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(multiplica!) memória visual da terra #5 – O CÔCO, DA ÁGUA À SEMENTE

com Chelah e Tiê

Projeto itinerante que promove o fortalecimento e multiplicação das sementes crioulas e da biodiversidade a partir da sabedoria ancestral, através de ações para a troca de conhecimentos e sementes livres, registrando iniciativas e nomeando guardiões para espécies quase em extinção.

Integrar e aproximar as comunidades rurais e tradicionais dos centros de permacultura e novos rurais.

A multiplicação não para!

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Guardiões de sementes, um resgate do direito à soberania alimentar

Heloisa Ribeiro

Heloisa Ribeiro

Em São Paulo, comunidades tradicionais chegam a trocar até 80 tipos de sementes crioulas nas feiras que acontecem anualmente no local associadas a saberes que só existem em sua cultura e na relação com a floresta tropical

Por Heloisa Bio

A liberdade de produzir sementes garante a autonomia dos agricultores. As variedades ainda mantidas e multiplicadas em regiões como o Vale do Ribeira, em São Paulo, surgem como recuperadoras da diversidade agrícola e, principalmente, da produção de alimentos saudáveis e adequados do ponto de vista ambiental e social. Ali, comunidades tradicionais chegam a trocar até 80 tipos de sementes crioulas nas feiras que acontecem anualmente no local, associadas a saberes que só existem em sua cultura e na relação com a floresta tropical.

Esses agricultores familiares fazem parte das comunidades quilombolas descendentes de africanos escravizados, que no Vale do Ribeira somam a maior parte das comunidades quilombolas do Brasil, com 66 quilombos identificados (mas somente seis com títulos de terra). Trata-se de um dos mais valiosos corredores socioambientais do país, em meio a maior área remanescente de Mata Atlântica (2,8 milhões de hectares), cujo contato direto com a natureza provê os meios para sua subsistência e reprodução cultural.

Pode-se dizer que as roças quilombolas extrapolam a agricultura tradicional, conforme expressam uma riqueza de conhecimentos e práticas a elas associadas, incluindo o envolvimento de homens, mulheres e crianças na atividade. Usam o sistema de corte e queima, conhecido como coivara, em que trabalham o rodízio de áreas de plantio, deixando-as em pousio (descanso ou repouso dado às terras cultiváveis) por anos até voltarem a ser produtivas.

“Há mais de 300 anos já fazíamos a preservação ambiental, nunca plantamos em topos de morro ou próximo aos mananciais, pois lá, roça não vai e não queremos ficar sem água. Após a queima, logo vê a volta das minhocas nas cinzas e das pacas e catetos”, conta Benedita Dias da Costa, do Quilombo Maria Rosa, com 20 famílias, sobre como as roças tradicionais têm garantido a diversidade no Vale do Ribeira, compreendendo altas taxas de regeneração da mata nativa.

Muitos elementos da cultura que só existem ali, a exemplo das variedades crioulas (sementes adaptadas ao ambiente local) e das práticas de troca, perderam-se com a maior proximidade urbana e, principalmente, com as restrições impostas pela legislação ambiental, que a partir de 2000 passou a exigir o licenciamento das roças tradicionais (conforme Resolução da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de SP, de 2013).

Nesse contexto, a VII Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas, que aconteceu entre os dias 22 e 23 de agosto, com realização pelo Instituto Socioambiental (ISA), surge como um importante esforço para resgatar o conhecimento e a criatividade dos agricultores nas adaptações ao diversificado ambiente do Vale do Ribeira.

No Vale, há mais de 30 variedades de batata-doce, catalogadas recentemente pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), de Registro (SP). As diferentes etapas da roça tradicional, as formas de reprodução e a manutenção das sementes pelas comunidades vêm impedindo que a rica diversidade local se perca.

Nesse sentido, as sementes são um ponto chave para a discussão da preservação socioambiental, onde o objetivo é o potencial de se produzir e preservar diversidade para as gerações futuras e não o debate sobre capacidade de volume de produção. A relação entre as sementes crioulas e a forma de plantio tradicional é direta, pois as variedades devem ser plantadas o ano todo pelas comunidades para se manterem.

“O ideal seria criar uma rede de guardiões de sementes, cujos conhecimentos expressam um histórico genético de séculos de adaptação à natureza local. Ao contrário, hoje somos reféns das grandes corporações do agronegócio, cujas sementes híbridas são cada vez menos adaptadas e empobrecidas”, afirmou Lauro Komuro, pesquisador do Centro Paula Souza, presente no seminário que aconteceu durante a VII Feira.

