O Raleio na Fruticultura

por Eng° Agr° Valério Pietro Mondin¹

O raleio ou desbaste de frutas é a retirada ou eliminação do excesso de frutas produzidas pela planta, bem como daquelas defeituosas ou não desejáveis.

Objetiva deixar a produção em equilíbrio com o vigor e a capacidade da planta, mantendo melhores frutos, bem distribuídos, bem como, manter a capacidade produtiva para a safra seguinte.

Poderá ser adaptado ao tipo e intensidade de poda, ao sistema de condução, ao vigor da planta, à densidade do pomar, à fertilidade do solo, à situação fitossanitária, à disponibilidade de água, entre outros fatores.

Pode-se acreditar, às vezes, que a poda bem feita possa dispensar o raleio. Isso é praticamente impossível. Só com a poda não se consegue deixar a quantidade adequada de frutas, da melhor qualidade e na melhor distribuição.

O raleio não é obrigatório para todas as espécies e cultivares. Existem aquelas que não respondem bem a esta prática. Apresenta, no entanto, para outras, uma série de benefícios à produção e à qualidade das frutas, no transcorrer das safras, com repercussão positiva nos aspectos econômicos.

BENEFÍCIOS DO RALEIO

Evitar alternâncias de safras
Muitas variedades tendem a produzir frutas em excesso, enfraquecendo a planta e as suas reservas nutricionais para a safra seguinte. Com o raleio, consegue-se melhor equilibrar o estado nutricional da planta. Obtém-se, assim, boa produção de frutas, na safra em andamento, bom desenvolvimento vegetativo e boa formação de gemas frutíferas para a próxima safra.

Evitar quebra de ramos
Os ramos com muitas frutas, apesar de pequenas, têm uma sobrecarga de peso. Este fato, às vezes, favorecido por ventos e por chuva pode causar o seu rompimento ou quebra. Isso prejudica a planta em seu desenvolvimento, sua sanidade e sua produção.

Favorecer a sanidade das frutas
Muitas frutas, embora não formadas completamente, podem se apresentar doentes, atacadas por pragas ou com defeitos. Elas são, assim, eliminadas já no início, evitando contaminações e inferior qualidade. Ocorre uma melhor iluminação e arejamento, favorecendo as condições sanitárias. Possibilita maior eficiência dos tratamentos fitossanitários, que atingem melhor as frutas a serem protegidas. A planta, favorecida pela melhor e mais equilibrada nutrição, poderá apresentar maior capacidade e resistência frente às pragas e doenças.

Melhorar a qualidade das frutas
Nas frutas, após o raleio, poderão ser observadas melhorias e que serão mais visíveis à medida que se desenvolvem e amadurecem. Elas terão, provavelmente, maior tamanho, melhor aparência, melhor coloração, melhor e mais uniforme maturação.

Diminuir custos
Com o raleio, ocorre a produção de frutas em menor quantidade, mas de maior tamanho e qualidade. Isso possibilitará melhor rendimento do trabalho e menor custo na colheita, no transporte, no beneficiamento, nas embalagens e no armazenamento.

Favorecer a comercialização
As frutas obtidas, com maior tamanho, com melhor coloração e aparência e condizentes com a cultivar, são sempre as preferidas pelos compradores, sejam eles atacadistas, varejistas ou consumidores.

TIPOS DE RALEIO

Existem dois tipos de raleio que poderão ser adotados pelo fruticultor, conforme lhe for mais favorável ou conveniente.

O raleio poderá ser químico ou manual, mas no químico, para obter um melhor resultado, será necessário que se faça, também, o repasse manual.

RALEIO QUÍMICO

É um tipo de raleio, talvez mais adequado a grandes pomares, mesmo assim, os pequenos produtores interessados, poderão usá-lo se lhes for conveniente. É usado geralmente por quem precisa vencer a tarefa no curto espaço de tempo, dentro da época adequada, diminuindo a necessidade de mão de obra.

Para sua execução, deve-se fazer a aplicação de produtos químicos, considerados raleantes. Para maior conhecimento e uso deste tipo de raleio, existem diversos trabalhos de pesquisa. Esses trabalhos abordam os produtos a serem usados, suas dosagens, épocas e forma de aplicação, direcionados às espécies e cultivares pesquisadas, o que não será abordado neste artigo.

RALEIO MANUAL

É o retirar das frutas com as próprias mãos ou com algum equipamento auxiliar, como tesouras, varas e forquilhas adaptadas. É possível que haja outros equipamentos em uso, para tornar a prática mais fácil, ágil e cômoda, pois é uma das atividades mais demoradas da fruticultura.

No raleio manual serão consideradas algumas opções de métodos e intensidades que poderão ser usadas. O fruticultor poderá adotar a que lhe for mais adequada, para ter o melhor resultado. Todas objetivam a produção de alta qualidade, com base na capacidade produtiva da planta e, também, prepará-la para a safra seguinte.

MÉTODOS E INTENSIDADE

Pelo tamanho das frutas
É um método bastante prático e simples de ser realizado.

Baseia-se no fato de que as frutas, inicialmente menores, serão menores até o final e as que são maiores o serão, também, até o final.

