e muito respeito que, segundo entrevista publicada recentemente na revista Época, e agora em rede aberta, tentará “destruir” (ao nosso ver) todo esforço de décadas que vem se fazendo para que a fitoterapia possa ser utilizada em escala pública (tanto para ricos como pobres) com grandes benefícios para todos (exceto para indústria farmacêutica que não seja ética), quando forem dadas as melhores condições possíveis de aplicabilidade ética.

Um espaço se abriu no governo, no esforço de muitos, até por recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde ), focando os países pobres e em desenvolvimento, para que um sistema de utilização da fitoterapia se inicie na saúde pública, com correções e ajustes subsequentes, na medida da necessidade de adequação e segurança, com ampla discussão por classes especializadas.

A pretexto das distorções que se apresentam no Brasil como um todo, assim como em todos os sistemas terapêuticos, e em todos países, tentará o médico de renome em questão, se for mantida a coerência da entrevista recente na revista Época, desmerecer esta área terapêutica maravilhosa, culturalmente nata no nosso país pobre, que tem a maior biodiversidade do planeta.

Aliás isto já aconteceu outrora, no século passado, quando do desenvolvimento inicial da indústria farmacêutica, que relegou para último plano a sabedoria e conhecimento dos usos terapêuticos das plantas medicinais e recursos naturais, a pretexto de ter encontrado o elixir de cura de todos os males no isolamento e síntese dos diversos grupos químicos. Não é a realidade que encontramos no modelo de medicina cada vez mais cara, sofisticada e elitizada, sem sanar grande parte dos males que nos afligem, a não ser paliativamente.

Ninguém em sã consciência pode negar e deixar de usar os avanços diagnósticos da ciência atual, a vitória contra muitas epidemias com as vacinas de massa, a diminuição drástica de mortalidade por doenças infecto-contagiosas com os antibióticos, as curas espetaculares com técnicas invasivas em diversos campos (em especial na cardiologia), clonagem de células na recuperação de tecidos degenerados, engenharia genética, entre muitos outros avanços, porém não podemos deixar de ver que existe uma lacuna imensa de doenças crônicas cuidadas apenas paliativamente, por conta de nosso afastamento das leis naturais e dos recursos naturais, entre os quais vamos encontrar como a mais antiga e mãe de todas, a fitoterapia.

A experiência multimilenar (na Índia, China, etc.) e secular no Brasil será (como o foi na revista) pretensamente jogada no lixo como crendice, distorção e enganação, quando não como charlatanismo, por não se enquadrar no modelo de validação de custo milionário de investigação cartesiana (puramente estatística e com variáveis tão somente organicistas e materialistas) onde só quem tem o grande poder aquisitivo pode fazê-lo (as indústrias, grandes laboratórios, etc.) e o fazem somente quando convém aos seus próprios interesses e não ao progresso comum ao todo.

Todos os que acreditam neste método terapêutico natural e o usam, mesmo que sérios e éticos (respeitando-se todos os riscos de toxicidade e interação já estudados farmacologicamente), serão tidos como “idiotas” e a esperança do povo morta… a esperança de ver seu governo e seus médicos organizando, estudando e adequando aquilo que lhe é de direito cultural nos seus anseios. A esperança de ver corrigido os mitos, as distorçoes e abusos, com estudos (adequados à nossa realidade) e que lhes garantam um mínimo de segurança, sem tirar-lhes o direito de utilizar-se de sua cultura como patrimônio valioso inalienável e a oportunidade de poder se tratar com recursos simples e naturais, de forma acessível, validados pela experiência de muitas nações que se perde no tempo.

A impossibilidade financeira e de interesses (públicos e industriais) de validarmos com estudos clínicos multimilionários os 99,9% de recursos naturais existentes em nosso país, não pode mais ser motivo de sermos chamados “tolos ou charlatães” por querermos numa terapêutica mais natural também fazermos uma medicina mais humana, não só “baseada em evidências”, mas sobretudo “baseada no amor ao próximo”, buscando de todas as formas que nos for possível, o alicerce seguro para nossas ações e construções futuras.

Como fomos chamados de “idiotas”, e sem nos ofendermos com isto pois não nos sentimos assim, reservamo-nos pelo menos no direito de dizer ao dr Drauzio e aos que compartilham com ele nesta cruzada contra a fitoterapia, que apesar de rico em cultura, conhecimento, fama e talvez em recursos financeiros, mostra-se muito pobre em sabedoria em não respeitar as verdades e ideais dos outros, naquilo que ainda lhe escapa ao entendimento cerebral, muito estreito e limitado quando olhamos todos dos primeiros degraus no pensamento humano, o todo do conhecimento universal ainda a ser desbravado (e isto só se fará com muita humildade , sem arrogância “científica”).

