Produção indígena é alvo de pesquisa

O aproveitamento sustentável dos recursos naturais de aldeias indígenas no Maranhão e no Pará é o objetivo de projeto de pesquisa desenvolvido no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade, mantido pelo Museu Paraense Emílio Goeldi.

O laboratório de práticas sustentáveis em terras indígenas próximas ao arco de desmatamento, coordenado por Claudia López, reúne diversas iniciativas de investigação. Dentre elas está uma pesquisa desenvolvida em nível de pós-graduação que faz levantamento de produtos florestais não-madeireiros em duas aldeias no Pará: Moikarakô na terra indígena Kayapó e Las Casas, na terra indígena do mesmo nome.

O estudo desenvolvido, no âmbito da etnobotânica, pela mestre Sol González Pérez, aborda aspectos do conhecimento e uso de recursos vegetais, assim como das possibilidades de comercialização e possível geração de renda através do artesanato. Pesquisas dessa natureza atendem demandas das próprias comunidades, encaminhadas por seus representantes aos cientistas que se dedicam a estudar populações indígenas.

De início, foi necessário fazer um mapeamento das principais áreas de coleta de sementes, fibras, cipós, além de plantas medicinais utilizadas na medicina tradicional dos índios. Para ambas as aldeias, o estudo foi direcionado às sementes usadas no artesanato. Quarenta e duas espécies de plantas fornecedoras de sementes foram levantadas: 32 em Moikarakô e 26 em Las Casas.

Embora 16 deste total de espécies sejam comuns às duas aldeias, é interessante destacar que entre os Kayapó o intercâmbio de matérias-primas de origem vegetal é uma atividade habitual entre os residentes das diferentes aldeias, e acontece devido à ausência ou presença dos recursos no entorno onde residem, e também como estratégia para reforçar laços sociais, muito importantes entre os índios.

Entre os Ka’apor da aldeia Las Casas, além das sementes utilizadas no artesanato, outros produtos florestais não madeireiros se destacaram. Entre eles, o pequi, do qual são consumidos os frutos; o buriti, cujas fibras são amplamente usadas no artesanato, e o babaçu, utilizado principalmente para a construção de casas (folhas) e para a extração de óleo (das amêndoas). Todas essas espécies são típicas do ambiente cerrado e sua coleta implica tanto na participação feminina (babaçu) e masculina (buriti) quanto na familiar (pequi).

SEMENTES

A utilização de sementes requer um longo processo de tratamento, envolvendo lavagem, secagem, perfuração e, ao final, a sua utilização associada a miçangas, fios de nylon e algodão adquiridos no comércio próximo. Nem sempre foi assim. O artesanato indígena usava materiais originais, fabricados por eles próprios como era o caso do fio de algodão. Os padrões dos desenhos em colares, por exemplo, também hoje mesclam materiais, mas nem por isso deixam de receber o que a pesquisadora denomina de assinatura Kayapó.

No sul do Pará na aldeia Las Casas, a produção de artesanato a partir de sementes é uma atividade predominantemente masculina, uma vez que são principalmente os homens que participam da etapa da coleta de sementes e produção dos colares. Isto não impede, porém, que a atividade venha se tornando familiar. Entre as atividades femininas se destacam os trabalhos feitos com miçangas. Independente da questão de gênero é preciso ressaltar que ao imprimir sua marca, os Kayapó, com seu estilo próprio, também aplicam valor diferenciado ao produto, explica Pascale de Robert, que juntamente com Márlia Coelho Ferreira, orienta o trabalho de mestrado de Sol.

Mas a etapa mais difícil ainda está por vir: a comercialização da produção. A distância dos centros urbanos e a impossibilidade de utilizar materiais hoje proibidos como penas, madeiras e fibras são dois empecilhos.

Dados os valores que alcançam o produto final, o público que tem poder aquisitivo não necessariamente se interessa pelos artefatos. Outro estudo realizado pela antropóloga Claudia López e sua orientanda, Marluce Araújo, entre o povo indígena Ka’apor da Terra Indígena Alto Turiaçu – MA, além da pesquisa acadêmica sobre a cultura material Ka’apor, busca alternativas de comercialização dos artefatos indígenas em Belém, mas o sistema de venda consignada -onde o produtor só recebe quando o artigo é vendido – sob o qual opera o Espaço São José Liberto – e que concentra uma variedade de artigos artesanais Ka’apor, traz dificuldades para as necessidades imediatas de geração de renda.

Ainda que do ponto de vista acadêmico, demandas por vias de comercialização não se constituam fundamentais, as parcerias institucionais facilitadas pelos que mais diretamente estão em contato com as comunidades, são formas legítimas de atuação. Assim, Claudia López menciona possibilidades de colaboração com a Funai para intermediar ação no campo da produção de artefatos indígenas. Há também proposta de alternativa de geração de renda com a demanda de implantação de um Museu de Arte Kayapó na aldeia Las Casas, visando à difusão da Cultura Kayapó.

A partir do método etnográfico, Marluce, sob orientação da antropóloga do Museu Goeldi, Claudia López, identificou em algumas viagens de campo, o potencial das espécies vegetais.

(Agência Museu Goeldi)

Fonte: [ Diário do Pará ]

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Arquivado em Biodiversidade, Etnobotânica, Meio Ambiente, Projetos

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