A promotora de Justiça do Distrito Federal e uma das fundadoras do ISA, Juliana Santilli, destacou que o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional considera alimentação não só o atendimento das necessidades biológicas, mas a sustentabilidade socioambiental na produção, e a valorização das culturas alimentares locais. “O Brasil possui até 55 mil espécies de plantas da agrodiversidade, enquanto isso os produtos processados dos supermercados são quase totalmente baseados em quatro espécies de grãos”, destacou Juliana.

De fato, a relação entre agrodiversidade (expressão para a biodiversidade agrícola) e saberes locais é determinante para a adaptação das variedades de plantas. As experiências como o consórcio de espécies, os melhores dias para o plantio ou os segredos sobre como guardar sementes, garantiram a manutenção de cultivos tão variados no Vale do Ribeira, que segundo o coordenador geral da Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica, Pedro Jovchelevich, “muitas não devem ser conhecidas fora da região”.

As bananeiras dão as tradicionais banana ouro e prata, mas também a banana pacová, vinagre, preta e zinga, enquanto os nomes das variedades expostas na VII Feira revelam o quanto são pouco comuns: feijão bico de ouro, milho palha dura, mandioca manteiga, chuchu fofo, arroz vira lomba, mangarito ou cará mandioca.

“Planto todo ano e hoje estou com 73 anos, então acabo conhecendo a ‘mania’ de cada tipo, o ‘arroz três meses’ se plantar em agosto leva cinco meses para colher, mas se plantar em novembro leva três. E não tem como saber o tipo de arroz olhando só a semente, é preciso plantar e ver se nasce tudo com o mesmo verde”, revela o agricultor Hermes, do quilombo Morro Seco.

Outras experiências de preservação de sementes foram trazidas ao encontro, como a da Rede de Sementes do Xingu, criada há sete anos para atender a necessidade de restauração de áreas no Mato Grosso e, hoje, um caso de sucesso na manutenção de espécies florestais. Quando surgiu, contava com dez coletores de sementes que, aos poucos transmitiram conhecimentos aos novos interessados. Atualmente são 350 coletores (indígenas, da agricultura familiar e coletores urbanos).

Em sete anos, o projeto possibilitou uma renda de R$ 1,2 milhão para as famílias envolvidas com a venda das sementes florestais para recuperação de Áreas de Preservação Permanente, Reservas Legais e áreas de compensação ambiental, além do impacto político, de fortalecimento dos grupos locais numa região de graves conflitos sociais.

Já a fundação francesa Kokopelli, que resgata e reproduz sementes orgânicas no mundo, conseguiu catalogar em 20 anos de atividade cerca de 2,5 mil espécies da agrodiversidade, mostrando a possibilidade de criar adaptações de variedades em diferentes ecossistemas.

“Trabalhamos as variedades da chamada ‘polinização aberta’, que se desenvolvem com base nas condições locais, tornando-se cada vez mais diversificadas. Já as monoculturas buscam proteger uma única espécie agrícola e, com isso, eliminam a cadeia alimentar que a sustenta, microrganismos, insetos e outras plantas”, finaliza Clayton França, representante da Associação Kokopelli Brasil.

Fonte: [ Brasil de Fato ]

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Anteprojeto elaborado pelo Ministério da Agricultura prevê controle privado sobre sementes crioulas

Por Maura Silva

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Diversas organizações e movimentos sociais do campo estão preocupados com o anteprojeto elaborado pelo Ministério da Agricultura (MAPA) que visa regular o acesso e o uso da agrobiodiversidade brasileira.

Na prática, a proposta iria dar ao MAPA poderes de controlar as sementes crioulas – por meio da obrigatoriedade de registro das variedades e raças num banco de dados – e criaria um mercado de “repartição de benefícios”, em que as grandes empresas poderiam se apropriar dessas sementes e de outros produtos da biodiversidade.

A proposta foi redigida sem nenhuma intervenção da sociedade civil ou movimentos sociais que representam as comunidades mais afetadas. Contou apenas com a participação de atores do agronegócio, como a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) e a Frente Parlamentar da Agropecuária.

Para André Dallagnol, assessor jurídico da Terra de Direitos, o fato do projeto não ter sido amplamente discutido com a sociedade, em especial os agricultores, fere o direito de decisão dos povos do campo, tirando de cada um sua autonomia e colocando nas mãos do poder público.

“A agrobiodiversidade passa a ser considerada pelo anteprojeto como ‘bem da União’, gerido única e exclusivamente pelo MAPA e sem qualquer participação dos agricultores e de suas organizações”, explica Dallagnol.

