Lei sobre mata seca pode causar grandes danos à vegetação

Fred Furtado
Ciência Hoje/RJ

A mata seca se caracteriza por espécies vegetais variadas intimamente ajustadas a um ambiente em que o período de seca dura de cinco a sete meses. Como mecanismo de adaptação, as árvores desse tipo de vegetação perdem as folhas nessa época para conservar água. Não representando um bioma em si, a mata seca pode ser encontrada no cerrado, na caatinga e na Mata Atlântica, como é o caso do Norte de Minas Gerais, onde essas árvores têm importância econômica e ecológica.

Agora, no entanto, uma lei aprovada pela Assembleia Legislativa mineira decretou que esse tipo de vegetação não faz parte do bioma e, portanto, pode ser derrubado para dar lugar a atividades agrícolas e ser queimado como carvão.

Segundo o ecólogo Geraldo Wilson Fernandes, coordenador do Laboratório de Ecologia Evolutiva e Biodiversidade da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e do projeto Florestas Secas Tropicais, a legislação foi aprovada sem discussão com a comunidade científica e pode levar à devastação de 70% da cobertura vegetal das propriedades do Norte mineiro, que seriam transformados em carvão.

Só restam de 4% a 7% da Mata Atlântica no País, e Minas Gerais é o campeão do desmatamento desse bioma. Imagine o estrago que essa lei pode causar”, alerta o ecólogo.

Ele ressalta que, apesar de não ser parte exclusiva da Mata Atlântica, isso não quer dizer que a mata seca não tenha valor. A vegetação é composta de espécies diferentes entre si, algumas típicas e outras que só existem nessa formação vegetal, como a amburana, a aroeira-da-serra e a barriguda, fontes de substâncias químicas valiosas. Essas árvores abrigam, ainda, vários agentes polinizadores, capturam grandes quantidades de carbono e mantêm micro-organismos importantes para a fertilidade dos solos.

“É preciso entender que os trópicos não têm só a Floresta Amazônica”, observa Fernandes.

Mais calor, mais seca

O projeto Florestas Secas, realizado pela UFMG em colaboração com outras universidades brasileiras e internacionais, procura comparar características socioambientais – biodiversidade, segurança alimentar e utilização pela comunidade, entre outras – em diversos locais onde a mata seca está presente, além de analisar o efeito das mudanças climáticas sobre esse tipo de vegetação.

“Queremos encontrar padrões comuns entre as áreas de ocorrência da mata seca, que pode ser encontrada também no México, Costa Rica, Cuba e Venezuela”, explica Fernandes.

Para analisar o efeito das mudanças climáticas, o projeto investe no sensoreamento remoto, pelo qual dados coletados por estações sem fio informam variações em parâmetros como a absorção de carbono. Segundo o ecólogo, é a primeira vez que isso é feito na região tropical. “Já podemos detectar indícios de que os períodos de seca estão ficando mais longos, gerando mais estresse para o sistema”, relata.

O projeto, iniciado em 2005, deve ser concluído no ano que vem, com disponibilização dos dados obtidos.

Fernandes acredita que a lei terá reflexo negativo para a imagem do Brasil no Exterior. Além disso, o ecólogo vê a aprovação da lei como resultado de interesses econômicos poderosos.

“Não serão os habitantes da região, uma das mais pobres do Estado, os beneficiados por essa mudança na legislação”, afirma.

Embora o Ministério Público mineiro e a organização não governamental SOS Mata Atlântica já tenham dito que vão questionar a lei quanto à sua constitucionalidade, Fernandes acha que é necessário que a comunidade científica aja também, principalmente por meio da imprensa.

Fonte: [ Diário do Grande ABC ]

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