Deixam-se sempre as maiores frutas, em número de 1 a 2, no máximo, por ramo produtivo. É desejável que haja suficiente espaço, entre elas, para não se tocarem, ou no mínimo possível, até a maturação. É importante ter uma noção da capacidade de produção média, das plantas e adaptá-la à mesma.

Pelo espaçamento entre frutas
De um modo geral, deixa-se de 8 a 15 cm entre frutas. Pode apresentar dificuldades em algumas espécies e variedades, pela maior ou menor presença de diferentes tipos de ramos de frutificação. Têm inconvenientes, ainda, de eliminar muitas frutas maiores e as frutas que permanecem serem em quantidade muito variável e não adaptadas à capacidade da planta.

É necessário haver acompanhamento e compensações de acordo com a necessidade, as condições existentes e os resultados anteriores.

Pela expectativa de produção
Com base nas produções obtidas, dos pomares existentes, bem como suas idades e condições, pode-se ter uma expectativa da produção do pomar.

Da produção esperada, por hectare (Ex. 25 000 kg), divide-se pelo número de plantas da área (Ex. 333 plantas). É obtido, assim, o volume de produção por planta (Ex. 75 kg). Com base no peso médio da fruta, da espécie e da cultivar considerada (Ex. 100g), divide-se a produção esperada por planta, por esse peso médio (Ex.75 kg ou 75 000g ÷100g = 750). Permanecem, portanto e conforme o exemplo, 750 frutas por planta. Essas frutas deverão ficar o melhor distribuído possível, respeitando-se a capacidade do ramo, o espaçamento e a capacidade da planta.

Pelo número de folhas
Sabe-se que, de acordo com a espécie e a variedade, são necessárias 25 a 40 folhas para produzir uma fruta de qualidade. Para determinar o número de frutas que permaneceria, seria necessário contar as folhas úteis da planta. Pode-se ver que, este método, é bastante difícil e, de certa forma, impraticável.

Pela área da secção do tronco
É um método desenvolvido pela Embrapa de Pelotas, RS e mais usado no raleio de pêssegos. Considera o vigor da planta e a sua capacidade de produção pelo desenvolvimento de seu tronco. Mede-se o tronco a 20 cm de altura do solo e com base na área da secção do mesmo, nesta altura, deixa-se de 4 a 6 frutas por cm². Para facilitar, existe uma tabela adaptada que só com a medida da circunferência do tronco, fornece o número de frutas que deverão permanecer na planta (Ex. com 20 cm de circunferência, permanecem, em média 160 frutas e assim consta para outras medidas).

Para quem tiver interesse, a tabela poderá ser solicitada às entidades de assistência técnica. Poderá, também, ser confeccionada usando-se a fórmula A= C² / 4π, onde: A= área (da secção do tronco); C= circunferência (da secção do tronco); π = 3,1416.

Para facilitar a execução prática deste método, pode-se medir cerca de 5 plantas, por hectare e usar a média obtida entre elas, para o restante do pomar, se ele for uniforme. Em pomar desuniforme, usa-se a média de 10 a15 plantas, por hectare.

Em plantas novas e em formação a quantidade de frutas, que permanecerá, deverá ser menor, ou mesmo ser totalmente eliminada, para não prejudicar o seu bom desenvolvimento e formação.
Em árvores adultas e de mais idade, o tronco poderá estar muito desenvolvido e deverá haver uma compensação, diminuindo o número de frutas a permanecer, por cm².

Pela área de face da copa (uma opção diferente)
A copa de uma planta permite conhecer o seu vigor, o seu volume vegetativo e a sua massa folhar, que são fundamentais para a determinação de sua capacidade produtiva. Pela área de uma das faces ou da silhueta (Ebert et al, 1987) da copa, exposta para a entre fila, é possível determinar esta capacidade produtiva.

Por diversas safras observamos, testamos e acompanhamos essa forma de determinar o raleio e os seus resultados. Por tentativas e testes, foi possível concluir que para cada 1m² da face ou silhueta da copa, conforme citado, é possível, manter em média 10 kg de frutas. Este volume poderá ter adaptação para mais, em plantas muito vigorosas e para menos em plantas pouco vigorosas. Se houver interesse, esses parâmetros poderão ser melhor estudados, pesquisados e adaptados, o que só trará melhorias ao método.

Para determinar a área da face da copa, toma-se sua largura média e multiplica-se pela sua altura média (Ex. 3m x 2m = 6m²). Com a área definida e por proporcionalidade, multiplica-se o resultado por 10 kg (6 x 10 kg = 60 kg). Este volume, dividido pelo peso médio, da fruta considerada, dará a quantidade que poderá permanecer na planta. O pêssego da variedade Coral foi o que mais acompanhamos e seu peso médio considerado foi de 100g por fruta e, portanto nesse caso, seriam deixadas 600 frutas (60 kg ou 60 000g ÷ 100g = 600).