Segundo o advogado, caberia unicamente ao MAPA definir como aplicar os recursos destinados à implementação dos direitos de agricultor. “Os agricultores e suas organizações não terão qualquer direito de decidir sobre as formas de utilização de eventuais recursos que lhes sejam destinados por meio do Fundo Federal Agropecuário, administrado também exclusivamente pelo Mapa e sem qualquer participação social”, afirma.

As empresas transnacionais do agronegócio, como Monsanto, Syngenta, Dupont, Basf e Bayer, seriam as mais interessadas na criação dessa lei, pois possibilitaria que avançassem ainda mais sobre o controle das sementes.

Essas empresas já detêm o monopólio das sementes transgênicas em todo o mundo. De acordo com o Grupo ETC (organização socioambientalista internacional que atua no setor de biotecnologia e monitora o mercado de transgênicos), as seis maiores empresas controlam atualmente 59,8% do mercado mundial de sementes comerciais e 76,1% do mercado de agroquímicos, além de serem responsáveis por 76% de todo o investimento privado no setor.
Agora, essa nova lei também lhes permitiria a monopolização do mercado, a hegemonia e o poder corporativo sobre as sementes crioulas.

Bancada ruralista

Segundo Dallagnol, o texto contém uma afirmação equivocada: a de que a legislação nacional deverá definir normas não só para o acesso aos recursos genéticos da agrobiodiversidade brasileira por outros países, como para o acesso aos recursos genéticos de espécies exóticas por instituições nacionais.

O advogado explica que, como o Brasil não ratificou o protocolo de Nagoya – acordo internacional que regulamenta o acesso aos recursos genéticos -, a bancada ruralista elaborou esse anteprojeto para formar uma espécie de ‘marco regulatório interno’, antes de uma possível aprovação de Nagoya.

Em contrapartida, a proposta fecha os olhos para os direitos dos agricultores, ao afirmar expressamente que o acesso à variedade tradicional, local ou crioula ou à raça localmente adaptada para as finalidades de alimentação e de agricultura, compreende o acesso ao conhecimento tradicional associado e não depende da anuência do agricultor tradicional que cria, desenvolve, detém ou conserva a variedade.

Ainda para Dallagnol, a não participação da sociedade e a pressão exercida pela bancada ruralista para aprovação do projeto é uma afronta aos direitos democráticos que busca privilegiar os donos do agronegócio.

“Precisamos nos mobilizar, fazer petições, manifestações, usar todos os meios possíveis para colocar essa questão em evidência e pressionar o governo que, com o pretexto de regulamentar a produção rural, está limitando os direitos dos agricultores”, finaliza.

Fonte: [ Ecodebate ]

[ Íntegra do Anteprojeto de Lei ]

Mais infos:

Anteprojeto sobre agrobiodiversidade ignora direitos de agricultores familiares e indígenas

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Financiamento coletivo: projeto Multiplica!

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Multiplicar sementes, conhecimento, sabedoria, respeito, diversidade, cultura e iniciativas.

Projeto itinerante que promove o fortalecimento e multiplicação das sementes crioulas valorizando a sabedoria ancestral, através de ações para a troca de conhecimentos e registro de iniciativas, integrando comunidades tradicionais e ecovilas.

Conheça melhor nossa proposta e colabore como puder
http://catarse.me/pt/multiplica

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Cada dia somos mais os que percebemos a necessidade de uma mudança em nossa maneira de viver como sociedade. As cidades já não se sustentam… Talvez por isso cada vez mais surgem novas ecovilas no Brasil. Um êxodo urbano se iniciou, e com isso, muitas iniciativas interessantes, porém, precisamos nos informar para que estas não interfiram de maneira negativa na biodiversidade local.

Conhecendo bem a terra e reconhecendo os povos locais podemos evitar colapsar os espaços preservados ou esgotar os recursos naturais que ainda existem.

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‘Sementes da Paixão’ germinam na pior seca dos últimos 40 anos na PB

Grãos são mais resistentes e de tradição mantida há décadas.
Comunidades rejeitam milho oferecido pelo poder público.

Canteiro em terreno comunitário é usado para plantar durante a seca (Foto: Fernanda Rappa/Divulgação)

Canteiro em terreno comunitário é usado para plantar durante a seca (Foto: Fernanda Rappa/Divulgação)

Pequenas comunidades de até 300 agricultores na Paraíba estão sobrevivendo durante a seca graças às ‘Sementes da Paixão’, nome dado aos grãos resistentes de milho, feijão e outros alimentos que germinam mesmo durante a pior estiagem dos últimos 40 anos na região.

