As ervas de Drauzio Varella – capítulo 3

Por que tanta gente acredita em teoria da conspiração?

Cristiane Segatto

CRISTIANE SEGATTO
Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 15 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo. Para falar com ela, o email de contato é cristianes@edglobo.com.br

Não faz muito tempo fui acusada de perseguir a indústria farmacêutica. Havia criticado, numa coluna, os métodos empregados pelos propagandistas de laboratório e a prática amplamente difundida entre os grandes fabricantes de oferecer brindes e viagens aos médicos. Não tive o menor pudor de dizer que, quando a indústria farmacêutica bajula os médicos, quem paga a conta é você. Quem quiser ler as críticas e os elogios que recebi, pode acessar esse link.

O mesmo tipo de crítica recebi quando publiquei uma reportagem de capa na edição impressa de Época que questionava os benefícios das estatinas (remédios para baixar o colesterol) em pacientes que nunca tiveram um infarto. O título da matéria era “Colesterol: o que o médico não diz”.

No grupo de pessoas que já infartaram, os estudos demonstram que as estatinas evitam mortes. No caso de quem nunca infartou, o benefício das estatinas é questionável, como a reportagem revela. Esse não é o único caso em que as vantagens apregoadas pelo fabricante de determinado remédio são excelente peça de marketing baseada em ciência discutível. Para separar o joio do trigo, existe a chamada medicina baseada em evidências.

Quem se dedica a esse campo aprende a vasculhar as bases de dados de artigos científicos e a decifrar as “pegadinhas” presentes neles. Ou seja: a seleção inapropriada de pacientes, os jogos estatísticos e outras artimanhas que podem compremeter a lisura dos estudos e induzir os médicos (e o público) a usar uma droga cara que não serve para nada ou que pode ter efeitos colaterais inaceitáveis. Algumas dessas artimanhas só vêm a público depois que o remédio já está no mercado.

O caso mais recente é o do Avandia, remédio contra diabetes produzido pela GlaxoSmithkline. Estudos clínicos sugeriram que o remédio aumenta o risco de problemas cardíacos em diabéticos. Segundo uma reportagem publicada recentemente pela revista TIME, a empresa tentou convencer a FDA, a agência americana que controla medicamentos e alimentos, de que os estudos eram inconclusivos. Não faltam exemplos de golpes baixos perpetrados pela indústria farmacêutica. Nunca deixei de reportá-los.

Agora me acusam de defender a indústria farmacêutica. Ou pior: de estar a serviço dela, de ter sido “comprada” por ela. A nova polêmica começou com a publicação, aqui nesse espaço, da entrevista com o médico Drauzio Varella sobre a série É bom pra quê?, apresentada por ele no Fantástico. Diante da repercussão, decidimos investigar os argumentos dos que apoiavam Drauzio. E também dos que o acusavam se estar envolvido num complô das Organizações Globo para beneficiar a indústria farmacêutica. Com a publicação da segunda reportagem, desta vez na edição impressa, a controvérsia prosseguiu.

Muita gente apelou para a teoria da conspiração. É sempre uma saída fácil quando se pretende evitar discussões incômodas. Se me acusam de perseguir a indústria farmacêutica e também de defendê-la, isso significa que não faço uma coisa nem outra. Significa que sou uma jornalista tentando cumprir meu papel. Com seriedade e independência.

Qual é o cerne da questão levantada por Drauzio? Segundo ele, as ervas e os fitoterápicos (medicamentos feitos à base de plantas) não são submetidos ao mesmo escrutínio científico dos remédios sintéticos (aqueles que a população chama de alopáticos). Antes de oferecer esse tipo de tratamento no SUS, diz Drauzio, é preciso ter certeza da eficácia deles e conhecer as interações medicamentosas que eles possam provocar quando usados com remédios convencionais.

Drauzio defende que as ervas e os fitoterápicos sejam submetidos a estudos rigorosos, que no jargão científico são chamados de fase III. São estudos que envolvem centenas de pacientes (às vezes mais de 1.000) ao longo de meses ou anos. São estudos multicêntricos (feitos em diversos centros segundo a mesma metolodologia) e randomizados. Ou seja: os pacientes são distribuídos aleatoriamente em dois grupos.Um deles recebe o medicamento cuja eficácia já foi demonstrada e o outro grupo recebe a erva ou o fitoterápico em avaliação. Esses estudos também são do tipo duplo-cego (nem o paciente, nem o examinador sabem qual das duas drogas o doente está recebendo).

