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Guardiões de sementes, um resgate do direito à soberania alimentar

Heloisa Ribeiro

Heloisa Ribeiro

Em São Paulo, comunidades tradicionais chegam a trocar até 80 tipos de sementes crioulas nas feiras que acontecem anualmente no local associadas a saberes que só existem em sua cultura e na relação com a floresta tropical

Por Heloisa Bio

A liberdade de produzir sementes garante a autonomia dos agricultores. As variedades ainda mantidas e multiplicadas em regiões como o Vale do Ribeira, em São Paulo, surgem como recuperadoras da diversidade agrícola e, principalmente, da produção de alimentos saudáveis e adequados do ponto de vista ambiental e social. Ali, comunidades tradicionais chegam a trocar até 80 tipos de sementes crioulas nas feiras que acontecem anualmente no local, associadas a saberes que só existem em sua cultura e na relação com a floresta tropical.

Esses agricultores familiares fazem parte das comunidades quilombolas descendentes de africanos escravizados, que no Vale do Ribeira somam a maior parte das comunidades quilombolas do Brasil, com 66 quilombos identificados (mas somente seis com títulos de terra). Trata-se de um dos mais valiosos corredores socioambientais do país, em meio a maior área remanescente de Mata Atlântica (2,8 milhões de hectares), cujo contato direto com a natureza provê os meios para sua subsistência e reprodução cultural.

Pode-se dizer que as roças quilombolas extrapolam a agricultura tradicional, conforme expressam uma riqueza de conhecimentos e práticas a elas associadas, incluindo o envolvimento de homens, mulheres e crianças na atividade. Usam o sistema de corte e queima, conhecido como coivara, em que trabalham o rodízio de áreas de plantio, deixando-as em pousio (descanso ou repouso dado às terras cultiváveis) por anos até voltarem a ser produtivas.

“Há mais de 300 anos já fazíamos a preservação ambiental, nunca plantamos em topos de morro ou próximo aos mananciais, pois lá, roça não vai e não queremos ficar sem água. Após a queima, logo vê a volta das minhocas nas cinzas e das pacas e catetos”, conta Benedita Dias da Costa, do Quilombo Maria Rosa, com 20 famílias, sobre como as roças tradicionais têm garantido a diversidade no Vale do Ribeira, compreendendo altas taxas de regeneração da mata nativa.

Muitos elementos da cultura que só existem ali, a exemplo das variedades crioulas (sementes adaptadas ao ambiente local) e das práticas de troca, perderam-se com a maior proximidade urbana e, principalmente, com as restrições impostas pela legislação ambiental, que a partir de 2000 passou a exigir o licenciamento das roças tradicionais (conforme Resolução da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de SP, de 2013).

Nesse contexto, a VII Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas, que aconteceu entre os dias 22 e 23 de agosto, com realização pelo Instituto Socioambiental (ISA), surge como um importante esforço para resgatar o conhecimento e a criatividade dos agricultores nas adaptações ao diversificado ambiente do Vale do Ribeira.

No Vale, há mais de 30 variedades de batata-doce, catalogadas recentemente pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), de Registro (SP). As diferentes etapas da roça tradicional, as formas de reprodução e a manutenção das sementes pelas comunidades vêm impedindo que a rica diversidade local se perca.

Nesse sentido, as sementes são um ponto chave para a discussão da preservação socioambiental, onde o objetivo é o potencial de se produzir e preservar diversidade para as gerações futuras e não o debate sobre capacidade de volume de produção. A relação entre as sementes crioulas e a forma de plantio tradicional é direta, pois as variedades devem ser plantadas o ano todo pelas comunidades para se manterem.

“O ideal seria criar uma rede de guardiões de sementes, cujos conhecimentos expressam um histórico genético de séculos de adaptação à natureza local. Ao contrário, hoje somos reféns das grandes corporações do agronegócio, cujas sementes híbridas são cada vez menos adaptadas e empobrecidas”, afirmou Lauro Komuro, pesquisador do Centro Paula Souza, presente no seminário que aconteceu durante a VII Feira.

A promotora de Justiça do Distrito Federal e uma das fundadoras do ISA, Juliana Santilli, destacou que o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional considera alimentação não só o atendimento das necessidades biológicas, mas a sustentabilidade socioambiental na produção, e a valorização das culturas alimentares locais. “O Brasil possui até 55 mil espécies de plantas da agrodiversidade, enquanto isso os produtos processados dos supermercados são quase totalmente baseados em quatro espécies de grãos”, destacou Juliana.

De fato, a relação entre agrodiversidade (expressão para a biodiversidade agrícola) e saberes locais é determinante para a adaptação das variedades de plantas. As experiências como o consórcio de espécies, os melhores dias para o plantio ou os segredos sobre como guardar sementes, garantiram a manutenção de cultivos tão variados no Vale do Ribeira, que segundo o coordenador geral da Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica, Pedro Jovchelevich, “muitas não devem ser conhecidas fora da região”.

As bananeiras dão as tradicionais banana ouro e prata, mas também a banana pacová, vinagre, preta e zinga, enquanto os nomes das variedades expostas na VII Feira revelam o quanto são pouco comuns: feijão bico de ouro, milho palha dura, mandioca manteiga, chuchu fofo, arroz vira lomba, mangarito ou cará mandioca.