São 6,5 mil famílias rurais em 61 municípios no Agreste, Cariri e Sertão do estado que mantêm, há décadas, esta prática, sendo nos últimos anos auxiliadas por organizações não-governamentais e associações de apoio ao desenvolvimento da agricultura local.

Na região da Borborema, há pelo menos 57 bancos de ‘Sementes da Paixão’. Nas demais regiões da Paraíba, há mais de 230 bancos de grãos resistentes à estiagem, catalogados pela Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA) Agricultura Familiar e Agroecologias. “O grão é a semente com a finalidade para alimentação animal, humana ou comércio. Tecnicamente, a semente serve para a propagação da cultura”, explica o agrônomo Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA.

A relação dos agricultores paraibanos com o meio ambiente levou a fotógrafa paulista Fernanda Rappa a pesquisar o tema através de um projeto contemplado pelo Prêmio Brasil de Fotografia.

“Eu soube das Sementes da Paixão através de amigos que documentaram isso para o Rio+20. Comecei a pesquisar a história porque achei genial que, no meio da Paraíba, existisse uma consciência ambiental protegendo as comunidades das sementes transgênicas que são super prejudiciais ao mundo, ao meu ver. É um modelo a ser seguido e é bonito demais de ver no meio daquela seca, do deserto, uma plantação de coentro verdinha. Parece um sonho”, explica.

fernandarappa-0082 Durante o mês de março deste ano, o projeto fotográfico foi desenvolvido através da construção de uma câmara escura no meio da plantação, para registrar o ciclo das plantações. “A ideia era que, através da imagem formada dentro da câmara escura, as pessoas das comunidades pudessem ter outra experiência visual com algo que para eles é tão corriqueiro. E dessa forma, exaltar a importância do trabalho que eles vêm desenvolvendo há anos”, relatou Fernanda.

Produtores rurais e os técnicos que auxiliam os agricultores paraibanos na manutenção das sementes explicam que estes grãos são selecionados naturalmente ao longo de várias décadas, sem nenhum tipo de modificação genética, devido à sua capacidade de adaptação ao clima do semiárido nordestino. São estas as poucas variações que conseguem sobreviver às secas históricas que atingem a Paraíba e, mais recentemente, à estiagem de 2013.

Seu Dodô mostra feijão das Sementes da Paixão, nome criado por ele (Foto: Fernanda Rappa/Divulgação)

Seu Dodô mostra milho feijão das Sementes da Paixão, nome criado por ele (Foto: Fernanda Rappa/Divulgação)

A tradição de guardar sementes que germinam em temperaturas pouco amenas vem de várias gerações na família destes agricultores. Hoje, com uma ampla variedade de espécies de grãos já guardadas, eles se unem em pequenas comunidades e auxiliam uns aos outros para sobreviver com o plantio em tempos de escassez. Nestas associações, os agricultores promovem a troca entre si das variedades. Em outras regiões do Nordeste, elas são conhecidas de modo geral como ‘sementes crioulas’.

Antônio Salviano, 62 anos, conhecido como Seu Dodô, é um dos mantenedores da tradição de guardar grãos na zona rural de Desterro, no Cariri, a 289 km de João Pessoa. Ele foi o responsável por dar o nome ‘Sementes da Paixão’ às variedades locais. “É uma coisa de família, meu bisavô já guardava as sementes. A gente trabalha em comunidade, então sempre que alguém por aqui precisa a gente ajuda e depois repõe”, conta o agricultor. No sítio em que ele e outras cerca de 20 famílias moram, foram plantados com sucesso milho, alface e coentro destas sementes.

Milho das Sementes da Paixão (Foto: Fernanda Rappa/Divulgação)

Milho das Sementes da Paixão
(Foto: Fernanda Rappa/Divulgação)

Na zona rural de Queimadas, no Agreste, a 155 km da capital, a comunidade local conseguiu plantar milho, feijão e variedades de fava branca. Todos os alimentos são provenientes dos grãos guardados das chamadas ‘Sementes da Paixão’.

O agricultor José Batista, 50, é uma das lideranças locais e com apoio de familiares e moradores, conseguiu produzir mesmo com a seca no semi-árido. “Aqui na região ‘deu’ muito milho e fava. Não tivemos problema nenhum com os grãos que a gente guarda, mas os que o governo manda a gente nem usa, porque sabe que não dá”, ressaltou.

