Presidente de comissão vê obscurantismo em opositores de feijão transgênico

Edilson Paiva compara risco de semente da Embrapa a ganhar na Mega-Sena várias vezes, acusa críticos de fomentar o medo e vê, no produto, um dos “grandes feitos” da ciência brasileira

Por João Peres, Rede Brasil Atual

Edilson Paiva defende a aprovação da primeira variedade de feijão transgênico no Brasil (Foto: Elza Fiúza/ Arquivo Agência Brasil)

São Paulo – O presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Edilson Paiva, defende, com convicção, a aprovação da primeira variedade de feijão transgênico do país.

Pesquisador aposentado da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ele argumenta em entrevista à Rede Brasil Atual que o fato de a semente geneticamente modificada ter sido produzida pela estatal não influenciou em nada a decisão do colegiado.

“Quando olharem para trás, em um futuro muito próximo, vão considerar isso um dos grandes feitos intelectuais e científicos da ciência brasileira”, defende. “Nem nos países desenvolvidos isso é feito em instituições públicas.”

A CTNBio é o órgão encarregado de estudar impactos ambientais e eventualmente demandar mais pesquisas a respeito de riscos no cultivo de variedades transgênicas. Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a comissão assessora o governo federal sobre questões relacionadas a biossegurança.

Na última semana, cinco dos conselheiros da CTNBio manifestaram, durante a reunião que liberou o feijão transgênico, que precisariam de mais tempo e mais estudos para formular uma posição. A variedade promete resistência ao vírus do mosaico dourado, que provoca perda de produtividade. “Independentemente da argumentação cientifica, a posição deles é a posição ideológica, de retórica, independentemente de qualquer posição cientifica”, ataca Paiva.

Ele também desmerece o estudo da Universidade Federal de Santa Catarina que apontava inconsistências nos estudos apresentados pela Embrapa. Entre outras questões, poucas cobaias foram submetidas a testes – apenas três foram sacrificadas, e alertava-se para a possibilidade de que a alteração genética promovida na semente resultasse em efeitos desconhecidos, que poderiam afetar toda a planta.

Paiva admite que o vírus pode sofrer mutações que inviabilizem a alteração promovida pela Embrapa, e lança mão da máxima “viver é perigoso” para dizer que nada é 100% seguro. “Agora, é improvável. É provável você ganhar na Mega-Sena sozinho? É. É improvável você ganhar na Mega-Sena dez vezes seguidas? É improvável. Só político brasileiro é que ganha.”

[ Confira a seguir trechos da entrevista ]

RBA – Qual a importância da aprovação do feijão transgênico da Embrapa?

Tem várias implicações importantes. Vai ser considerado um marco. Quando olharem para trás, em um futuro muito próximo, vão considerar isso um dos grandes feitos intelectuais e científicos da ciência brasileira. A gente que vem acompanhando os organismos geneticamente modificados, principalmente na área agrícola, toda essa tecnologia hoje é disponibilizada por grandes companhias transnacionais. É o primeiro produto que vem de uma instituição pública.

Como estamos trabalhando na fronteira do conhecimento, normalmente é uma tecnologia cara, que envolve expertise, anos e anos de trabalho de pesquisa. A Embrapa tomou o papel de fazer isso. Nem nos países desenvolvidos isso é feito em instituições públicas. Na minha maneira de enxergar, ele é um fator de equilíbrio e segurança (alimentar) inclusive. Tem implicações agronômicas, econômicas e alimentares. É um produto utilizado diretamente na alimentação humana, é cultivado por pequenos agricultores.

A mosca branca, que transmite esse vírus, causa prejuízos agronômicos grandes. São milhões de toneladas que deixam de ser comidas. Vai ter implicações ambientais inclusive em termos de diminuir aplicação de agrotóxicos. A mais importante é do ponto de vista da tecnologia utilizada. É um procedimento elegante. A modificação genética feita não produz nenhuma proteína, não tem nenhum produto secundário novo. Simplesmente impede o vírus de se multiplicar. É como se tivesse um feijão vacinado, entre aspas.

RBA – Por ser um vírus, há risco de que a mutação venha a invalidar essa alteração genética?

Todas essas coisas são possíveis. O vírus pode passar por mutação e adquirir uma nova forma. A natureza faz mudanças ao longo do tempo. Mas é improvável que isso aconteça em um período curto. Se isso acontecer, rapidamente se pode ver a sequência do vírus, desenhar um novo RNA (e fazer outra variedade geneticamente modificada) e resolver o problema novamente, de uma maneira muito mais simples. Fizemos as audiências, tivemos discussões longas durante muito tempo, e não existe na natureza variabilidade para a tolerância ao vírus. Não há como ser pelas vias normais. Essa é a única maneira.

RBA – Cinco pesquisadores manifestaram que gostariam de ter um pouco mais de tempo.

