Flor do Cerrado

Com nome de flor, cercada de flores por toda parte, Rose Mendes faz de seu artesanato popular uma história de sucesso.


Eu comecei como Rose, uma flor só, hoje já sou um jardim. Somos 27 pessoas envolvidas. Sozinho ninguém vai a lugar algum”. Rose Mendes fala sem deixar de mexer as mãos. Junta folhas em camadas concêntricas e amarra a base com firmeza: mais uma flor está pronta e vai para uma grande caixa de papelão, esperando a vez na montagem de um sofisticado painel de parede ou uma bolsa social, que nada deve em design aos melhores estilistas.

A ‘oficina’ é na garagem de uma casa simples, em Samambaia, cidade satélite de Brasília. A filha cuida da administração. As vizinhas tecem bolsas, saias, xales, montam sachês, almofadas, jogos americanos, porta-guardanapos, painéis, cortinas. O marido e o irmão ajudam na coleta da matéria-prima. Rose é o coração do grupo Flor do Cerrado, uma associação de artesãs com assessoria técnica do Sebrae-DF e clientes no eixo Rio-São Paulo, além de alguns admiradores internacionais.

O grupo existe há dois anos. Nasceu porque Rose não se conformava com o desperdício de mão-de-obra ao seu redor. “Tanta gente habilidosa, tão capaz, sem emprego, sem renda, sem auto-estima, trabalhando por alguns trocados, quando e se havia trabalho”, resume. “Comecei a dar cursos de fabricação de flores, mas o trabalho era voluntário, as mulheres aprendiam e não tinham onde vender, não gerava renda. Aquilo me fazia mal, ficar parada, ver as pessoas paradas”.

Então Rose fez o curso de empreendorismo social do Sebrae e conheceu o designer Renato Imbroisi, a quem trata como uma espécie de ‘anjo da guarda’ dos artesãos populares brasileiros. Com suas dicas especializadas, ele ajudou a transformar o artesanato simples daquelas mulheres de Samambaia em peças sofisticadas, ajustadas ao mercado de decoração e acessórios femininos e, sobretudo, rentáveis.

É dele também a recomendação de limitar com rigor a produção, para não cair na armadilha de assumir mais compromissos do que se pode atender, comprometendo a qualidade do trabalho. O recado foi bem assimilado e a política de não popularizar para manter a exclusividade já rendeu exposições em ministérios, em eventos diplomáticos e até no exterior. Os revendedores estão limitados em cerca de 50 empresas e lojistas — sendo uma em Miami (EUA), outra em Lisboa (Portugal) e o restante no Brasil. Um sistema de cotas organiza as encomendas.

“Não somos carentes, somos mulheres, de fibra, muito profissionais e sabemos que o mercado nos cobra isso. Comprar nossos produtos não é caridade, não é esmola para ninguém”, esclarece a líder do grupo. “Sabemos receber cobranças e elogios e sabemos que a responsabilidade cresce conforme conquistamos mercados”.

As flores das artesãs diferem das flores secas normalmente vendidas nas feiras e nas lojas de Brasília. Em primeiro lugar, porque não são realmente flores. São folhas — largas, estreitas, ‘moedas’, ‘palitos’ —, todas nativas dos cerrados de Goiás e do Distrito Federal. Elas passam por um processo conhecido como esqueletização: são fervidas, em fogão a lenha, mexidas e remexidas, durante 18 horas, até perder toda a clorofila, todo o verde. Restam as nervuras, o ‘esqueleto’.

As folhas ganham leveza, transparência e uma textura delicada, sem, no entanto, ficarem frágeis. Algumas são tingidas com corantes naturais, outras entram nas anilinas químicas, uma boa parte permanece nos tons ‘crus’. Todo o processo de preparo leva uma semana. Aí as mãos daquelas mulheres juntam folha por folha e as amarram em pequenos feixes, criando rosas, ramalhetes e buquês. E finalmente as flores compõem os produtos finais: utensílios, objetos de decoração, acessórios, pequenas e grandes obras de arte.

A segunda diferença importante do grupo Flor do Cerrado em relação a outros extrativistas de flores do Cerrado é a preocupação com a conservação das espécies coletadas. Muitos extrativistas coletam as flores genericamente conhecidas como ‘sempre- vivas’ sem qualquer critério ou controle, e já levaram diversas espécies a extinções locais. Muitas coletas populares também incluem frutos e sementes — em especial as sementes ‘aladas’, aquelas dispersadas pelo vento. Com formas e texturas bem variadas, elas compõem belos arranjos, porém o excesso de demanda consome os estoques naturais e afeta, conseqüentemente, a renovação do Cerrado.