Este desrespeito se concretiza ao publicar em revista de renome e em rede aberta de tv a “sua verdade científica”, numa “ciência” que não raro se vê na condição de ter de reconhecer reiteradamente como mentira o que tinha afirmado como verdade certa (vejamos os exemplos comuns de medicamentos que foram aprovados pelo FDA como cura, verdade, segurança e depois desaprovados como risco e enganos).

O paradigma de compreensão e estudo, antes de aniquilar os que pensam diferente, precisa ser eticamente ampliado em variáveis novas, com redução de custos, com isencão de interesses, com a compreensão de outros campos de entendimento global do ser, mas sobretudo com amor a tudo e ao todo.

Seria muito digno, se o meu colega médico dr Drauzio, ao meu modo simples de ver, se limitasse com todas as forças de persuação que possui no respeito público que conquistou com seus próprios méritos, de apenas mostrar e corrigir as distorções sabidamente existentes no sistema em questão, evitando os abusos e os riscos de desinformação, e lutando por aprimorá-lo, se assim tivesse interesse. Mas perde a oportunidade de ajudar, causando pelo contrário, o desserviço do recuo imediato daqueles que estão se alistando (ainda sem a convicção da experiência) no desenvolvimento deste campo imenso de possibilidades, quando publica em revista que, aqueles que confiam no aprimoramento do método fitoterápico, são verdadeiros idiotas por quererem conhecer, utilizar, desenvolver e estudar o que temos de mais rico em nosso pais (em cultura e biodiversidade) sem depender da indústria de interesses nem sempre felizes.

Os protestos de conselhos de classe, associações, entidades ligadas à fitoterapia, instituições de pesquisa, usuários fiéis que se curaram com a fitoterapia (na falha do convencionalmente aceito) se multiplicam por todo país, numa nação democrática que somos e a mais rica em plantas medicinais do planeta. Eis então o meu protesto legítimo, de direito, que quero enviar para Globo, revista Época, ANVISA e todos os órgãos afins, antes da série “serve para quê??” no programa “Fantástico-Globo” já neste domingo, e sem perder o respeito por tudo que o dr. Drauzio já fez pelo nosso país em termos de orientações e esclarecimentos nos diversos quadros sobre saúde que apresentou na Globo.

Espero que todos que compartilham com esta idéia e com este ideal, se juntem ao manifesto global, para que nesta triste oportunidade que o dr Drauzio nos proporciona, possamos manter o direito de aprimorarmos nossas escolhas terapêuticas (como médicos e pacientes) dentro da ética e do respeito mútuo, sob as bençãos de Deus, dando sustentabilidade à iniciativa governamental tão esperada no campo da fitoterapia.

Degmar Ferro
24 de agosto de 2010

Fonte: (Recebida por email)

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5 Comentários

Arquivado em Caso Drauzio Varella, Fitoterápicos, Plantas Medicinais

5 Respostas para “Manisfesto a favor da Fitoterapia

  1. Prezado Dr. Degmar,

    Apoio integralmente o Manifesto a Favor da Fitoterapia e acrescento que todos nós que defendemos a fitoterapia neste país, devemos nos unir contra esta campanha desonesta promovida pelo Sr. Dráuzio Varella, que numa atitude desrespeitosa agrediu de forma infeliz e totalmente destituída de fundamento, todos aqueles que no Brasil, profissionalmente ou não, utilizam a terapêutica fitoterápica. Os interesses escusos que, por certo, apoiam esta iniciativa estão cada vez mais claros para todos nós.
    Estamos todos mobilizados em defesa da fitoterapia, é claro, mas não se preocupem porque com certeza o povo brasileiro não dará apoio a esta tentativa, de antemão fracassada, de denegrir a imagem da fitoterapia no Brasil. O futuro dirá quem tem razão.

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  2. Marcio Biscaia

    Prof. Douglas Carrara e Dr. Ferro,
    Enquanto não questionarmos o imenso PODER da OMS, e toda a arbitrariedade exercida por esse organismo sem face, nós, não enquanto profissionais de saúde, mas enquanto cidadãos de um país ainda soberano, teremos que aceitar inermes à absurdos (politicamente corretos) de tipos como o Drauzio Varela e José Gomes Temporão que agem como meros instrumentos para implantar a verticalização e padronização internacional da nossa legislação sanitária.
    Não tenham dúvidas de que as orientações da OMS estão em comum acordo com os grandes laboratórios farmacêuticos internacionais e que querem nos fazer acreditar que precisamos SUBMETER O NOSSO PATRIMONIO ETNICO-FARMACOLÓGICO ao “método científico” para questionarmos a validade desse nosso conhecimento milenar.

