Formação de plantas na Fruticultura

por Eng° Agr° Valerio Pietro Mondin¹

Nos pomares, chama atenção as muitas formas que as plantas apresentam e que podem diferir enormemente, mesmo quando são da mesma espécie. Nem sempre correspondem às formas que teriam se fossem deixadas livres, em seu crescimento natural. Normalmente, isso é devido à intervenção humana. Com essa ação, o homem visa obter melhores resultados e maiores facilidades, naquilo que é de seu interesse.

Quando a planta é deixada livre, ela cresce e se desenvolve dentro de suas características. Buscará ocupar o espaço que lhe é disponível dentro de suas dimensões naturais. Para algumas espécies essa ainda é a melhor maneira de cultivá-las, pois a condução nem sempre é uma prática necessária ou obrigatória. Para outras, no entanto, essa intervenção é fundamental para um melhor resultado na atividade.

As plantas têm tendências naturais de crescer no sentido vertical e apical, ocorrendo brotações desuniformes, com predominância vegetativa e crescimentos entrecruzados. Isso dificulta o equilíbrio na ocupação do espaço e na produção, já que a seiva circulará intensa e rapidamente, nos ramos. Ocorrerá a formação de muitos ângulos fechados, com inserções pouco resistentes e grande desenvolvimento vegetativo.

Uma boa formação visa dar boas condições de equilíbrio entre a seiva bruta, vinda das raízes e que favorece o desenvolvimento vegetativo e a seiva elaborada, fabricada nas folhas e que alimenta a planta, favorecendo o desenvolvimento de ramos e gemas frutíferas. Com essas condições, pode-se obter maior precocidade no início de produção e produções mais uniformes, com frutas de boa qualidade. As árvores bem formadas terão melhor aproveitamento do espaço, com melhor iluminação e sanidade, além de facilitar todos os trabalhos e tratos culturais necessários.

Condução de pessegueiro em curso no Cetrevi, em Videira, SC. Foto: Calendário anual 1993, Epagri.


TIPOS DE FORMAÇÃO

As plantas frutíferas podem ter diversas e diferentes formas, adaptadas a maiores ou menores densidades de plantio. Sua formação, quando convenientemente conduzida, adapta-se a diversas situações, possibilidades e interesses. A busca é sempre por melhores resultados e maiores facilidades. Entre os diversos tipos de formação pode-se citar: taça, líder central, pirâmide, vaso, Tatura, Y, V, coluna, palmetta, espaldeira, latada, cone, além de outras e de diversas combinações.

É difícil, ou quase impossível, determinar a melhor e mais adequada formação para todos os casos, com situações, condições, espécies e variedades diferentes. É importante analisar bem a escolha, pois mudanças posteriores poderão ser muito difíceis e caras. Muitas espécies e até variedades, adaptam-se melhor a determinadas formas e estruturas. Em algumas, praticamente, só a poda seria suficiente para dar-lhes adequada formação e orientação. Em outras, é mais favorável e até necessário um auxílio, para melhor conduzí-las. Há outras que, além da condução, também necessitam apoio e sustentação.

Para maior clareza e entendimento, talvez se possa identificar, de forma genérica, algumas maneiras para estruturar a formação de plantas.

Forma livre

Nesse caso, é dado à planta o espaço que ela ocuparia normalmente e de forma natural. A planta cresce, desenvolve e se sustenta. Se e quando ocorre alguma intervenção, em sua formação, ela é feita através da poda, principalmente no início do desenvolvimento. É uma forma possível em plantas que possam sustentar a si próprias.

Forma conduzida ou orientada

Nesse caso, a planta deve obedecer e ocupar a um espaço definido e normalmente restrito. A planta é conduzida em seu crescimento e desenvolvimento, desde o início. É forçada e orientada por condutores e métodos artificiais diversos, além de poda mais intensa. Isso é feito desde o início, por determinados períodos, até a idade adulta, ou até chegar à forma desejada e ocupar todo o espaço que lhe é disponível. Poderá ser dispensada ou suprimida quando o “esqueleto” ou os ramos principais da planta já estiverem lignificados ou enrijecidos nas posições desejadas.

