É bom pra quê? Parte 3

Químico do MA receita extrato de graviola para tratar câncer

Ele consulta pacientes, faz diagnósticos e receita remédios a base de plantas, mas não é médico. E o extrato de graviola, testado em laboratório, pode multiplicar as células cancerígenas.

O doutor Drauzio Varela conta a história de um químico do Maranhão que fabrica e receita produtos à base de plantas para tudo que é tipo de doença, um absurdo que nos faz repetir a pergunta sobre os fitoterápicos.

Imperatriz é a segunda maior cidade do Maranhão. Cerca de 236 mil pessoas vivem nela, e mais da metade é pobre. E 26% são analfabetas. A cidade tem um único hospital público grande e 34 postos de saúde. Em um deles, encontramos Dona Carmosina.

“Em 90% dos pacientes que chegam com ferimentos que demoram a cicatrizar, ela (a pomada de graviola) tem funcionado muito bem”, diz o médico do posto.

Dona Carmosina não foi atrás de nenhum curandeiro, procurou um posto de atendimento do Sistema de Saúde Pública (SUS). Lá, ela recebeu uma receita assinada por um médico: pomada para graviola, que não serve para nada.

O professor Antônio Augusto Brandão Frazão dá aulas na Universidade Estadual do Maranhão. Ele tem um centro de tratamento com plantas na área do Aeroporto de Imperatriz, construído e mantido pela Infraero. Nesse local, ele consulta pacientes, faz diagnósticos e receita remédios a base de plantas, sem ser médico. O professor é químico.

“Já existem relatos na literatura da graviola em animais experimentais com agressão ao fígado e com diabetes. E também a própria Anvisa, no guia fitoterápico, relata que o uso prolongado da graviola pode causar alterações no pâncreas e levar ao diabetes”, aponta Raymundo Paraná, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia.

O caso que documentamos em Imperatriz, no Maranhão, é apenas um pequeno exemplo desse descontrole que põe em risco a vida dos brasileiros.

Dr. Drauzio Varela – O que o ministério pensa a respeito do tratamento de doenças com produtos naturais?
Reinaldo Guimarães, secretário do Ministério da Saúde – O ministério entende que essa é uma alternativa terapêutica que deve ser oferecida.

Frazão mostra como ele fica sabendo que Dona Carmosina está com grande infestação. Mas Dona Carmosina não está com nenhuma infestação. Qualquer estudante de primeiro ano de medicina sabe que a sigla MID significa membro inferior direito. Ou seja, o que a receita diz é que a ferida está localizada na perna direita.

“Então, a gente vai utilizar a tintura da graviola com um grau de concentração um pouco alto, colocar o óleo da copaiba, que é um bactericida, e bater a pomada”, explica Frazão.

“O que eu posso dizer é o seguinte: se eu tivesse com uma ferida infectada no membro inferior direito, eu não ia passar pomada de graviola. Seria um erro nós acharmos que a política do Ministério da Saúde para fitoterápicos estimula esse tipo de coisa. Até hoje nós incorporamos apenas oito medicamentos fitoterápicos”, declara Reinaldo Guimarães, secretário do Ministério da Saúde.

Os oito fitoterápicos aprovados pelo Ministério da Saúde e distribuídos pelo SUS não passaram pelos estudos clínicos exigidos para os remédios convencionais, alopáticos. Por isso, não se sabe com detalhes que efeitos colaterais podem provocar.

“É a questão da segurança. A gente só vai conhecer a segurança, se nós tivermos estudos de qualidade, que envolvam centenas ou milhares de pacientes. Isso a gente não tem”, comenta Raymundo Paraná, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia.

O professor Frazão diz que já testou a pomada em ratos e em pacientes. “Nos leprosários, nos asilos de velhinhos, em escaras de decúbito, a gente foi vendo com o decorrer do tempo que ela tinha uma ação de regeneração do tecido”, aposta.

Os conselhos de ética consideram essa uma infração gravíssima. Os pacientes com hanseníase e os velhinhos nos asilos sabiam que estavam sendo usados como cobaias?

