Arquivo da categoria: Observações

Dendrofobia

img_7143.jpg

Dendrofobia

Nelson M. Mendes

[Adaptação e edição de um texto escrito em setembro de 2005. É terrível perceber que ele está mais atual do que nunca.]

 

[De dendr(o)-  +  fob(o)-  -ia.]  S.f.  Horror às árvores

A definição do Aurélio é curta e grossa. Espanta, surpreende. Nem se imaginava que pudesse existir um nome para uma fobia infelizmente muito comum.

No dia 21 de setembro se comemora o Dia da Árvore.  Muitos eventos são programados por escolas, ONGs, instituições variadas. Árvores são plantadas por crianças que, em seguida, dão comoventes entrevistas a repórteres que “levantam a bola” na exata medida para que a resposta à pergunta seja a desejada, a “politicamente correta”, aquela que ensejará um sorriso complacente e aprobatório do âncora do telejornal. Os telespectadores jantarão, verão sua novela, dormirão sobre sonhos e ansiedades e, no dia seguinte, nem notarão que a árvore na sua calçada não existe mais, e que no lugar restou apenas hedionda cicatriz de terra e entulho.

O amor pelas árvores

“Eu acredito que, quando uma árvore é cortada, ela renasce em algum outro lugar. Então, quando eu morrer, é para esse lugar que eu quero ir. Um lugar onde as árvores são deixadas em paz.”  O autor da frase, Tom Jobim,  foi homenageado com uma placa ao pé da gigantesca samaúma que ele venerava, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Mas fora dali, e talvez sobretudo na terra de Araribóia,  as árvores de modo algum são deixadas em paz. O brasileiro – dizia Tom – tem pavor de árvore.

Diz a escritora Gita Mehta, no livro Escadas e Serpentes:  “Para os filósofos da Índia antiga, a floresta simbolizava um cosmo idealizado. As grandes academias filosóficas da Índia ficavam todas em bosques – reconhecimento de que a floresta, autossuficiente e infinitamente regeneradora, combinava em si a diversidade e a harmonia que eram a aspiração, o objetivo da metafísica indiana. Não por acaso o grande corpus do conhecimento da Índia proveio das florestas: os Puranas, os Vedas, os Upanishads, os épicos Mahabharata e Ramayana, os sutras da ioga e os estudos médicos do Ayurveda.”

As antigas cidades indianas, ainda segundo Gita Mehta, tinham no centro um bosque, “de onde as ruas emanavam como galhos, recordando ao habitante urbano que o homem é simplesmente uma parte de um imenso organismo vivo”.  E era para a floresta que o homem, cumprida a sua missão mundana, se retirava para praticar a meditação na busca de Deus.

O desprezo

Infelizmente, tal veneração pelas florestas jamais foi uma tradição brasileira. Na verdade, o país nasceu sob o signo da derrubada de árvores: o primeiro ciclo econômico foi exatamente o da exploração predatória do pau-brasil.

O Brasil tem problemas do tamanho do Brasil. É natural, pois, que uma imensa parcela da população, preocupada em garantir o almoço do dia seguinte, não dê a menor importância a temas como preservação de florestas – até porque não está disseminada ainda a idéia de Gaia, da Terra como um organismo vivo, da qual o Homem é apenas uma das partes. O cidadão comum  e de poucas luzes está ainda no século XIX, acredita que a Natureza existe para ser indefinidamente explorada, e que seus recursos são infinitos.

O que surpreende, entretanto, é que também as classes média e alta parecem não nutrir muito apreço pelo verde. Árvores continuam sendo impiedosamente derrubadas, arrancadas pela raiz. E isso não acontece apenas em nossa fronteira agrícola, sob influxo  de fortes interesses econômicos. Acontece ao nosso lado, na nossa calçada.

O ódio pelas árvores é praga mais disseminada que a erva-de-passarinho que infesta muitas daquelas que são deixadas de pé. Alguns iniciam o processo de destruição de uma árvore pelo processo de descascamento (anelamento, segundo a linguagem técnica). Muitos, não confiando talvez na eficácia do descascamento, providenciam herbicidas, ou um prosaico óleo queimado para envenenar as raízes. Há também quem invente os mais estapafúrdios pretextos para convencer as autoridades de que é necessário remover uma árvore em que os pardais se aninhavam havia décadas. E o curioso é que, em calçadas que não são sobrevoadas por qualquer fio, onde não há qualquer entrada de garagem, qualquer motivo, enfim, que justifique a ausência de árvores, dá-se preferência à plantação de fradinhos (obstáculos de concreto); ou no máximo à construção de jardineiras risíveis, com plantas rasteiras e indigentes, que não oferecem qualquer sombra.