Fizemos questão de entrevistar, para a reportagem publicada na edição impressa, representantes de entidades que reagiram às declarações de Drauzio. Alguns sustentam que essas substâncias já foram submetidas a amplos estudos clínicos que confirmaram a segurança e a eficácia delas. Um deles é Roberto Boorhem, presidente da Associação Brasileira de Fitoterapia. Pedimos que ele nos enviasse esses estudos. Sem nenhum preconceito, fiz a lição de casa de qualquer jornalista. Li atentamente cada um dos estudos em busca de evidências inequívocas de eficácia. Elas não estavam lá. Por isso, não as publiquei.

Boorhem reclamou: “Por solicitação da reportagem da Época, enviei a essa revista dez referências de estudos clínicos controlados, incluindo alguns estudos de revisão que reúnem diversos desses realizados em vários países, que propositalmente não foram incluídos na matéria”, escreveu Boorhem, num comentário feroz postado em Época on-line.

Reproduzo, abaixo, alguns dos estudos enviados por Boorhem. Indico também as referências para aqueles que queiram buscar os estudos na íntegra nas bases de estudos científicos. Observem, principalmente, às informações em negrito:

ALCACHOFRA E MÁ DIGESTÃO

Objetivo: Avaliar a eficácia do extrato de alcachofra no tratamento de pacientes com dispepsia. Estudo randomizado, duplo-cego, feito com 247 pacientes. Metade recebeu o extrato, metade recebeu placebo.

Tempo de avaliação: seis semanas

Conclusão dos autores: O extrato testado foi significativamente melhor do que o placebo no alívio de sintomas e na melhoria da qualidade de vida dos pacientes

Onde encontrar esse estudo:
Aliment Pharmacol Ther. 2003 Dec;18(11-12):1099-105.
Efficacy of artichoke leaf extract in the treatment of patients with functional dyspepsia: a six-week placebo-controlled, double-blind, multicentre trial

ERVAS E COLESTEROL

Objetivo: Avaliar as evidências clínicas disponíveis sobre o uso de ervas medicinais no tratamento do colesterol.Vinte e cinco estudos clínicos randomizados envolvendo onze produtos à base de ervas medicinais foram identificados. Os mais estudos foram guggul (árvore indiana), fenugreek (feno-grego), red yeast rice (arroz fermentado com levedura vermelha) e artichoke (alcachofra). Os estudos demonstraram reduções no nível de colesterol entre 10% e 33%.

Conclusão dos autores: Muitos produtos à base de ervas medicinais apresentam potencial de redução do colesterol e resultados encorajadores em termos de segurança. No entanto, existem poucos estudos capazes de justificar a eficácia desses tratamentos. Mais pesquisas são necessárias para estabelecer o valor desses extratos no tratamento do colesterol alto.

Onde encontrar esse estudo:
J Fam Pract; 2003 Jun;52(6):468-7
Herbs for serum cholesterol reduction: a systematic view.

ALHO E COLESTEROL

Objetivo: Revisar os estudos clínicos disponíveis na literatura médica para apontar os efeitos do alho sobre a saúde. Foram incluídos na revisão apenas os estudos randomizados, duplo-cego que usaram apenas preparações de alho. Também foram incluídas metanálises ou revisões sistemáticas de estudos clínicos randomizados

Conclusão dos autores: O efeito do alho na redução do colesterol e da hipertensão não são clinicamente significantes. Os estudos disponíveis não permitem conclusões sobre os efeitos do alho sobre o câncer, o resfriado, a doença arterial periférica e a pré-eclâmpsia. Essa revisão sistemática não traz evidência convincente sobre a eficácia do alho em qualquer doença.

Onde encontrar esse estudo:
Pittler MH, Ernst E. Clinical effectiveness of garlic (Allium sativum). Mol Nutr Food Res. November 2007;51(11):1382-1385.

CAMOMILA E ANSIEDADE

Objetivo: Estudo randomizado, duplo-cego, feito com 57 pacientes com diagnóstico de ansiedade generalizada. Metade recebeu o extrato, metade recebeu placebo.

Tempo de avaliação: oito semanas

Conclusão dos autores: O uso de camomila pode produzir uma melhoria modesta nos sintomas de ansiedade nos pacientes com ansiedade leve ou moderada. O estudo demonstrou que o extrato de camomila é seguro e tolerável. Embora os resultados sejam limitados pelo pequeno tamanho da amostra, pela variabilidade da dosagem e pela curta duração do estudo (8 semanas), os resultados positivos de eficácia justificam o uso de camomila como um tratamento complementar em casos de ansiedade leve ou moderada. Os resultados indicam a necessidade de mais estudos.