Olha a ideia que o professor Frazão faz da ciência: “a gente que tem o dom da pesquisa, a gente detesta papel para estar anotando nome, peso, tamanho, coisa e tal. O que eu gosto é de ver. Eu pego a foto e vejo. A minha estatística é essa”.

“Há quatro anos, nós estamos indicando a pomada do professor Frazão”, conta a enfermeira do posto Hilda Maria Costa Pinto.

Nós fomos até o Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com a farmacêutica Natasha Maurmann, e vamos fazer um teste com a pomada de graviola. Ela vai fazer um experimento em que vai provocar um ferimento em ratinhos que estão anestesiados, não vão sentir absolutamente nada.

Na verdade, o que ela vai fazer é comparar, ver se o local do ferimento em que colocou a pomada de graviola cicatriza mais depressa, mais lentamente, ou da mesma forma que o local onde está só o creme neutro, sem graviola.

A pomada de graviola não foi aprovada. Não houve diferença entre os ferimentos tratados com a pomada feita com a planta e naqueles tratados com um creme neutro. Ou seja, tanto faz uma pomada com ou sem graviola.

Gilberto Schwarrsmann, coordenador do Laboratório de Câncer do Hospital das Clínicas, critica a prescrição em um posto de saúde, pelo SUS, de uma pomada que não tem registro. “Eu acho que isso é uma irresponsabilidade, digamos assim, do ponto de vista de respeito ao próximo, ao ser humano”.

“Eu estou colocando todas as minhas esperanças, primeiramente em Deus, mas no extrato da graviola”, declara a química Maria Luiza Ribeiro Aires. Ela é química, casada e tem muita vontade de engravidar. Há cinco anos, ela descobriu que tinha um tumor na cabeça, perto da hipófise, e foi operada. “Em janeiro desse ano, eu fui fazer retorno, e ele me disse que esse restinho de tumor que tinha ficado voltou a crescer. Eu teria que fazer uma nova cirurgia”, revela.

O tumor pressiona o nervo óptico e Luiza já perdeu 90% da visão de um dos olhos. Mas esse não é seu maior medo. “Para a retirada do tumor, você perde muitas células da hipófise. Ali é onde estão nossos hormônios. E isso dificultaria mais ainda ser mãe”, confessa a química.

Se retirar o tumor, Luiza preserva o que resta da visão, mas a cirurgia pode estragar seu sonho.

O professor Frazão receitou extrato de graviola para sua ex-aluna: cinco gotinhas três vezes ao dia. “Eu fiquei muito feliz, muito mesmo, quando o professor chegou para mim e disse que eu iria tomar esse extrato e que eu iria ter uma possibilidade de regressão desse tumor. Foi uma esperança, uma luz no fim do túnel”, revela Luiza.

“Na oncologia, talvez metade das quimioterapias que nós usamos venham da natureza, mas isso é diferente de usar a natureza direto. Isso é o que a gente não gosta. É uma coisa irresponsável e ilegal”, critica Gilberto Schwarrsmann, coordenador do Laboratório de Câncer do Hospital das Clínicas.

Além da pomada, o extrato de graviola do professor Frazão também foi testado. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul pegaram várias culturas de células cancerígenas e dividiram em três partes. Na primeira, colocaram o extrato de graviola. Na segunda, apenas álcool, que é a base do extrato. E deixaram a última sem nada para servir de controle. Depois, compararam os resultados.

“Quando nós tratamos com o extrato de graviola, o que nós observamos é que houve um aumento de células em relação a sem nada de tratamento”, declara Caroline Bruneto de Farias, pesquisadora do Hospital das Clínicas de Porto Alegre.

Quer dizer, as células em vez de ter o crescimento inibido, em vez de parar de multiplicar, se multiplicaram mais ainda. Isso quer dizer que, se você tiver um tumor maligno e usar esta poção, ele pode crescer mais depressa. “Pode ser muito perigoso utilizar o extrato, porque o câncer pode aumentar”, diz a pesquisador.

Desde janeiro, Luiza toma o extrato de graviola que testamos em laboratório.