    É claro que isso é um crime contra a humanidade, pois TODOS AQUI SABEMOS que método científico atual é limitado pelo rigor “linear-cartesiano” e tautológico da investigação do sec. XIX e porque a verba de pesquisa depende deste resultado “positivo” e “reproduzível”. O Dr. Drauzio deve aprender que uma planta medicinal viva na natureza não se resume à princípios-ativos, esse pretensioso “recorte da natureza” que os cientistas tentam reproduzir no laboratório, e que a OMS garante que é científico é uma empulhação (quem faz esse tipo de pesquisa com fitoterápicos, sabe que raramente, ou NUNCA se obtém os mesmos resultados de um medicamento alopático.
    Meu sentimento é que o Brasil perderá o seu maior patrimônio, o conhecimento milenar de suas plantas medicinais, se ficar lambendo as botas da OMS.

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  3. O Presidente do Conselho Federal de Farmácia, Jaldo de Souza Santos, entrou em contato com o Dr. Drauzio Varella, perguntando sobre a afirmação “a indicação de plantas e fitos para o tratamento de doenças é um erro, inclusive do Ministério da Saúde.”

    A resposta que ele obteve é pra lá de interessante.

    Diz o Drauzio Varella:

    condeno “a falta de estudos clínicos” relacionados a esses produtos

    e…


    Ao contrário do que o senhor entendeu, para mim a Fitoterapia é um dos caminhos mais promissores para obtermos medicamentos eficazes e mais baratos do que os atuais.

    Talvez seja esse o futuro de uma indústria farmacêutica verdadeiramente nacional.

    >>>

    Investir na Indústria é sim, claro, um dos pontos necessários. O desenvolvimento do conhecimento científico é uma das razões de estarmos vivos, bem alimentados e aparentemente satisfeitos.

    Fomentar a pesquisa, a busca pela “anatonímea” – se me permite o neologismo, é um caminho que merece ser trilhado, ainda que os paradigmas estejam atrelados, de um ou mais pontos específicos, ao princípio ativo.

    O conhecimento das substâncias que a Natureza reuniu em estruturas integradas, permite que entendamos como a planta funciona como um todo. Conquistamos este saber e ele é passado de geração para geração.

    A indústria farmacêutica, ao meu ver, deve patrocinar pesquisas, investir em ciência e buscar cumprir, pelo mérito, sua conquista de novos horizontes.

    Não adianta estocar sementes de variedades do mundo, sem que nós tenhamos o controle da decisão do que iremos ingerir, estudar e plantar.

    A medicina que cuida da vida é vária, incluindo aí pensamentos, conhecimentos empíricos, científicos, antropogênicos, estudos de solo, água, calor, substâncias, e princípios, acima de tudo, éticos.

    O que passamos em nossa pele, nossos cabelos, nossos olhos, nosso organismo, não pode ficar ao sabor de interesses comerciais. A Ciência é um veículo, quem o guia somos nós. Não dá e não é correto impor que a Ciência seja a única verdade.

    Espero sinceramente que o Dr. Drauzio respeite isto e leve ao público em geral, as informações corretas e coerentes com seu próprio juramento:


    Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade.
    Darei como reconhecimento a meus mestres, meu respeito e minha gratidão.
    Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade.
    A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação.
    Respeitarei os segredos a mim confiados.
    Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica.
    Meus colegas serão meus irmãos.
    Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes.
    Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza.
    Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra

    (*) anatonímia – metonímia com a anatomia

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  4. Mario de Moura Rodrigues

    Apoio totalmente o manifesto!
    Com todo o respeito que o Dr. Drauzio merece, ele precisa saber colocar os assuntos sem a necessidade de ferir seus pares e os que necessitam do poder das plantas, salvo as credinces, por não terem acesso a um sistema de saude digno e eficiente.
    Mario de Moura Rodrigues
    Fisioterapeuta Acupunturista

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  5. Marcio Biscaia

    Acho que o Debate com o Sr. Drauzio deverá em princípio questionar as mortes e morbidades ocasionadas por IATROGENIA FARMACOLÓGICA no mundo, um pesquisa rápida no google, vai apontar para uma verdade aterrorizante, os medicamentos alopáticos são os responsáveis direta ou indiretamente pela terceira maior causa de mortes no mundo . Sendo que o maior problema não é a automedicação e sim a consulta em vários especialistas que prescrevem isoladamente;

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