Onde encontrar esse estudo:
Amsterdam JD, Li Y, Soeller I, Rockwell K, Mao JJ, Shults J. Randomized, double-blind, placebo-controlled trial of Matricaria recutita (Chamomile) extract therapy for generalized anxiety disorder. J Clin Phsycopharmacol. 2009;29: 378-382.

ERVA-DE-SÃO-JOÃO E DEPRESSÃO

Objetivo: É uma das ervas usadas há mais tempo na Europa e uma das mais estudadas. A planta tem mais de 150 componentes. Metade ainda não foi caracterizada. A concentração dos componentes ativos varia de acordo com o estágio de desenvolvimento da planta e os métodos de extração. O objetivo desse estudo é resumir o conhecimento atual sobre os efeitos dela. Uma revisão sistemática atualizada em 2008 encontrou 29 estudos de alta qualidade, duplo-cegos e randomizados feitos com 5.500 pacientes

Tempo de estudo: 6 a 12 semanas

Resultados: Estudos que acompanharam os pacientes por um prazo de seis a doze semanas sugerem que os extratos são tão efetivos quanto os antidepressivos no tratamento da depressão. Nos estudos realizados em países que falam alemão houve mais resultados positivos do que nos demais países

Conclusão dos autores: Extratos de alta qualidade são seguros e efetivos. O risco de interações com outras drogas deve ser levado em consideração. Mais estudos são necessários para caracterizar a estrutura e a atividade biológica dos outros componentes da erva-de-são-joão. Também são necessários mais estudos para avaliar os riscos e a importância clínica de interações entre a erva-de-são-joão e as medicações. Outra área que precisa ser explorada é o “efeito país”, afinal, mais efeitos positivos foram observadas em estudos conduzidos em país de língua alemã.

Onde encontrar esse estudo:
Liinde K. St. John’s wort-an overview. Forsch Komplementmed. July 2009;16(3): 146-155.

CIMICIFUGA E MENOPAUSA

Objetivo: Revisar as evidências científicas disponíveis sobre a eficácia de preparações à base de Black Cohosh (cimicifuga ) para o tratamento de sintomas da menopausa. Os autores levantaram artigos científicos publicados entre 1950 e 2008. Os autores elegeram os nove melhores estudos feitos com mulheres entre 50 e 59 anos. Esses nove estudos foram avaliados.

Conclusão dos autores: Essa revisão é limitada pelo pequeno número de estudos clínicos e pela heterogeneidade deles. Os resultados são consistentes com revisões anteriores que sugeriram que Black cohosh traz benefícios na redução de sintomas vasomotores (suores noturnos, por exemplo) da menopausa. Mais estudos são necessários para apontar a eficácia e a segurança do produto.

Onde encontrar esse estudo:
Shams T, Setia MS, Hemmings R, McCusker J, Sewitch M, Ciampi A. Efficacy of black cohosh-containing preparations on menopausal symptoms: a meta-analysis. Altern Ther Health Med. January/February 2010;16(1): 36-44.

CURCUMINA E CÂNCER DE MAMA

Objetivo: Um dos quimioterápicos mais usados contra o câncer de mama é o docetaxel. Nem todos os pacientes respondem ao tratamento. Combinar diferentes drogas é uma forma de tentar melhorar o resultado do tratamento. Para isso, a combinação não pode aumentar a toxicidade do tratamento. A curcumina, extraída de uma raiz, demonstrou, em laboratório, ter atividade contra células de câncer de mama. Estudos clínicos demonstraram que altas doses de curcumina são toleráveis em pacientes com câncer. O objetivo desse estudo foi avaliar a dose máxima tolerável de curcumina, quando combinada com docetaxel. É um estudo fase I, feito com apenas 14 pacientes.

Conclusão dos autores: Esse é o primeiro estudo clínico a avaliar a combinação de curcumina e docetaxel em pacientes com câncer de mama avançado e metastático. Esse estudo não avaliou a eficácia da curcumina, apenas a segurança. Um estudo fase II vai comparar a combinação de curcumina (6.000 miligramas/dia) e docetaxel e o uso exclusivo de docetaxel.

Onde encontrar esse estudo:
Bayet-Robert M, Kwiatkowski F, Leheurteur M, et al. Phase I dose escalation trial of docetaxel plus curcumin in patients with advanced and metastatic breast cancer. Cancer Biol Ther. January 2010;9(1): 1-7.

Se eu escrevesse que um medicamento novo (uma droga sintética) é eficaz baseada nesse tipo de evidência, seria acusada de leviana, de ter sido comprada pela indústria etc. Por que, então, devo aceitar que a eficácia das ervas e dos fitoterápicos foi suficientemente demonstrada?