A árida nudez

Mas não são apenas as pessoas físicas – o dono de automóvel que deseja facilitar a entrada de sua garagem e não hesita em destruir um oiti de 70 anos, a velha senhora que se aborrece  com as folhas na sua calçada – que investem contra as árvores. Elas sofrem também uma ação institucional furiosa: a AMPLA (nome fantasia da companhia de energia elétrica, antiga CERJ) promove podas cruéis e radicais. Certamente nenhum técnico orienta os funcionários sobre como proteger a rede elétrica sem ter que decepar as copas das árvores, transformando-as em tridentes, em galharias angustiadas a clamar aos céus por um pouco de respeito. A própria Prefeitura de Niterói desnuda as árvores como se estivesse interessada não em sua saúde e beleza, muito menos na sombra para os cidadãos, mas no aproveitamento econômico da matéria vegetal.

O resultado é que algumas calçadas de Niterói estão nuas, áridas como um deserto de sal. A palavra “nuas” não é casual: o que as caracteriza é exatamente a nudez, a árida nudez, a aridez. Onde hoje tudo é cimento ou terra revolvida houve há não muito tempo árvores, lindas árvores. Derrubadas por tempestades, ou removidas por motivos obscuros, não foram repostas.

O apreço pelo cimento liso parece maior ainda entre as pessoas da terceira idade. A velha senhora justifica a dendrofobia: “As árvores quebram as calçadas…” Inútil seria lembrar que nem todas as árvores quebram calçadas e que, de qualquer forma, em muitos casos é preferível sacrificar um tanto a plástica do calçamento urbano (aliás, freqüentemente bastante deteriorado, com ou sem árvores…) em benefício do verde, da sombra, da regulação térmica urbana, do resgate de carbono.

Quem sabe as crianças, mesmo que hoje manipuladas para posarem de ecologicamente corretas, não terminem por despertar para a realidade de que em matéria de proteção ao verde, não dá para quebrar galho. Muito menos cortar.

IMG_7139

__
Fonte: [ Satyagraha ]

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Ecologia, Meio Ambiente, Observações

Livro “Diário de Memórias – Museu Comunitário do Engenho do Sertão”

20170917_100547
Recebi hoje, aqui no projeto, o livro “Diário de Memórias, Museu Comunitário Engenho do Sertão”, uma gentileza da profa. Yolanda Flores E Silva e colaboradores.
O projeto foi conduzido pela professora Dra. Yolanda Flores E Silva, com a gestão da Rô do Engenho (Rosane Luchtenberg), Daniel Baibinati e Rosane Fritsch, contou com a participação da artesã Patrícia Estivallet, da nutricionista Ivani Stello Fará e da estagiária em gastronomia Lana Becker.

Passarei a utilizá-lo para registrar minhas experiências culinárias, testes de plantio, eventos importantes, dúvidas, aprendizados…

Gratidão, Yolanda! ❤

Anderson Porto
___
Para saber mais sobre o projeto, acessem:
 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Alimentos, Cultivo, Ecologia, Etnobotânica, Notícias, Observações, Projetos

“Queremos uma horta em casa”: Saiba como os ciclos da lua podem ajudar

Hortaliças, tubérculos, leguminosas, ervas… Cada grupo, com suas variadas espécies, tem a melhor época de semear e colher. Observar a natureza é uma das melhores formas de aprender.

Ter uma horta orgânica em casa passou a ser o objeto de desejo de muitas famílias. Se você também deseja produzir alimentos livres de agrotóxicos e frescos, estude o melhor espaço para receber terra onde você mora. Em um canteiro de 3 x 4 metros já é possível iniciar uma pequena produção orgânica.

Importante fazer um breve estudo de horticultura, a começar pelos instrumentos e equipamentos que são necessários, além das noções sobre solo, germinação de sementes, reconhecimento e controle de ervas daninhas e pragas, para então iniciar o projeto da horta da família. Outro fator importante, na opinião de Anderson Porto, pequeno produtor rural e criador do portal Tudo Sobre Plantasé desenvolver uma leitura mais próxima da natureza. “Observar os ciclos da lua pode ajudar a marcar as melhores épocas de plantio, cultivo e colheita”, ele acrescenta.

