A abelha é nativa; o mel, clandestino

por Janaina Fidalgo

As abelhas indígenas sem ferrão (Meliponíneas) são nativas do Brasil e sempre voaram por aí, de flor em flor, produzindo mel de ótima qualidade. Ops, mel não, porque o alimento produzido pelas abelhas indígenas não pode ser chamado de mel.

A legislação vigente se baseia nos padrões físico-químicos do mel produzido por abelhas estrangeiras (Apis mellifera e Apis mellifera scutellata) – esse que está nas prateleiras de qualquer supermercado.

Para ser “considerado” mel, o produto das abelhas indígenas deveria ter umidade máxima de 20% – mas chega a 35% – e, no mínimo, 65% de açúcares redutores (tem 50%). Por isso, o “mel” de jataís, mandaçaias, borás, uruçus e tubunas continua desconhecido. E clandestino.

Mel

Fosse uma questão de saúde, a produção de “mel” de abelhas indígenas sem ferrão (Meliponíneas) deveria ser incentivada, porque ele tem poder antibiótico maior que o da introduzida Apis mellifera. Se se tratasse de uma preocupação ambiental, as abelhas nativas seriam protegidas como importantes polinizadoras. Sendo o gosto o assunto, o mel ácido e menos doce de tiúbas, manduris e tubis tiraria o paladar do marasmo.

Por que, então, apesar de tantos predicados:

1) o mel de abelhas indígenas não está à venda em todo canto;

2) tanta gente desconhece a existência de abelhas indígenas;

3) há aspas abraçando a palavra mel neste texto?

Culpa de um regulamento de 1952 que baseia nas características do mel de abelhas melíferas (Apis mellifera) os padrões de identidade e qualidade para classificar o produto. Como a composição do de abelhas indígenas é diferente – é mais líquido e tem menos açúcares -, este não pode ser chamado de mel. Brasileiro – e clandestino.

“Pura questão burocrática. México e Venezuela têm o mesmo problema”, diz Paulo Nogueira-Neto, professor titular emérito da USP e especialista em abelhas indígenas sem ferrão. “Como há legislação sobre a criação, agora você pode criar e até vender ninhos. Só não pode comercializar. Por isso o mel das Meliponíneas é vendido clandestinamente.” (Até 2004 o manejo destas abelhas, espécies selvagens, era proibido.)

Por se organizarem em colônias menores, as abelhas indígenas produzem menos mel que a Apis – e ele custa dez vezes mais. “Quem conhece, não se importa de pagar mais”, diz Marilda Cortopassi-Laurino, pesquisadora do Laboratório de Abelhas da USP.

Enquanto o Brasil não tem uma lei que respeite as características do mel das Meliponíneas, alguns produtores têm testado a desumidificação deste produto. No entanto, ainda não há pesquisas que comprovem se o procedimento não compromete o poder antibiótico e as qualidades gustativas. “Não tenho nada contra a desidratação em si, desde que seja assumida. O que não admito é obrigar a desidratar”, diz Roberto Smeraldi, da Oscip Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

Jataís herdadas e bem viajadas – Neide Rigo, nutricionista

Nossos amigos gaúchos resolveram se mudar para Barcelona e queriam porque queriam que as abelhas ficassem comigo. Não encontrei regulamentação sobre o transporte de animais que mencionasse abelhas nativas sem ferrão. Pensamos em várias possibilidades de locomoção, todas inviáveis. Consultamos especialistas em meliponas e um deles nos disse que o melhor para elas seria deixá-las no escuro, em local fresco, que elas dormiriam e nem sentiriam a viagem. A maior prejudicada fui eu, que nunca havia viajado 18 horas de ônibus e sem a companhia de ida, que voltou de avião. Alguém tinha de ficar solto para tirar o outro da cadeia.

A paranoia já tinha começado. E, embora as três caixinhas estivessem bem acomodadas no porta-malas, fiquei o tempo todo apreensiva. E se fossem mais espertas do que supúnhamos, fizessem buraquinhos na caixa e fugissem? E se um certo zum-zum-zum ficasse audível e o ônibus precisasse parar? Chamariam a polícia para vistoriar o bagageiro e eu seria presa? Crime ambiental, inafiançável.

Tantas horas de paranoia, mas chegaram bem. Na primeira semana estranharam a direção do vento, os caminhos que levavam às flores e os esconderijos do pólen. Furaram todos os botões de ipomea da vizinha, ignoraram as flores de manjericão e passaram batidas pelas flores de feijão. Hoje, trabalhadeiras, polinizam tudo – o feijão mangalô produz como nunca. Ainda fazem zum-zum-zum e mel. E que mel! Ácido, fluido, floral. Alquimista nenhum sabe fazer. Por esse mel, faria tudo de novo.

Fonte: [ Estadão ]

Notas

Para saber mais, acesse o grupo ABENA

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1 comentário

Arquivado em Alimentos, Cultivo, Curiosidades, Ecologia, Flores, Meio Ambiente, Técnicas

Uma resposta para “A abelha é nativa; o mel, clandestino

  1. Gesimar

    Apesar de pequenas, seu entendimento requer uma boa dose de estudo.
    O problema da umidade do mel tende a ser contornado com a desidratação por diversos métodos já desenvolvidos, o melhor conservante ainda é o frio, para meis não desidratados.
    O problema maior do produto é a falta de tradição de consumo fora das regiões norte e nordeste.
    Enfim, falta-me tempo hoje para entrar em maiores detalhes, recomendo essas abelhinhas como pet . Conheçam o maior grupo de discussão sobre o assunto : ABELHAS NATIVAS – ABENA

    http://br.groups.yahoo.com/group/Abena/

    Sou o moderador e terei o maior prazer em ajudar.

    Gesimar
    Rio de Janeiro
    gesimar@gmail.com

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