Segundo a Anvisa, “os estudos clínicos fase III, controlados, duplo-cegos, randomizados, de longo prazo, multicêntricos, não são a única forma de garantir a eficácia dos fitoterápicos. Existe a possibilidade de comprovar sua segurança e eficácia com base no seu histórico de uso seguro e efetivo”.

Não tenho dúvidas de que o conhecimento tradicional sobre plantas, perpetuado por pajés e raizeiros, é um patrimônio que precisa ser conhecido e valorizado. Mas não entendo por que devemos negar a necessidade de investir em estudos clínicos amplos e criteriosos. Uma coisa não exclui a outra. Fitoterápicos e ervas contêm centenas de substâncias. Não é fácil manter a qualidade e a concentração dos princípios ativos presentes neles. Quanto mais estudados eles forem, melhor para todo mundo.

Como podemos afirmar que os fitoterápicos e as ervas provocam menos efeitos colaterais e reações adversas quando usados com remédios convencionais se esses eventos não foram devidamente estudados? As listas de efeitos colaterais que lemos nas bulas dos remédios convencionais são de meter medo. Por que há tantas encrencas descritas ali? Provavelmente porque essas substâncias foram mais estudadas. Se as plantas fossem tão investigadas clinicamente como são os medicamentos alopáticos, talvez a bula de um chá fosse parecida com a da aspirina.

Não estou dizendo que as plantas medicinais não servem para nada. É possível que existam benefícios não comprovados, a julgar pelo uso tradicional e milenar de ervas no cuidado da saúde. É razoável supor que existam fatos verdadeiros sobre o nosso corpo que não possam ser comprovados sequer pelo método adotado nos estudos clínicos mais confiáveis. Isso significa que devemos propagar todas as crendices que aparecem?

Não. É triste ver, pelo Brasil afora, tanta gente perdendo tempo e saúde por causa de crendices. É preciso deixar claro: não existe planta ou fitoterápico capaz de curar doenças graves como aids, diabetes, câncer e tantas outras. Mas a crença de que as plantas têm esse poder é contagiosa. Quem assistiu ao Fantástico no dia 29 viu uma mulher que tem câncer de mama ser tratada com ervas e lama. Devemos nos conformar?

Nesse debate sobre as ervas, ouvi de tudo. Elogios e insultos. Aprendi, nesses 15 anos de cobertura de saúde, a não me impressionar demais nem com um nem com outro. Elogios e insultos são efêmeros. Um dos comentários, porém, me deixou intrigada. Foi o de uma mulher que se incomodou com a minha “cara de anjo”. Desde quando a aparência física é capaz de revelar algo sobre a competência profissional de alguém? O nome disso é preconceito.

Desse mal estou livre. Não tenho preconceito contra a fitoterapia, a homeopatia, a alopatia ou o que for. Nem contra as pessoas que praticam qualquer uma dessas linhas. Em vez de preconceito, tenho respeito pela dedicação de botânicos, farmacêuticos, químicos, médicos, terapeutas, antropólogos, pajés, raizeiros etc. Respeito e me solidarizo com todas as pessoas que se dedicam a aliviar o sofrimento nos lugares esquecidos pelo poder público. Nos rincões distantes e nas periferias das grandes cidades.

Não é difícil compreender o papel que as ervas desempenham no cuidado de quem não tem acesso a outra forma de tratamento. O uso tradicional e os estudos clínicos disponíveis (ainda que limitados) sugerem que elas possam aliviar sintomas de alguns males. Não faltam relatos de pessoas que dizem ter se beneficiado pelas plantas em casos menos complicados do que o câncer ou a aids. Isso não basta, porém, para que a eficácia desse tipo de tratamento seja considerada uma verdade científica.

Se o meu trabalho fosse apenas dizer palavras doces que não desagradam a ninguém, certamente não ouviria as agressões que ouvi nas duas últimas semanas. Faz parte do meu ofício esmiuçar assuntos polêmicos e enfrentar as críticas que eles suscitam. Faço isso com humildade, dedicação e com a esperança de contribuir para aliviar o sofrimento de quem pode tão pouco. A quem perguntou nesta semana se não tenho consciência e coração, respondo: sigo em frente. Justamente por ter consciência e coração.

Fonte: [ Revista Época ]

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2 Comentários

Arquivado em Caso Drauzio Varella, Fitoterápicos, Medicamentos

2 Respostas para “As ervas de Drauzio Varella – capítulo 3

  1. Eu acredito na Teoria da “Corporativização”.

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  2. Lucas Falcão

    Parabens pelo trabalho apresentado. Apraz-me saber mais. Aguardo.
    Obrigado;
    .

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