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Terras pretas e férteis de índios

Em áreas de antigas ocupações indígenas na Amazônia, existem solos de grande fertilidade e alta capacidade de reter carbono. A partir deles, cientistas desenvolvem biocarvão, que reproduz suas características e permite uma agricultura mais produtiva e orgânica.

Por: Antonio S. Mangrich, Claudia M. B. F. Maia, Etelvino H. Novotny

O biocarvão é produzido pelo aquecimento de biomassa na ausência de oxigênio ou com baixos teores desse gás. Esse processo, conhecido como pirólise, permite reter nas cinzas 50% do carbono inicialmente contido na biomassa. (foto cedida pelos autores)

O biocarvão é produzido pelo aquecimento de biomassa na ausência de oxigênio ou com baixos teores desse gás. Esse processo, conhecido como pirólise, permite reter nas cinzas 50% do carbono inicialmente contido na biomassa. (foto cedida pelos autores)

Naturalistas e geólogos que viajaram pela Amazônia, a partir da década de 1870, observaram manchas profundas de solo escuro, muito fértil, diferentes do solo pobre existente em quase toda a região. O solo amazônico comum é em geral arenoso ou argiloso, tem poucos nutrientes e exibe apenas uma fina camada superficial de húmus produzida pela floresta.

As manchas, ao contrário, são ricas em carbono, contendo, em média, 150 g desse elemento por quilo de solo, enquanto os outros solos da região têm de 20 a 30 g de carbono por quilo. Esses solos estão em geral associados a antigas ocupações indígenas, identificadas por fragmentos de cerâmica, ossos e outros vestígios – por isso, ganharam o nome de ‘terra preta de índio’.

Os solos escuros amazônicos vêm despertando, cada vez mais, o interesse dos cientistas, devido à sua fertilidade e à capacidade de reter carbono, evitando que seja liberado para a atmosfera. As importantes revistas científicas Nature e Science têm publicado, nos últimos anos, diversos artigos a respeito do assunto.

Além disso, vêm sendo criados grupos de pesquisa para estudar esses solos e encontros científicos são realizados para debater o tema. Em 2006, por exemplo, a reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês) dedicou um simpósio – Amazonian Dark Earths: New Discoveries (Terras Pretas da Amazônia: Novas Descobertas) – a essa questão.

Alguns pesquisadores calculam que esses solos escuros ocupem 1% (63 mil km2) de toda a área de floresta na Amazônia, mas outras estimativas atingem até 10%. As terras pretas foram formadas pelos índios pré-colombianos, embora não esteja claro se foi um processo intencional de melhoria do solo ou um subproduto das atividades agrícolas e de habitação desses povos.

A ‘terra preta’, formada por índios pré-colombianos, é caracterizada pela cor escura e a presença de fragmentos de artefatos de cerâmica. Ainda não está claro se é resultante de um processo intencional de melhoria do solo ou um subproduto das atividades agrícolas e de habitação desses povos. (foto cedida pelos autores)

A ‘terra preta’, formada por índios pré-colombianos, é caracterizada pela cor escura e a presença de fragmentos de artefatos de cerâmica. Ainda não está claro se é resultante de um processo intencional de melhoria do solo ou um subproduto das atividades agrícolas e de habitação desses povos. (foto cedida pelos autores)

Essas terras caracterizam-se por altos teores de elementos químicos importantes para a nutrição das plantas (além do carbono, estão presentes cálcio, nitrogênio, fósforo, manganês e zinco) e por uma atividade biológica maior que a dos solos próximos.

O carbono está presente no solo na forma de carvão, gerado provavelmente por meio da queima de materiais orgânicos em condições especiais (com pouco oxigênio disponível). A grande concentração de carbono no solo melhora a absorção de água, facilita a penetração de raízes e torna as plantas mais resistentes.

O tipo de carvão encontrado na terra preta de índio garante a longa retenção do carbono no solo, ao contrário do que deveria acontecer na região amazônica, em que a temperatura e a umidade são elevadas. Nessas condições, a matéria orgânica tende a se degradar rapidamente, gerando gás carbônico (CO2), mas nas terras pretas esse processo pode demorar centenas ou milhares de anos.

Condicionamento dos solos

As qualidades das terras pretas de índios levaram pesquisadores, no Brasil e no exterior, a estudar a produção de um fertilizante orgânico condicionador de solo que imite suas características. O produto obtido a partir dessas pesquisas é chamado de biocarvão (biochar, em inglês).

O otimismo em torno do tema levou à criação de uma associação mundial, a Iniciativa Internacional Biochar (IBI, na sigla em inglês), que realiza congressos a cada dois anos. O último ocorreu no Rio de Janeiro, de 12 a 15 de setembro de 2010, com a presença de mais de 200 pesquisadores do tema, vindos de 30 países de todos os continentes.

O biocarvão é produzido pelo aquecimento de biomassa na ausência de oxigênio ou com baixos teores desse gás – processo conhecido como pirólise. Enquanto a combustão (ou seja, a queima na presença de ar) permite reter, nas cinzas, apenas 2% a 3% do carbono inicialmente contido na biomassa, a pirólise aumenta esse teor para mais de 50%.

Esse processo é utilizado, de forma rústica, nos fornos que produzem carvão vegetal no interior do Brasil: após uma etapa inicial de queima na presença de ar, para secar a madeira, os fornos são lacrados para a etapa da pirólise.

Na produção de biocarvão são utilizados resíduos orgânicos urbanos sólidos (restos de podas de árvores, lodo de esgoto), resíduos agrícolas (restos de culturas, bagaço e palha de cana-de-açúcar), resíduos industriais (da indústria de papel e celulose, por exemplo), ou materiais de origem animal (ossos, esterco).

Além do biocarvão, são gerados bioóleo e biogás, combustíveis substitutos do petróleo, em quantidades que dependem da condução do processo.

Fonte: [ Ciência Hoje ]

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Brasileiros descobrem que casca de banana pode despoluir a água

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São Paulo – Cascas de banana trituradas podem funcionar como um remédio eficaz em águas poluídas por pesticidas. Esse poder de despoluir a água por um custo zero foi descoberto por uma equipe de cientistas liderados pela pesquisadora Claudineia Silva, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba.

Para chegar nessa conclusão, os pesquisadores coletaram amostras nos rios Piracicaba e Capivari, e na estação de tratamento de água da cidade. Nesses rios, as águas ficam poluídas pelos pesticidas atrazina e ametrina, muito usados em plantações de cana-de-açúcar e milho.

Em seguida, os pesquisadores secaram cascas de banana maduras em um forno a 60ºC por um dia, resultado que também pode ser obtido ao expor o material ao Sol durante uma semana. Após essa primeira etapa, as cascas foram trituradas e peneiradas. O processo gerou um pó de consistência parecida com a de uma ração. Esse material foi, então, misturado com a água, agitado por 40 minutos e filtrado. “A reposta foi ótima. Essa biomassa conseguiu absorver 90% dos pesticidas”, afirma Claudineia.

Esse método tem uma vantagem sobre procedimentos tradicionais. Atualmente, os tratamentos de água não são suficientes para remover resíduos de agrotóxicos de tal forma a atingir o padrão de potabilidade e evitar riscos à saúde humana.

O carvão ativado (o mecanismo mais usado), por exemplo, é um método caro de despoluição. “A casca de banana teria custo zero. Qualquer um poderia usar essa técnica, principalmente em regiões mais pobres. Qualquer pessoa pode pegar uma casca de banana, secar ao sol, bater no liquidificador e jogar na água”, diz Claudineia.

Fonte: [ INFO ]

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