Início da formação em taça. (clique para ampliar)

A formação conduzida, geralmente inicia logo após o plantio, quando os ramos principais estão com cerca de 30 centímetros de comprimento. Selecionam-se os ramos desejados, fortes e bem inseridos, para formar a copada e eliminam-se os demais. Os escolhidos devem originar-se de diferentes alturas do caule, com o primeiro inferior na altura de 30 a 40 centímetros do solo. Entre suas inserções, mantêm-se um espaço mínimo de 10 centímetros, para terem maior resistência e dar estrutura mais forte à planta. Esses ramos são chamados de principais e também são conhecidos por primários, básicos, mestres, braçadas, pernadas, além de outros nomes.

Quando não ocorrerem naturalmente, deve-se conduzir e forçar ângulos abertos (iguais ou maiores que 45°), em relação à linha de crescimento do caule. Os ramos assim conduzidos têm maior resistência na inserção, lascam menos, têm menor vigor vegetativo e produzem maiores quantidades de ramos e gemas frutíferos. Os ramos com ângulos muito fechados (menores que 45°), ao contrário, tendem a lascar facilmente, têm maior vigor vegetativo, produzindo menores quantidades de ramos e gemas frutíferos.

Ângulos de ramificações. Fonte: A Ciência da Horticultura de Jules Janick.


A partir da seleção dos ramos, segue-se a estruturação do tipo de formação escolhido e adequado, conforme foi citado.

A continuação da formação poderá ser feita com poda freqüente. Neste caso, encurta-se ou elimina-se os ramos que surgem e se desenvolvem em locais ou em crescimentos não desejados, até conseguir a estrutura pretendida. Esse método, no entanto, é bastante esgotante para a planta.

Condução em taça, com poda freqüente.


Pode-se, também, usar condutores ou métodos tutorados com amarrações ou forçamentos continuados dos ramos, à medida que vão surgindo e se desenvolvendo. Usam-se, para isso, diversos materiais como taquaras, palitos, arames modeladores, fitas, pesos, outros disponíveis e possíveis. Deve-se ter cuidado para a planta estar protegida de ferimentos prejudiciais.

Condução com tutores (taquaras).


Condução com materiais diversos


Se for mais favorável e oportuno, a condução poderá ser feita numa só época, com inclinações e amarrações no final do crescimento vegetativo anual, que ocorre em meados a fim de verão. Neste período, os ramos já se desenvolveram normalmente, após a primeira formação e agora, serão mais bem conduzidos. É uma época em que eles estão maiores, mais vigorosos, mas ainda, suficientemente flexíveis e permitem diferentes inclinações, desde que fortemente fixados, na nova posição. Eles terão, também, o período de outono e inverno para lignificarem, ficando mais lenhosos e rijos, o que ajudará a mantê-los na posição escolhida.

A fixação pode ser com estacas adequadamente cravadas e bem firmes no solo. Os ramos são amarrados às estacas na posição desejada, com arame ou outro material bastante resistente. Nos ramos deve haver proteção para não cortá-los ou machucá-los. A proteção poderá ser com borracha, couro, mangueiras ou outro material suficientemente flexível e resistente. Os ramos concorrentes que houverem, deverão ser dominados ou eliminados.

Condução no final do crescimento vegetativo anual (pré-repouso).


É possível, também, combinar os métodos descritos e outros mais, conforme a conveniência, disponibilidade de tempo e de mão de obra.

Em muitos casos, para equilibrar o crescimento, é necessário enfraquecer ramos fortes e fortificar ramos fracos. Usa-se, para isso, abrir ou inclinar para baixo os ramos mais vigorosos e fechar ou inclinar para cima os ramos mais fracos.

A abertura, dos ramos mais fortes, favorece o surgimento de brotações,sobre eles, que tendem a crescer vigorosa e verticalmente. Elas fecham a copada e concorrem com os ramos já selecionados. É necessário, por isso, eliminá-las ou dominá-las com torções, amarrações e ou condutores para direcioná-las convenientemente.

Forma tutorada ou sustentada

Nessa forma, também, a planta deve ocupar e obedecer a um espaço definido e limitado, sendo conduzida desde o início. Usa-se a poda, bem como sistemas e estruturas artificiais diversas, não só para orientação, mas também, para dar apoio e sustentação à planta.