Como os ciclos da lua podem ajudar na horticultura

Lua Nova: Melhor época para acontecer a semeadura, o plantio de tudo o que cresce acima da terra. Ideal também para o corte de bambu para construção; colheita e plantio de raízes, tubérculos, rizomas e bulbos; podas gerais para a produção de matéria seca.

Lua Crescente: Nesta época, a seiva sobe para as folhas, concentrando-se nos talos e ramos. Quando também pode ocorrer o plantio de tudo o que cresce acima da terra (tomate, laranja, alface, milho, soja são alguns exemplos). Durante a lua crescente, costuma acontecer a colheita de folhas (medicinais) e, pouco antes da lua cheia, a colheita de cereais. Podas com maior produção de biomassa para adubo verde estão em boa fase. Já no final da lua crescente, costuma ocorrer o corte de madeira para lenha.

Lua Cheia: Perto da lua cheia, as plantas estão com seus aromas potencializados, atraindo animais. No período de maior luminosidade lunar, a seiva está nas folhas. A lua cheia é ideal para a colheita de flores, frutos e folhas, assim como o plantio. Deve-se evitar mexer muito nas plantas, limitando-se a retirar folhas secas e galhos. Podas com maior produção de biomassa para adubo verde estão em boa fase.

Lua Minguante: A seiva desce para as raízes. Boa época para plantio, semeadura de tudo o que cresce abaixo da terra (alho, cenoura, cebola, mandioca, batata, rabanete são alguns exemplos). Podas e corte de árvores e bambus estão em boa fase. Pouco antes da lua nova, é o momento ideal para colheita de sementes. Dê preferência para intercalar adubações de 15 em 15 dias, sendo uma delas durante o último quarto minguante.

fonte: [ Fluid ]

1 comentário

Arquivado em Adubação, Alimentos, Artigos, Controle biológico, Curiosidades, Estudos, Etnobotânica, Eventos, Meio Ambiente, Observações, Plantas Medicinais, Técnicas

O gasto de água pelas plantas

Por Ana Maria Primavesi

A falta de água ocorre tanto pela absorção deficiente como pelo gasto excessivo. A quantidade de água gasta por uma planta varia muito segundo sua nutrição, a espécie e a incidência do vento.

O gasto de água é muito maior em plantas mal nutridas. Assim, batatinhas em solo pobre gastam mais do que o dobro de água que em terra adubada, e forrageiras em terra pobre gastam quase o triplo do que em estado bem nutrido.

Verifica-se que o uso econômico de água pela planta ocorre somente quando esta for bem nutrida. Por outro lado deve ser ressaltado que a planta pode ser bem nutrida em solo adubado ao lado da semente ou em solo mais pobre mas com a possibilidade de expansão, explorando um volume grande de solo com suas raízes.

Plantas bem providas de potássio transpiram menos e quando têm à sua disposição quantidades suficientes de manganês, zinco, cobre e boro, o seu plasma torna-se mais viscoso, elas gastam a água de maneira mais econômica. Vale, portanto, a regra:

Planta mal nutrida gasta mais água!

Se a planta é bem ou mal nutrida não depende somente dos elementos maiores (macro nutrientes). A planta é bem nutrida quando tem à sua disposição todos os nutrientes que necessita para formar as substâncias próprias à espécie e à variedade.

Deve-se distinguir claramente entre a capacidade de absorção pela raiz, que é própria à variedade, e à proporção dos elementos nutritivos na planta, que não varia dentro da espécie e até pode ser semelhante em espécies diferentes. Este aspecto ressalta a importância da raiz e suas propriedades diferentes.

Importante é que a metabolização dos elementos nutritivos seja a mais rápida possível e que seu transporte dentro da planta seja garantido.

Assim, a quantidade de micronutrientes que cada planta e variedade necessita encontrar no solo varia. O milho sofre facilmente da deficiência de boro, zinco e cobre, o trigo de manganês e o cobre, o café de boro, zinco e manganês, o fumo de cobre e boro, etc.