Em maio, ela descobriu que estava grávida. Mesmo que quisesse, agora não seria o momento mais adequado para retirar o tumor. “É um teste. Eu mesma quis me submeter a esse teste, foi minha escolha”, comenta a química.

O professor Frazão continua em seu centro de tratamento. Como ele, quantos não haverá no Brasil?

Fonte: [ Fantástico ]

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4 Comentários

Arquivado em Caso Drauzio Varella, Fitoterápicos, Plantas Medicinais

4 Respostas para “É bom pra quê? Parte 3

  1. Kailly Fernando

    boa noite,
    a rede globo não se decide no próprio globo repórter ela diz que a graviola é bom para o câncer veja isso http://www.youtube.com/watch?v=u7Z6cEUshDQ . agora vem com essa conversa que não serve para nada, tentando acabar com anos de pesquisa de um professor sem ao menos lhe dar o direito de resposta, ele respondeu aki http://www.youtube.com/watch?v=Lb5WYdWCPwU .
    químico reconhecido internacionalmente

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  2. Minha dúvida nesta palhaçada toda…, se de tudo o Dr. Drauzio Varela de fato levou foi a pomada sem adulteração.
    Porque o resultado declarado pela Universidade pode ir a justiça. E se o produto não for de fato a pomada do Dr. Frazão, alguém vai ter quer pagar uma indenização milionária. Providencias estão sendo tomadas.

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  3. Manhã de terça-feira, dia 09 de março, a agente de saúde Francisca Lima inicia suas atividades. Parti do Programa Saúde da Família – PSF do Parque Anhaquera com um pequeno frasco de uma pomada a base de graviola, em direção a residência da senhora Elza Maria Ferreira Neto, mulher simples, diabética, com alguns dedos do pé amputados por causa da doença. Agora, com a pomada, as feridas saram rápidas e a ajudam a evitar novas amputações.

    “Já tem uns dez meses que eu uso, meu pé sarou, nunca mais eu fui no médico, é ótima, porque esses negócio aqui, desde de 2001 que eu vivia com essas ferida nos pé, não sarava e todo remédio que o médico passava não adiantava, e essa aí foi só passar que sarou”, afirma Elza.

    Como tudo começou
    Isso só foi possível porque após 22 anos de estudos, o químico toxocologista e fitoterápico Antônio Augusto Brandão Frazão conseguiu a fórmula ideal para a pomada a base de graviola. O produto promove a cicatrização mais rápida de uma ferida. E proporciona a Antônio Frasão, atualmente com livre docência, momentos de alegria, emoção e solidariedade.

    Motivado pela busca incessante de um produto que pudesse suavizar feridas externas, professor Frasão como é conhecido, iniciou as pesquisas ainda como acadêmico. “Ferida sempre me fascinou, é uma coisa que faz parte do teu corpo e com o tempo ela vai dilacerando as moléculas” e acrescenta “Me levou primeiro ao um ato de compaixão e depois ao um ato de tesão de curar feridas”.

    A curiosidade o fez observar durante uma visita a aldeia indígena dos Craos em São Felix do Xingu no Pará, que os índios utilizavam o estrato da graviola como cataplasma em feridas. “Ferida tem alma exatamente por essa busca de você cicatrizar uma coisa que está dentro de você”. Com esse pensamento o químico, resolve comprovar o que até então era algo “empírico passado de geração para geração” em uma pesquisa científica para descobrir o princípio ativo da fruta.

    Os frutos
    Em 2007 após passar pelo conselho de ética, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa permitiu o uso da pomada em humanos. O cientista já patenteou o produto. “A fórmula química é como tu criar a receita de um bolo, e o receituário não pode ser divulgado assim”. Neste mesmo ano Antonio Frazão foi homenageado pela Câmara municipal de Imperatriz com o título de cidadã imperatrizense. Representando o Brasil, Frazão em 2008 participou da Feira Internacional de Medicamentos Naturais Manipulados, na Ucrânia.

