É bom para quê? Parte 5

‘É bom para quê?’ mostra a importância dos testes para uso dos fitoterápicos

Dr. Drauzio Varella recomenda: ‘Para tratar doenças, não tome nada que não tenha rótulo e nem bula’.

Nos últimos domingos, o Doutor Drauzio Varella mostrou no fantástico os riscos que a gente corre quando usa um preparado de ervas. Hoje, ele vai apresentar pessoas que dedicam a vida ao estudo das plantas. Do tubo de ensaio ao balcão da farmácia. Tudo para que você possa tomar o seu chazinho em segurança.

Há quinze anos, viajo pelo Rio Negro, na floresta Amazônica, em um barco da Universidade Paulista, a Unip. Nós estudamos as plantas da região com um objetivo bem claro: descobrir novos medicamentos.

Com as plantas coletadas, já fizemos 2,2 mil extratos. Mais da metade foi testada contra células malignas e bactérias resistentes a antibióticos.

“A planta (mostrada no vídeo) é a violácea, que nós coletamos, que apresentou uma atividade antitumoral bastante intensa”, explica a farmacêutica e pesquisadora da Unip Ivana Barbosa Suffredini.

No tubo de ensaio, a violácea foi eficaz: matou as células tumorais. Mas quando fomos testá-la em ratos, sua ação foi, literalmente, mortal.

“Matou em quatro minutos o bicho”, diz Ivana. “Isso seria um ótimo exemplo, de que aquele dito popular de que ‘o que é natural não faz mal’ é totalmente inválido”, completa a pesquisadora.

É bom pra quê? Só da para saber se as pesquisas forem feitas até o final. O conhecimento tradicional, o chá que gerações de avós receitaram para os netos é muito importante, mas deve ser considerado como uma ferramenta. Toda pesquisa com produtos naturais começa com a coleta de uma amostra de planta. Do mato, a planta vai para o laboratório onde é transformada em extrato, preparação obtida misturando a planta ou com água – extrato aquoso – ou com álcool – extrato alcoólico.

“O perigo de usar extratos vegetais de plantas, com ou sem álcool é que esses extratos são ricos em um mistura de substâncias e nem todas as substâncias têm uma ação desejada”, diz a química e pesquisadora da UFC Otilia Loiola Pessoa.

“Esse extrato é natural, veio das plantas. Ele foi testado como apresentando uma ação contra as células tumorais, porém, matou ratos em pouco tempo”, diz Ivana.

Por isso que é muito importante não só descobrir atividade, como fazer os testes para saber se a planta é tóxica ou não. Porque se eu só temos a primeira parte da informação, sabemos que mata células tumorais, preparamos um chá e tomamos, podemos tomar um chá muito tóxico.

A morte do ratinho tem uma justificativa. Ele morreu para nos mostrar que aquela planta, embora tenha o poder de destruir células doentes, é altamente tóxica. Os testes com animais só são feitos após aprovação de um conselho de ética. Eles encerram o que deveria ser a primeira parte da pesquisa de uma planta candidata a virar medicamento, a parte chamada de pré-clínica. O problema no Brasil é que muitos estudos com fitoterápicos terminam nesta parte, que deveria ser só o início.

“Quem vai dar a palavra final são os estudos clínicos. Isso eu aprendi desde muito cedo, que tratar ratinho é fácil. Você cura o ratinho. Mas tratar o homem é diferente de tratar o ratinho”, diz o médico professor de farmacologia e pesquisador da UFSC João Batista Calixto.

Os fitoterápicos brasileiros não precisam ser submetidos ao mesmo rigor exigido para aprovação dos medicamentos convencionais. “Para o medicamento fitoterápico, considerando que algumas plantas têm tradicionalidade de uso. Você pode pular alguma etapa”, diz a coordenadora de fitoterápicos da Anvisa Ana Cecília Bezerra.

Segundo a Anvisa,os estudos clínicos para demonstrar eficácia e segurança em seres humanos podem ser substituídos pelo uso tradicional ou por publicações em livros e revistas.

Segundo o Doutor Calixto , não podemos usar o argumento do uso tradicional para justificar a eficácia e a segurança do tratamento. “O uso tradicional, ele só conta os dados de sucesso. Você não tem ideia de quantas pessoas tiveram problemas”, diz o médico.

“Quando ela começar a ferver o senhor vai derramar sobre as folhas e tampar. E esperar, no mínimo, doze minutos. Por que a gente fala doze? Porque o ano tem doze meses”, explica o engenheiro agrônomo da Embrapa de Belém Osmar Lameira.

Osmar Lameira é agrônomo, dá cursos sobre identificação, cultivo, manipulação e uso de plantas para problemas de saúde e também receita preparados com plantas na sede da Embrapa em Belém, o que é crime: exercício ilegal da medicina.

“Uma planta (que você pode ver no vídeo), pela informação popular, ela é indicada pra câncer de mama”, mostra o engenheiro.