Como dito, a nutrição da planta não depende somente de uma adubação completa mas igualmente do espaço de solo que a raiz pode explorar. Assim, um solo “pobre” é capaz de produzir a hileia amazônica com suas árvores frondosas com até 3 metros de diâmetro e parece que a “pobreza” do solo depende não somente do volume de solo explorado, que pode ser restrito por camadas adensadas, mas igualmente do potencial da raiz para mobilizar nutrientes de formas não consideradas como disponíveis nas análises de rotina.

O adensamento do solo, porém, é um impedimento decisivo no abastecimento com água por confinar as raízes a camadas muito superficiais. As condições de desenvolvimento de uma planta vão piorando à medida em que o solo vai se adensando e compactando por causa da deterioração de sua estrutura grumosa.

Assim, o gasto de água pela planta depende:

1. Da adaptação ao ambiente em que cresce
2. Da umidade relativa do ar que será mais baixa onde houver maior incidência de vento
3. Da frequência do vento. Plantas expostas ao vento transpiram mais água mas produzem menos
4. Da viscosidade do plasma celular, que aumenta com um metabolismo ativo
5. Da intensidade de transpiração, que diminui em presença de micronutrientes
6. Da possibilidade de manter os estômatos abertos durante o dia para garantir a continuidade da fotossíntese
7. Da possibilidade de fechar os estômatos quando as condições se tornarem adversas (calor e uma brisa de vento constante) a fim de evitar perdas excessivas de umidade. E para isso precisa-se de potássio.

O manejo da água no solo depende, pois, essencialmente, da perícia do agricultor como o manejo do dinheiro depende da perícia do administrador.
___

Fonte: Ana Maria Primavesi

Deixe um comentário

Arquivado em Cultivo, Observações, Técnicas

O que não te contaram sobre o Míldio nas parreiras

20170422_165249

Todo ano é a mesma coisa. Chega uma certa época do ano e a parreira é “atacada” por este fungo e perde todas as folhas.

Segundo a literatura sobre cultivo de parreiras de uvas:

com a chegada do verão e início das chuvas, a viticultura passa pelo momento mais crítico com relação ao míldio, doença causada pelo fungo Plasmopara viticola – provavelmente a mais séria das doenças para a cultura da uva. O míldio é uma doença mundial, sendo problema onde o desenvolvimento da cultura é acompanhado pela alta umidade e temperaturas moderadas a quentes. A temperatura ótima para o desenvolvimento da doença é de 18oC a 24oC, com um mínimo de 12oC a 13oC e um máximo de 30oC.“[1]

Pois bem… Ao longo dos anos comecei a reparar que as plantas desenvolveram interações com outras espécies no meio ambiente. Elas literalmente “conversam” com insetos através de atrativos químicos e outras formas de comunicação.

20170422_164850

Comecei a perceber então que o “míldio” faz parte do ciclo natural da Vitis vinifera, ocorrendo todos os anos. Sua função é fazer com que a parreira perca suas folhas, e assim elas possam armazenar água para a época de dormência (abril a agosto).

Perder as folhas significa menos evapotranspiração. A planta passa a bombear menos água para a atmosfera, digamos assim.

É claro, ocorrer naturalmente não significa que deva-se deixar se instalar ou alastrar num cultivo destinado a comercialização. Ao investir numa produção de uvas gasta-se tempo e dinheiro, e portanto torna-se necessário obter um retorno desse investimento.

Para isso, em um cultivo que respeite o meio ambiente, existem as plantas bioindicadoras (pr ex., roseiras) plantadas perto, fungicidas e fertilizantes orgânicos. As soluções existem.

Em cultivos caseiros não há necessidade de combate. Basta acompanhamento. Você abdica do controle em prol do ciclo natural e apenas observa a natureza seguir seu curso.

Quis apenas trazer esse assunto à baila porque reparei que esse pequeno “detalhe”, a ocorrência de forma natural do míldio não é destacada devidamente nas publicações sobre este assunto. Ninguém fala sobre isso.

Colocam sempre o míldio como uma praga, devastador, etc., sem comentar sobre ele fazer parte do ciclo natural da Vitis vinifera.

Interessante, não?

Abraços!

Anderson Porto
(25/04/2017)
___
[1] http://www.grupocultivar.com.br/artigos/uva-hora-do-ataque-do-mildio

[2] Mais infos sobre Vitis vinifera: http://www.tudosobreplantas.com.br/asp/plantas/ficha.asp?id_planta=22240

Deixe um comentário

Arquivado em Controle biológico, Cultivo, Curiosidades, Doenças, Meio Ambiente, Observações