Desde o início a planta é conduzida até alcançar o sistema de sustentação, quando será podada ou conduzida com outro ângulo de crescimento, adequado ao sistema adotado. Se for podada, os ramos principais escolhidos serão os originários das gemas próximas ao nível do sistema de sustentação e a parte superior será eliminada. A eliminação deverá ser feita quando os entrenós abaixo e acima das gemas ou dos ramos escolhidos já estejam lignificados e em diâmetro satisfatório para a espécie considerada.

Seu uso é comum em plantas herbáceas e semi-lenhosas. São as conhecidas formações em espaldeiras, latadas, manjedouras e tantas outras.

Condução em espaldeira. Foto: Jornal da Fruta, n° 76 de maio, 2000


Condução em latada. Foto: Jornal da Fruta, n° 169 de abril,2006.


CONSIDERAÇÕES COMPLEMENTARES

Todo o fruticultor deve ser um bom observador de seu pomar. Deve conhecer e atualizar-se com as tecnologias que surgem sobre o assunto, para ver a que melhor se adapta e adequá-la ao seu caso.

O trabalho de formação da planta visa dar-lhe a forma final desejada, aproveitando os seus benefícios. É importante, por isso, a atenção e o trabalho a ser dispensado durante o período de crescimento da mesma.

A condução, bem como a poda, das plantas requer conhecimentos básicos sobre as espécies e as variedades cultivadas e seus comportamentos. É muito importante, por isso, a observação do que é feito e a conseqüente resposta da planta.

A formação, bem feita da planta, deve permitir-lhe dar boas produções, ser resistente, ter bom desenvolvimento e vigor, de forma equilibrada.

Com a frutificação anual contínua, a própria planta tenderá a diminuir o seu crescimento e o vigor vegetativo. Sua forma se tornará mais estabilizada e necessitará menos intervenções.

Em muitos casos, mesmo no período inicial de condução, é possível, oportuno e até necessário usar os chamados ramos ladrões para bem conduzir a planta ou para substituir ramos enfraquecidos ou envelhecidos. Eles poderão ser torcidos para diminuir o seu vigor e posicioná-los melhor, com condutores, ou outros materiais e métodos adequados, para que ocupem os espaços disponíveis.

A condução e ou tutoramento da planta, são opções que devem levar em conta os hábitos de crescimento da mesma, o material necessário, o equipamento a ser usado, a mão de obra e o tempo disponíveis.

A formação da planta, sendo adequada e bem feita, provavelmente facilitará as práticas culturais, possibilitando boa produtividade com frutas de boa qualidade e com bons resultados aos fruticultores.

REFERÊNCIAS

EPAGRI. A cultura da macieira. 2 ed. Florianópolis: [s.n.], 2002. 743 p.

JANICK, Jules. A ciência da horticultura. Viçosa: Freitas Bastos, 1968. 485p.

MONDIN, Luciano Roberto. Avaliação de diferentes intensidades de poda invernal de desponte na produtividade e qualidade de pêssegos cultivares Maciel e Granada. 2005. Dissertação (Mestrado em Agronomia) – Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2005.

MONDIN, Valerio Pietro (Org.). Fruticultura básica: apostila de cursos profissionalizantes de fruticultura básica, realizados no Cetrevi/Epagri, Videira, 1993. “paginação irregular”.

MURAYAMA, Shizuto. Fruticultura. Campinas: Instituto Campineiro de Ensino Agrícola, [19 -]. 371 p.

SCHMITT, Daniel Rogério; MONDIN, Valerio Pietro. Poda e condução em pessegueiro: apostila do treinamento de poda e condução em pessegueiro, realizado no Cetrevi/Epagri, Videira, junho, 1991. 16 p.

SOUSA, J. S. Inglez. Poda das plantas frutíferas. S. Paulo: Nobel S. A, 1973. 224 p.

¹ Cooperado da UNEAGRO/SC

Fonte: artigo original

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2 Comentários

Arquivado em Artigos, Frutas, Técnicas

2 Respostas para “Formação de plantas na Fruticultura

  1. Valerio Pietro Mondin

    Agradeço pela publicação do artigo.
    Espero que seja útil.
    Saudações e sucesso.
    Valerio.

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  2. Meu caro Valerio,

    Eu é que agradeço, em nome dos nossos leitores, por você nos ofertar estas informações valiosas. Espero que os visitantes tenham dúvidas e que você possa ajudá-los.

    Abraços!

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