As fontes de informação de Osmar são ‘o conhecimento popular’, estudos sem rigor científico e livros, como um em que uma americana fala da suposta cura de câncer de mama com graviola.

“Várias pessoas têm usado e uma maneira de tirar essa dúvida também é no livro da Doutora Liz Taylor, onde ela publica um trabalho sobre isso aqui”, justifica Osmar.

“Mas, professor, qualquer um publica um livro a respeito de qualquer coisa. Eu tive a ocasião de ver esse livro. E do ponto de vista científico, professor, ele é uma inutilidade”, argumenta Dráuzio Varela. “É uma informação popular”, contra-argumenta Osmar. “É inutilidade total”, conclui o médico.

A graviola receitada por Lameira é a mesma planta usada pela Luisa e que, nos laboratórios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, aumentou o crescimento de células malignas. As células, em vez de ter o crescimento inibido, em vez de parar de multiplicar, se multiplicaram ainda mais. “Exatamente, elas se multiplicaram bem mais”, confirma a pesquisadora do HC de Porto Alegre Caroline Bruneto de Farias.

O mercado está cheio de publicações que apregoam os poderes milagrosos das plantas. Por exemplo, este livro, patrocinado por uma instituição respeitável como a Embrapa, que modernizou a agropecuária brasileira recomenda a mesma planta para queimaduras, reumatismo, erisipela, prisão de ventre, manchas na pele, rugas, queda de cabelo e tratamento do câncer.

Se muitos desprezam os estudos científicos, há os que dedicam a vida à pesquisa como deve ser feita: lenta, trabalhosa, baseada em testes laboratoriais e, principalmente, em estudos clínicos completos, que são divididos em três fases: A primeira fase serve para definir se o remédio vai ser dado por boca, por veia, como ele se distribui pelos órgãos, quanto tempo leva para ser eliminado, e quais as doses seguras.

O professor Odorico, da Universidade Federal de Fortaleza, está testando agora um possível medicamento contra a ansiedade e a pressão alta feito com uma planta.

“Esse é o estudo de fase um onde você utiliza um voluntário sadio, que foi previamente selecionado”, conta o Dr. Odorico.

A fase seguinte, fase dois, é realizada com doentes. Nesse momento é que se avalia se a droga funciona mesmo contra a doença, e se surgem novos efeitos tóxicos.

“A segunda fase é uma fase extremamente importante, onde a gente foca aquela dose com aquele medicamento em uma doença particular”, diz dr. Barrios da PUC-POA. Se o remédio não funcionou para aquela doença é abandonado. “É descartado”, diz o doutor.
Se funcionou estaremos diante de um medicamento que tem ação contra determinada doença. “Aí, a gente passa pra a fase três”, diz o médico.

Na PUC de Porto Alegre funciona um importante Centro Internacional de testes clínicos fase três. “É a fase de maior envolvimento em termos de números de pacientes. Nós precisamos de estudos que tenham milhares de pacientes onde a gente compara esse remédio do qual a gente já sabe a dose, já sabe a toxicidade, com um tratamento convencional que a gente tenha disponível. E no final do estudo, a conclusão é que esta nova medicação poderá ser melhor, igual ou eventualmente pior do que é o tratamento convencional”, explica o médico pesquisador da PUC – RS Dr. Carlos Henrique Escosteguy Barrios.

“Normalmente você tem em torno de seis a oito anos para completar todos os estudos”, conta o médico e professor de Farmacologia e pesquisador da UFC Manoel Odorico Moraes.

“Tem casos no Brasil, de desenvolvimento de um anitiinflamatório que custou US$ 7,5 milhões, todo o estudo.

Custa caro, leva tempo e é difícil como achar uma agulha num palheiro. Minha equipe já tem quinze anos de expedições na Amazônia e pesquisas de laboratório e ainda estamos longe de um resultado promissor. O professor Odorico testa plantas há quase quarenta anos.

“Meu sonho é ver um medicamento desenvolvido pelo meu grupo de pesquisa numa prateleira da farmácia”, afirma o professor.

O professor Calixto, o brasileiro que mais publicou estudos na área de farmacologia de plantas, uma carreira brilhante e apenas um fitoterápico com sua assinatura nas farmácias. “Eu acho que está prevalecendo no Brasil, ainda o lado emocional quando se fala de plantas. E não se leva em consideração que esta é uma área de saúde pública, medicamento que requer um rigor enorme”, diz o professor Calixto.

Você deve estar se perguntando: não posso tomar nada feito de plantas, nem um chazinho? Para tratar doenças, não tome nada que não tenha rótulo e nem bula. Se você usar um derivado de plantas de acordo com a bula, não se intoxicará. A eficácia – se vai funcionar ou não para a sua doença – é outro problema.

“Alguém usou uma vez, para controlar diabetes, se sentiu bem e disse: é essa a insulina vegetal”, acredita o engenheiro agrônomo, Osmar Lameira.

Fonte: [ Fantástico ]

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