O desafio de uma seca histórica

De acordo com a AS-PTA, em 2013 a Paraíba enfrentou a pior seca das últimas quatro décadas. Para isso, a entidade investe em capacitação das comunidades. “A gente auxilia o trabalho deles, tenta explicar um pouco melhor sobre as técnicas de guardar os grãos e oferece apoio ao pequeno agricultor. As variações que eles guardam são resistentes a esta temperatura, diferentemente dos grãos que os órgãos estaduais e federais fornecem e que, para o plantio nas terras deles, não servem”, disse o técnico Emanoel Dias.

Segundo a direção da Conab, houve duas tentativas de contato com os agricultores que produzem as ‘Sementes da Paixão’, mas não foi possível realizar um trabalho conjunto. “Em outubro de 2013 marcamos duas reuniões com eles, com a proposta de recompor o estoque deles do banco de sementes. A gente tem a proposta de comprar e doar as sementes para eles, porque estavam apenas com 40% do banco em estoque. Temos tudo para ajudar, conversamos e continuamos abertos a ajudar a compor os estoques”, explicou o superintendente da Conab, Gustavo Guimarães.

A previsão climática para 2014 também não é animadora. As chuvas no semi-árido paraibano devem superar a estiagem do ano passado e igualar a média histórica, mas durante os próximos meses, até o início do segundo semestre vão continuar irregulares e mal distribuídas, prevê a Agência Executiva de Gestão das Águas (Aesa).

Fonte: [ G1 ]

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Tecnologias do Sítio Maravilha

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Semente transgênica invade o semiárido brasileiro

Entrevista especial com Antônio Barbosa

“Hoje, parte da Política Nacional de Sementes nega a semente crioula, negando a identidade das famílias”, lamenta o coordenador da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA.

A seca mais intensa dos últimos 30 anos coloca em pauta temas como a convivência com o semiárido e aponta uma preocupação especial em relação às sementes crioulas características de cada município da região Nordeste. Segundo Antônio Barbosa, em consequência da seca e da falta de uma política pública de incentivo aos agricultores, muitas sementes estão desaparecendo e a recuperação das espécies pode demorar de sete a dez anos. Nesse sentido, as políticas públicas “introduzem novas sementes, quando na verdade deveriam partir de uma lógica de resgate, no sentido de apoiar casas e bancos de sementes familiares, sobretudo comunitários”, informa.

Diante desse cenário, outra preocupação é com o aumento da produção agrícola transgênica no semiárido. “A transgenia tem avançado de forma ilegal, especialmente em algumas culturas específicas, como o feijão”. De acordo com Barbosa, o litoral do Nordeste é o canal de entrada das sementes na região. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, ele esclarece que o “avanço da transgenia não passa necessariamente pelos agricultores. Existe uma distribuição de sementes em pequena escala”. A preocupação, enfatiza, é que “em um período de seca como esse, onde os agricultores perdem suas sementes, haja um avanço das sementes transgênicas”. E dispara: “Se antes nossas sementes não tinham nenhum apoio do Estado, hoje elas são ameaçadas por ele”.

Antônio Barbosa (foto abaixo) é coordenador do programa Uma Terra e Duas Águas, da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o conceito de semente crioula adotado pela Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA, e como ela facilita a convivência no o semiárido?

Antônio Barbosa – A ASA e um conjunto de organizações do Brasil têm trabalhado com a perspectiva das sementes crioulas. O semiárido tem várias características. Costumamos dizer que existem vários semiáridos. A Embrapa Semiárido menciona pelo menos 160 tipos de semiáridos. Dentro desse contexto diverso, trabalhamos com a semente crioula, aquela produzida localmente, ou seja, a semente da comunidade de um município. Ela não tem só a ver com o tipo de produção da semente; está associada também à identidade, com a forma como a comunidade a percebe. Portanto, a semente crioula é aquela que a comunidade produz, conhece, sabe qual é o melhor período para plantar e como a semente irá se comportar nas diversas regiões plantadas.

IHU On-Line – Existe uma diversidade de sementes crioulas de acordo com cada região do semiárido?

Antônio Barbosa – Sim. Há uma diversidade grande de sementes crioulas, especialmente na região Amazônica. O Nordeste possivelmente é a região onde se tem a maior variedade de sementes do país, porque 50% das famílias que vivem no meio rural encontra-se nesta região. Elas mantiveram várias características da agricultura tradicional, e por conta disso conseguiram cultivar culturas variadas, como feijão, fava, hortaliças, amendoim e gergelim.

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