Para quem acompanha isso há mais de 16 anos… Para eles, independentemente da argumentação cientifica, a posição deles é a posição ideológica, de retórica, independentemente de qualquer posição cientifica. Essa não é uma posição científica. E isso é visível durante a existência da CTNBio, sempre votam contra, independentemente do que for. Não existe argumento científico que os satisfaça.

RBA – Qual sua opinião a respeito do parecer enviado pela Universidade Federal de Santa Catarina?

É o mesmo grupo. O estudo da Universidade Federal de Santa Catarina é encabeçado pelo professor Rubens Nodari, conhecido na comunidade cientifica brasileira por ser radicalmente contra qualquer tecnologia relacionada à engenharia genética. É uma posição ideológica, obscurantista, que não tem razão de ser. Eles são muito eficientes em fomentar medo, incerteza, exigir segurança absoluta, risco zero, coisa que em vida biológica não existe.

RBA – Por isso o parecer não foi avaliado durante a reunião?

Foi avaliado, sim, e a argumentação é a mesma de 16 anos atrás. Peguei seis pareceristas, avaliamos o documento e não existe nenhum fato científico ali que valesse ser discutido novamente. Todas as argumentações já foram exaustivamente discutidas ao longo desses 16 anos, mesmo quando ele (Nodari) era membro. Ele continua com a mesma posição, de ir contra a esmagadora maioria do que está acontecendo no Brasil.

RBA – Como pesquisador da Embrapa, como vê o trabalho da empresa?

A repercussão fora vai ser muito maior do que aqui. É um feito intelectual e científico grande. Acho que nem nós, tomadores de decisão, nem nossos políticos estão entendendo o que está acontecendo. É um feito significativo.

RBA – Deve haver cobrança de royalties para produtores?

Eu me aposentei há dois anos e não sei qual a política da Embrapa hoje. Mas, se formos para trás, a Embrapa talvez possa cobrar a propriedade intelectual em alguns casos, mas não a vejo fazendo isso. Se é por uma causa social, o governo pode bancar a produção disso e não bancar nada. Agora, se vai licenciar isso para uma firma de sementes que vai vender e se beneficiar disso, pode cobrar uma taxa tecnológica. Aí é uma questão de negócio. Se não é para ganhar dinheiro, não tem de cobrar nada. O pequeno produtor de feijão pode inclusive guardar a semente para plantar novamente.

RBA – O histórico de uma empresa, no caso a Embrapa, é levado em conta na hora da liberação?

Não. Analisamos caso a caso, independentemente se é uma empresa pública ou uma multinacional. A análise é completamente independente do proponente. É cientifica, de risco, onde se analisa qual modificação genética foi feita, qual gene foi manipulado, que tipo de proteína se produz, qual o histórico dessa proteína no mundo, qual a via metabólica que se mudou, qual a estabilidade desse gene no evento geneticamente modificado. É analisado exaustivamente.

Quando a gente fala em risco, é como eu já disse, viver é perigoso. Poucos meses atrás, teve o caso do broto de feijão na Alemanha. Pessoas morreram, tiveram de fazer dezenas de exames. E era feijão orgânico. Se não fosse feijão orgânico, aquilo não teria acontecido. Então, o risco existe. O que precisamos fazer é analisar para minimizar ao máximo o risco.

Esses transgênicos estão no mundo todo. São mais de um bilhão de hectares sendo cultivados e eles se mostraram extremamente seguros. Agora, se falar “é 100% seguro?”. Não é. Nada é na vida biológica. Agora, é improvável que venha a acontecer alguma coisa errada? É improvável. É provável você ganhar na Mega-Sena sozinho? É. É improvável você ganhar na Mega-Sena dez vezes seguidas? É improvável. Só político brasileiro é que ganha (alusão ao ex-deputado João Alves, que, em meio a suspeitas de enriquecimento por desvios do caso dos “Anões do Orçamento”, em 1991, alegou ter enriquecido por ter ganhado recorridas vezes na loteria).

RBA – Dentro dessa pequena margem de insegurança, o que pode dar errado?

Não consigo identificar. Só se aparecer alguma coisa totalmente nova, que ninguém saiba. Tudo o que podíamos contar foi avaliado.

RBA – Daqui para a frente, quais os desafios que o senhor vê para a CTNBio?

A CTNBio, com 16 anos funcionando, já tem um know how, um conhecimento acumulado. O desafio que vejo é ela continuar sendo composta por membros da comunidade cientifica brasileira, com experiência na área, e isenção política e ideológica. No momento, uma parte dos membros não satisfaz esses entendimentos mas, como estamos em uma democracia, no fim das contas acho até que o contraditório é bom. Isso nos mantém mais alerta.

Fonte: [ Rede Brasil Atual ]

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Arquivado em Alimentos, Biotecnologia, Entrevistas, Transgênicos

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