Em plantas novas ou até que ocupem todo o espaço que lhes é disponível, deve-se evitar carga excessiva de produção. Elas devem ter suficiente vigor e reserva para a sua formação e pleno desenvolvimento vegetativo. Nesse caso, a produção deve ser adequada ao seu crescimento e para isso, a cada 1m² de face ou silhueta, deixa-se o equivalente à sua idade, em peso de frutas. Assim, em uma planta de 2 anos, para cada 1m² de face deixa-se 2 kg de produção, com 3 anos deixa-se 3 kg e assim por diante.

O cálculo da área da face exposta ou silhueta da planta, depois de algumas práticas poderá ser feito por estimativa visual, o que facilitará muito a execução do trabalho.

Quando a poda for adequada, a distribuição da produção, na planta, poderá ser de 1 a 2 frutas por ramo produtivo, seguindo-se o método de raleio pelo tamanho das frutas, anteriormente descrito.

ÉPOCA DO RALEIO

Pode-se dizer que quanto mais cedo for realizado o raleio, tanto melhor. Se for possível realizá-lo na floração, menos energia a planta perderá e melhor será a indução (formação de gemas frutíferas) para a safra seguinte. Melhores, também, serão os frutos obtidos na safra em andamento.

Em nossas condições, é comum o risco de geadas prejudiciais de fim de inverno e de início de primavera. Ocorre, também muitas vezes, uma grande queda natural. Essas condições fazem o fruticultor ser mais precavido. Ele não poderá, mesmo assim, retardar demais a prática ou não obterá os benefícios dela esperados.

A eliminação das frutas em excesso, para a obtenção do melhor resultado, deverá ser feita até o final da divisão celular e da indução das gemas floríferas para a próxima safra.
Para a qualidade das frutas da safra atual, quanto mais cedo for o raleio, tanto melhor e quanto mais tarde, pior será o resultado.

De um modo geral, pode-se dizer que o raleio deverá ser feito até 30 a 45 dias após a plena floração ou até os frutos atingirem 1,5 a 2,0 cm de diâmetro. No caso das frutas de caroço, é o período que vai até o endurecimento do caroço. Esse é o período de divisão celular e indução das gemas floríferas para a próxima safra.

O início do raleio deverá ser pelas variedades mais precoces, seguindo na ordem de maturação e concluindo com as mais tardias.

CONSIDERAÇÕES COMPLEMENTARES

No início do raleio, quando possível, pode-se fazer a vibração dos galhos, assim, muitas frutas que já estariam sendo dispensadas pela própria planta, serão eliminadas, evitando trabalho desnecessário.

Muitas vezes, a quantidade de frutas eliminadas, no raleio, é grande e pode impressionar. É bom saber que, em alguns casos, pode ser necessário eliminar até 70% ou mais das frutas, para obter um bom resultado.

Em plantas que apresentam bom vigor, com boa vegetação e bom número de ramos do ano, a permanência de frutas poderá ser maior. Ao contrario, plantas com fraco vigor, com fraca vegetação, pequeno número e fracos ramos do ano, a permanência de frutas deverá ser menor. Em plantas novas ou que ainda não ocuparam todo o espaço que lhes é disponível e adequado, também, deixa-se menor quantidade de frutas.

Ao iniciar o raleio, busca-se eliminar as frutas defeituosas e com problemas (desuniformes, doentes, atacadas por pragas, etc.), muito agrupadas e mal localizadas. A seguir continua-se eliminando os excessos, deixando sempre as melhores, com a melhor iluminação e distribuição possível, de acordo com o vigor do ramo. Em ramos muito fracos, é preferível fazer a eliminação total.

O número de frutas remanescentes pode ser cerca de 10% maior do que o esperado. Este excesso é para compensar eventual queda natural ou perdas posteriores que possam ocorrer, por motivos diversos.

Após o raleio mais intenso, deve-se repassar seguidamente durante o desenvolvimento dos frutos, para eliminar aqueles que apresentarem problemas, o que ocorrerá normalmente.

O raleio bem feito certamente proporcionará frutas de melhor qualidade, trará vantagens ao fruticultor, aos demais participantes do setor e maior satisfação ao consumidor.

REFERÊNCIAS

EBERT et al. Capacidade de produção de macieiras. Florianópolis, EMPASC, 1987. 23 p. (EMPASC, Boletim Técnico, 41).

EPAGRI. A cultura da macieira. Florianópolis, 2002. 743 p.

EPAGRI. Normas técnicas para o cultivo da ameixeira em Santa Catarina. Florianópolis, 1996. 39 p. (EPAGRI. Sistemas de Produção, 22).

EPAGRI. Normas técnicas para o cultivo do pessegueiro em Santa Catarina. Florianópolis, 1995. 38 p. (EPAGRI. Sistema de Produção, 23).

TISCORNIA, J. R. Raleio em Macieira. Pelotas, EMBRAPA/UEPAE-CASCATA, 1983. 18 p. (EMBRAPA. Circular Técnica, 7).

TUKEY, R. B. Tamanho das frutas: tão importante para o lucro quanto a coloração e embalagem. Traduzido por Nicoleta T. Nicolacopulos. Florianópolis, ACARESC, 1988. 6 p.

___
¹ Cooperado da UNEAGRO/SC

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