    Apesar das vitórias, um grande problema enfrentado pelo fitoterápico é o pouco patrocínio para as pesquisas e divulgação das mesmas. “Nós cientistas e os atletas eu vejo bem parecidos, sempre em busca de patrocínio para desenvolver pesquisa, porque a universidade ainda não dar valor como deveria dar”.

    Este ano o químico foi convidado para representar o Brasil em um congresso na Indonésia “vai está junto os maiores cabeças do mundo em fototerapia e o único trabalho do Brasil é o nosso”. Mas provavelmente ele não irá, pois ainda não conseguiu patrocínio para viagem. Bem humorado afirma “a gente manda um pedido de desculpa manda dizer que sofreu um acidente e não pode ir”.

    A ajuda vem do céu!
    A ajuda para produzir a pomada vem da Infraero, que montou um laboratório de ponta para o professor. O que permite a distribuição gratuita do produto no Hospital municipal de Imperatriz (Socorrão), no abrigo dos idosos da cidade, em alguns leprosários pelo estado do Maranhão e até do Rio Grande do Sul, em alguns PSF’s e para pacientes que o procuram.

    “No inicio foi apenas curiosidade mesmo, mas no momento veio à comprovação que ela agilizava a granulação, começava a subir a carne” relata o técnico em enfermagem Deomar Penha Moraes, há dez anos funcionário do Socorrão. No hospital a pomada é geralmente usada pelos pacientes que saem da Unidade de Terapia Intensiva – UTI, devido os enfermos passarem dias sem se movimentarem, surgem feridas pelo corpo, então o médico prescreve a pomada e a família do paciente é responsável de solicitar o medicamento para o tratamento do paciente.

    Há quatro anos em uma de suas visitas Frazão esteve no Lar São Francisco de Assis, e levou além de alegria, frascos com a pomada de graviola. “O médico passou uma pomada que custava R$ 182, 00 e não foi tão eficiente como a da Frasão” disse a administradora do local Rai Santos. “Apesar deu não conhecer a fórmula dela, mas o resultado foi bom” enfatiza a enfermeira Elza Oliveira Rocha.

    Amor e dedicação
    Quando indagado sobre o retorno financeiro do produto, a resposta é imediata, “nada!”. Vem logo a lembrança de uma visita que recebeu de um senhor, “ele chegou ‘eu posso lhe dar um abraço’ eu disse pode, aí ele me deu um abraço tão forte, gostoso, aí ele disse ‘esse abraço é da minha esposa, posso lhe dar outro?’, aí me deu o segundo abraço assim bem apertado ‘esse aqui é o meu, eu to lhe dando esse abraço porque o senhor recuperou a coisa mais importante que eu tenho na vida, que é a minha esposa e já tinha quinze anos que ela não saia de casa por causa de uma ferida na pele e hoje ela sai de casa’ vale dinheiro isso aí?”.

    O amor pelo que faz é perceptível em seus olhos, que brilham ao relatar momentos emocionantes como o citado. “Me motiva é ver o sorriso de uma criança saindo de uma anemia, é ver uma pessoa ficar boa de uma cicatrização de uma ferida de 15 anos de 10 anos, poder recuperar a ferida de um diabete que ia fazer amputação de um dedo”, a lágrima foi contida, por uma prevê parada na entrevista.

    Ano passado Frazão recebeu a proposta de 450 mil reais de uma empresa de medicamentos de Anápoles, pela formula da pomada. Mas uma das clausuras proibida que o professor produzisse o produto. “Aí quem iria cuidar do leprosário, do asilo dos velhinhos, quem ia mandar pro outros leprosários, pro Socorrão?”

    Sempre bem humorado, com uma inteligência impressionante, o cientista de cabelos longos, grisalhos, jeito despojado é apaixonado pela fototerapia. E a pomada a base de graviola é um dos vários produtos que ele fabrica. Entre xaropes, sabonetes, remédios para diabéticos, para desnutrição infantil e tantos outros medicamentos fitoterápicos.

    Imperatriz Notícias

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  4. Oi Kailly!

    Obrigado pelas indicações. Já publiquei no blog.

    Valeu!

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