A implantação do uso de plantas medicinais no SUS e a polêmica do programa “É bom pra quê?”

Por Maíla Diamante
Fotos: Maíla Diamante

Há algumas semanas, o médico Dráuzio Varela faz a pergunta “É bom pra quê?” no Fantástico. A série de programas da tv Globo se refere ao suposto uso abusivo das plantas medicinais. Acompanhando o consumo de fitoterápicos da população e conversando com profissionais e pesquisadores, Varela leva ao telespectador a mensagem de que o uso dessas plantas não é tão inofensivo quanto muita gente pensa ser. Os alertas feitos por Varela levantam a discussão sobre o uso dos medicamentos tradicionais, e algumas de suas abordagens do uso de fitoterápicos são questionadas por profissionais da área.

O médico Cesar Paulo Simionatto, que atua com fitoterapia na Unidade de Saúde do Rio Tavares e é responsável pelo Horto de Plantas Medicinais do HU, preocupa-se com a difusão do medo de uso de fitoterápicos entre a população. “A sabedoria popular vai excluindo, através de um conhecimento acumulado durante gerações, o uso de plantas perigosas”, explica Simionatto. O conhecimento das plantas, geralmente transmitido pela cultura oral, corre o risco de se perder caso não for sistematizado em estudos acadêmicos. A importância desses estudos justificaria uma maior dedicação acadêmica, e não uma exposição que afaste as pessoas do uso de fitoterápicos.

Há, sim, risco pelo uso incorreto de plantas, assim como há também com o uso de remédios sintéticos. Simionatto considera que “a avaliação da toxicidade deve ser a prioridade dos estudos fitoterápicos”, e listou algumas plantas algumas que merecem cuidados específicos na sua administração.

Entre elas, estão o avelós, aliado no tratamento contra o câncer que possui uma resina perigosa para a pele, o cipó-mil-homens, que pode afetar o coração se usado em excesso, e o confrei, que após uso prolongado ataca o fígado. Esses exemplos reforçam a necessidade da formação de profissionais capacitados para que a população tenha acesso à medicina tradicional, que, segundo o médico, ainda é insuficiente. “A academia não dá a atenção devida à fitoterapia. É toda uma cultura de formação que deve ser mudada”, comenta.

O professor de enfermagem Antônio Wosny, que já trabalhou no Centro de Informações Toxicológicas de Santa Catarina (CIT-SC), diz que enquanto trabalhou no Centro não foi registrado óbito por uso de plantas. O CIT disponibiliza as estatísticas de casos de intoxicação no estado, e lá não consta nenhum caso fatal de intoxicação por plantas em 2009, contra 19 óbitos por uso de medicamentos sintéticos, a maior causa de morte por intoxicação do período. Estudioso da saúde pública, Wosny ressalta que o cultivo de plantas é também um fator de integração entre as pessoas, que se dedicam à prática de forma terapêutica e podem partilhar experiências entre conhecidos.

Em texto divulgado na internet que se refere ao programa “É bom pra quê?”, o presidente da Associação Brasileira de Medicina Tradicional Marcio Bontempo questiona porque é pouco divulgado na mídia o fato de morrerem nos EUA cerca de 170 mil pessoas por interação medicamentosa. Os dados são da Americam Medical Association. Bontempo diz que no Brasil as estatísticas não são transparentes, mas lembra que o país é o segundo maior consumidor de medicamentos alopáticos do mundo.

Fitoterapia tupiniquim na saúde pública

Um dos principais fatores que favorecem o uso de fitoterápicos no Brasil é a biodiversidade. O país tem cerca de 60 mil espécies vegetais, um quarto do total mundial. Apenas 8% delas, porém, foram estudadas para descoberta dos compostos bioativos e 1,1 mil foram pesquisadas em suas propriedades medicinais.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece o uso da medicina tradicional por mais de 80% da população de países em desenvolvimento. A prática foi incentivada pela OMS a partir da criação do “Programa de Medicina Tradicional”, dos anos 70. No país, o uso de fitoterápicos no SUS é recomendado pelo Ministério da Saúde desde 2006. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), aprovada em maio, procura implementar e uniformizar os procedimentos como fitoterapia, homeopatia, águas termais e acupuntura na saúde pública.

No mesmo ano, foi aprovada a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que estabelece as diretrizes voltadas ao uso racional dessas plantas, ao desenvolvimento de tecnologias, ao fortalecimento da cadeia produtiva e ao uso sustentável da biodiversidade. O objetivo das diretrizes é fortalecer a atenção à saúde, a agricultura familiar, a geração de emprego e renda, a inclusão social e o desenvolvimento industrial e tecnológico.

Entre as ações impulsionadas com a aprovação da Política, está a divulgação, em março de 2009, de uma lista de 71 plantas de interesse para a saúde pública, a chamada Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus). São citadas, por exemplo, a alcachofra, a aroeira da praia e a unha-de-gato, usadas para distúrbios de digestão, inflamação vaginal e dores articulares, respectivamente. O objetivo do Ministério da Saúde com a divulgação da lista é orientar estudos e pesquisas para a elaboração de fitoterápicos que possam ser disponibilizados para uso da população.

VI Jornada Catarinense de Plantas Medicinais

Quem se interessar pelo tema pode visitar a VI Jornada Catarinense de Plantas Medicinais, que acontece na UFSC entre os dias 27 e 30 de setembro. O evento procura integrar todas as pessoas ligadas ao ciclo dos fitoterápicos, desde agricultores a pesquisadores. Além de palestras e minicursos, serão expostas em frente ao Centro de Eventos plantas medicinais do Horto do Hospital Universitário e práticas terapêuticas complementares serão oferecidas ao público pela Pastoral da Saúde.

Veja abaixo algumas das plantas do Horto Medicinal do HU, expostas em frente ao Centro de Cultura e Eventos durante a Jornada.

Fonte: [ Cotidiano ]

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2 Comentários

Arquivado em Caso Drauzio Varella, Fitoterápicos, Fotos, Plantas Medicinais

2 Respostas para “A implantação do uso de plantas medicinais no SUS e a polêmica do programa “É bom pra quê?”

  1. Todos devem ler os artigos em discussão, postados pelo site de , os: Jaborandi Verdadeiro e Falso; Planta pode ser útil em combate a AIDS; Fito do Bem: Embrapa terá Laboratório de Fiterápicos (Fortaleza/CE) na Agroindústria Tropical; Planta da Amazônia é nova arma contra o câncer (INPA); Deixem o Padre trabalhar: Padre cuiabano se diz perseguido por uso do método de curar doenças (Biosaúde); Avelós é eficiente contra o câncer;Esclarecimento do Conselho Nacional de Saúde sobre Fitoterápicos, Fitoterapia e Plantas Medicinais; a Implantação do Uso plantas medicinais no SUS e a polêmica do Programa “É bom pra quê? do Dr. Drauzio Varela. Vale a pena ver todos esses artigos e muito mais no site citado. Ana Lourenço da Rosa. Plantas Medicinais/Projetos. Porto Nacional. Tocantins. BRASIL.

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