Rose repete as regras ambientalmente corretas do grupo: “Aqui não pode haver desperdício: coletamos as folhas do chão, usamos todas as folhas coletadas, de todos os tamanhos, com e sem defeito. Com as sobras criamos outras coisas, inventamos. E usamos todos os restos de papel também, para fazer as embalagens onde despachamos nossas encomendas. Nossa fonte de recursos vem do Cerrado, então temos que cuidar bem dele: só retiramos o que precisamos e já temos um projeto de plantio das árvores que mais usamos”.

O projeto está tomando forma em Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, onde Rose já tem um terreno de 3 mil metros quadrados e planos de montar um galpão para o artesanato, um depósito e uma oficina para cursos, dirigidos à ‘melhor’ idade e aos jovens, com alimentação e assistência médica. A construção deve sair de mutirões, envolvendo as famílias das mulheres do grupo, seus colaboradores e uma legião de fãs.

“Quero construir uma empresa com responsabilidade social, levar minha família toda, e as famílias dos funcionários, para dentro da fábrica. Eu sozinha posso pouco, com os outros posso muito mais”, resume a artesã. E arremata, sem parar de arrumar, amarrar e ajeitar as flores: “Não pense que no começo era tão bonito. Tudo é a energia que a gente consegue através do trabalho. Tudo na vida tem que ter prazer de fazer. Se a gente gosta, faz bem feito. Mas tem que melhorar e aprender todos os dias”.

_________________________________________________________________________________

Tempo parcial, dedicação integral



Entre as mulheres do Grupo Flor do Cerrado, os horários e locais de trabalho são f lexíveis, adaptados às necessidades de atendimento dos filhos e familiares. O pagamento é feito de acordo com a produção. E cada uma contribui com o que sabe fazer de melhor, garantindo a excelência do conjunto.

Regina Silva Lisboa, 3 filhos, e Conceição Aparecida de Lima Alves, 5 filhos, todos em idade escolar, preferem levar o trabalho para casa. Passam para pegar as folhas já esqueletizadas e tingidas, e depois trazem as flores prontas. Tiram de R$ 300,00 a 700,00 por mês.

Romualda Aparecida Gonçalves de Aquino, 3 filhos, também leva o serviço para casa. Mas sua especialidade é o crochê, que serve de base para os xales e as bolsas, onde depois serão fixadas as flores.

Já Domingas Maria da Conceição da Silva, de 60 anos, trabalha na garagem de Rose, entre o fogão de lenha e as caixas de matériaprima. Tem 5 filhos criados — “a caçula com 24 anos” — e já fazia cordas e redes de palha de buriti em Barreira, no norte da Bahia, onde morava.

“Agora tá mais bonito o trabalho”, diz, enquanto alterna flores claras e escuras num grande painel de parede, carro-chefe das vendas. A fala é pouca e a timidez é grande. Mas os olhos não escondem o orgulho de transformar simples folhas em uma colorida e permanente primavera.

Fonte: [ Terra da Gente ]

Anúncios

12 Comentários

Arquivado em Artigos, Flores

12 Respostas para “Flor do Cerrado

  1. Adriana

    Adorei esse trabalhho…., onde poderia comprar essas flores
    pq eu trabalho com decoração de festas?

    Curtir

  2. Ana Rayssa Formiga

    Olá, axei lindas as flores, gostaria de saber como faço para entrar em contato direto com a familia que faz para comprar!
    GRata.

    Curtir

  3. Gostaria de obter informações de:

    Onde comprar em São Paulo

    Se possivel o custo e opções de flores.

    Aguardo com urgência, parabens pela iniciativa.

    Curtir

  4. Olá, complentando; sou decorador de festas sociais e corporativas, me interessei muito, as flores são lindas; preciso do custo e onde conseguir comprar, existe distribuidor em São Paulo?

    Aguardo com urgência…

    Curtir

  5. Se preferir pode me ligar:

    (11) 3021-9105

    Nextel: (11) 7839-4848 ID 2*47856

    Curtir

  6. Isabel

    Boa Noite!

    Gostaria de comprar algunas Flores como posso adquiri. Tem algum contato para encomendar.

    Curtir

  7. margarida

    Olá! Gostaria de comprar flores. Por favor retornem para meu email. Obrigada

    Curtir

  8. solange lopes

    Tive conhecimento dos mendos trabalhos pela revista Casa Claudia.Sou desinger de interior e quero muito saber onde posso realizar encomendas dos lindos trabalhos feitos pelas artesãs. Moro em Niteroi, no Rio de Janeiro. Por favor, respondam pelo meu emaill

    Parabéns e muito grata

    Curtir

  9. Cíntia Silva Lima

    Oi,vou me casar e gostaria de saber como faço para comprar as rosinhas no tom cru,e o preço são muito lindas!!!

    Curtir

  10. oi moro no espirito santoe gostaria decomprar 100 rosinhas desta para um casamento minha filha qual custo de cada inacyr

    Curtir

  11. monica macedo

    bom dia Como faço pra encomedar um painel de flores do cerrado ?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s