Novo Código Florestal ameaça família de plantas, diz especialista

Canvin & Hobbes

Segundo o professor do Departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Thomas Lewinsohn, a revisão do Código Florestal brasileiro, aprovada no Senado na última terça-feira, 6 de dezembro, poderá contribuir para a perda de biodiversidade, e atingirá particularmente o sistema que envolve a família de plantas Compositae.

Compositae é a maior família de plantas existente que compreende espécies de plantas conhecidas como o girassol, a alface, a margarida e o crisântemo. Com quase 30 mil espécies, espalhadas em todos os continentes, nos mais diversos biomas, a família possui um papel importante em inúmeros ecossistemas, assim como alto interesse econômico.

“Determinadas áreas deverão ser mais sacrificadas por essas mudanças no Código Florestal. Áreas consideradas muito vulneráveis, que são protegidas pela versão ainda existente do código, que está sendo modificada, incluíam topos de morros, áreas em cotas acima de 600 metros, áreas com grande declividade, áreas inundáveis, dunas, restingas e áreas costeiras. As Compositae estão presentes exatamente nesses locais”, disse Lewinsohn à Agência Fapesp.

Segundo Lewinsohn, a legislação continuará protegendo essas áreas, no entanto, abrirá exceção para situações consolidadas. “Situação consolidada é o novo eufemismo para situação ilegal. Uma das coisas que o novo código está fazendo é legalizar ocupações urbanas e ocupações de culturas em áreas de grande risco e áreas vulneráveis. São situações ilegais que se tornaram um fato consumado. Em vez de resolver o problema, legaliza-se o incorreto. A sinalização que foi dada é: continue infringindo a lei e aguarde a próxima anistia”, afirmou.

Estudos sobre relações entre animais e vegetais

Normalmente plantas e animais são estudados separadamente, no entanto, segundo estudiosos, para compreender e conservar a biodiversidade da Terra é fundamental estudar a relação entre plantas e animais, isso porque mais da metade da biodiversidade existente é formado pelo sistema no qual animais se alimentam de espécies vegetais.

Essa análise foi realizada por Lewinsohn durante a reunião internacional “South American Compositae Meeting”,no dia 7 de dezembro. O congresso tem o objetivo de apresentar os mais recentes estudos na sistemática, biogeografia, evolução e conservação de Compositae na América do Sul.

Os estudos sobre a relação entre plantas e animais, segundo Lewinsohn, ajudam a entender a importância da conservação da biodiversidade. Por essa relação, segundo ele, passam diversos processos importantes para a manutenção dos ecossistemas e que acabam afetando diretamente a qualidade de vida humana e a capacidade de obter recursos naturais de interesse.

“Como consumidores de plantas, somos concorrentes diretos dos herbívoros. É preciso conhecer a concorrência e entendê-la, porque muitas vezes perdemos as lutas. O consumo de plantas por animais herbívoros é um dos principais problemas que existem permanentemente na agricultura”, disse.

Os estudos

Em seus estudos, Lewinsohn está produzindo listas de insetos associados a espécies determinadas de Compositae. Os dados incluem amostras de 535 tipos de plantas e mais de três mil amostras de artrópodes, que foram obtidos entre 1995 e 2005 em quatro regiões, Serra Gaúcha, Cerrados de São Paulo, Serra da Mantiqueira e Serra do Espinhaço.

A análise permitiu montar uma lista de espécies relacionadas entre si, que desvenda a dinâmica das interações. “Começamos por um trabalho de prospecção das espécies existentes no campo e depois passamos para a coleta do material e armazenamos os capítulos. É um trabalho extenso e levamos 10 anos para conseguir uma primeira lista de espécies. Trata-se de um quebra-cabeça gigantesco”, afirmou.

Para Lewinsohn, é a partir desse tipo de levantamento que os cientistas podem tentar responder inúmeras perguntas científicas como: por que algumas espécies são mais associadas entre si? Qual a congruência entre o conjunto de hospedeiros dos mesmos insetos? Por que certas plantas suportam comunidades mais diversificadas que outras? Que características evolutivas estão associadas a essas condições? A grande separação entre elas seria a relação entre a presença no espaço e a filogenética comum?

“Nosso objetivo é acoplar a filogenia de animais às filogenias de plantas. No entanto, existem alguns gargalos para esse tipo de estudo. As dificuldades técnicas, ligadas principalmente à análise de DNA, estão sendo superadas em uma velocidade espantosa. Mas o principal obstáculo consiste em obter informação eficiente de campo. Trata-se de uma informação simples: quais são as espécies e onde elas estão. Algo que sabemos como fazer, mas que requer um volume impressionante de trabalho e, por isso, grande quantidade de pessoas”, afirmou.

Com informações da Agência Fapesp.

Fonte: [ Eco Desenvolvimento ]

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mais infos:

Novo Código Florestal: IPEA aponta desastre
PESQUISA SOBRE A REFORMULAÇÃO DO CÓDIGO FLORESTAL
IPEA – Estudo avaliou impactos do novo Código Florestal

Não consegui acessar o link para a íntegra do Comunicado do Ipea n° 96 – Código florestal: implicações do PL 1876/99 nas áreas de reserva legal. Alguém conseguiu?

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Arquivado em Biodiversidade, Congresso, Ecologia, Flores, Meio Ambiente, Projetos, Votação

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