“Planto todo ano e hoje estou com 73 anos, então acabo conhecendo a ‘mania’ de cada tipo, o ‘arroz três meses’ se plantar em agosto leva cinco meses para colher, mas se plantar em novembro leva três. E não tem como saber o tipo de arroz olhando só a semente, é preciso plantar e ver se nasce tudo com o mesmo verde”, revela o agricultor Hermes, do quilombo Morro Seco.

Outras experiências de preservação de sementes foram trazidas ao encontro, como a da Rede de Sementes do Xingu, criada há sete anos para atender a necessidade de restauração de áreas no Mato Grosso e, hoje, um caso de sucesso na manutenção de espécies florestais. Quando surgiu, contava com dez coletores de sementes que, aos poucos transmitiram conhecimentos aos novos interessados. Atualmente são 350 coletores (indígenas, da agricultura familiar e coletores urbanos).

Em sete anos, o projeto possibilitou uma renda de R$ 1,2 milhão para as famílias envolvidas com a venda das sementes florestais para recuperação de Áreas de Preservação Permanente, Reservas Legais e áreas de compensação ambiental, além do impacto político, de fortalecimento dos grupos locais numa região de graves conflitos sociais.

Já a fundação francesa Kokopelli, que resgata e reproduz sementes orgânicas no mundo, conseguiu catalogar em 20 anos de atividade cerca de 2,5 mil espécies da agrodiversidade, mostrando a possibilidade de criar adaptações de variedades em diferentes ecossistemas.

“Trabalhamos as variedades da chamada ‘polinização aberta’, que se desenvolvem com base nas condições locais, tornando-se cada vez mais diversificadas. Já as monoculturas buscam proteger uma única espécie agrícola e, com isso, eliminam a cadeia alimentar que a sustenta, microrganismos, insetos e outras plantas”, finaliza Clayton França, representante da Associação Kokopelli Brasil.

Fonte: [ Brasil de Fato ]

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VI Simpósio Iberoamericano de Plantas Medicinais

O VI Simpósio Iberoamericano de Plantas Medicinais, será realizado no ano de 2012 na Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), nos dias 13 a 15 de junho de 2012, estando atrelado à comemoração dos 75 anos do Colégio Agrícola Augusto Ribas/UEPG.

O evento consiste em uma das principais atividades formativas da Rede Iberoamericana de Estudo e Aproveitamento Sustentável da Biodiversidade Regional de Interesse Farmacêutico (RIBIOFAR/CYTED/CNPq).

Objetiva oportunizar encontro para atualização, integração e reflexão de docentes, pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação, além de profissionais que atuam na área de Ciências Farmacêuticas e demais áreas afins, com ênfase em plantas medicinais, através da participação (palestras, mini-cursos e pôsteres) de renomados pesquisadores de diferentes países iberoamericanos que abordarão os diversos temas que envolvem a pesquisa multidisciplinar com plantas medicinais.

Confira a [ Programação ] e demais atividades do evento em VI SIPM.

Prof. Dra. Dionezine de Fátima Navarro
Coordenadora do VI Simpósio Iberoamericano de Plantas Medicinais (UEPG – PR)

Prof. Dr. Paulo Vitor Farago
Chefe da Pós Graduação em Ciências Farmacêuticas (UEPG)

Prof. Dr. Valdir Cechinel Filho
Coordenador da RIBIOFAR/CYTED/CNPq (UNIVALI – SC)

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Plantas de origem desértica precisam de menos cuidados

Por Gisele Eberspacher

Cactos, aloe vera e agaves armazenam água e precisam de menos irrigação

Quer ter uma planta, mas tem pouco espaço e tempo? Uma solução pode ser as plantas suculentas que, por terem uma espécie de cera por cima das folhas, acumula líquidos no interior, necessitando de menos irrigação e cuidados. Exemplos de plantas são os cactos, a aloe vera, conhecida também como babosa, e os agaves.

Essas plantas são originárias de regiões desérticas, fazendo com que acumulassem líquidos como reserva. Assim a planta é ideal para quem tem pouco tempo para cuidados: ela deve ser regada uma vez por semana durante o verão de de 15 em 15 dias no inverno.

Veja abaixo ideias para plantar esse tipo de plantas:

Fonte: [ Atitude Sustentável ]

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Primeira escola verde do Brasil já “dá frutos” no Rio

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro

Beneficiados pela iniciativa, alunos da rede pública afirmam que estão “num padrão acima” das escolas particulares

É na zona oeste da cidade do Rio que foi instalada a primeira escola verde do país. Resultado de uma parceria público-privada, está localizada no bairro de Santa Cruz, que possui um dos IDHs mais baixo da capital: 0,742. Quanto mais perto de 1, mais desenvolvida é a região – na Gávea, bairro nobre da zona sul carioca, o índice é 0,970.

Novidade que chama a atenção dos moradores, o Colégio Estadual Erich Walter Heine conta com painéis solares, reaproveitamento da água da chuva, iluminação natural e, claro, área para reciclagem. Embora aberta há apenas três meses, a escola já dá frutos: tem gente levando para casa o que aprendeu na sala de aula. “Meu pai montou um sistema de captação da água da chuva lá em casa”, conta o estudante Hebert Elias Sanches, de 17 anos. “Usamos para lavar a roupa, limpar o quintal e sanitários. A conta d’água está mais barata”, afirma.

Plantas foram integradas à estrutura física no chamado "telhado verde"; ajuda a reter água para reuso, favorece o clima e neutraliza emissões de carbono. (Foto: Léo Ramos)

Na escola, além de lições de sustentabilidade, o ensino é profissionalizante. Alunos de 14 a 17 anos recebem aulas técnicas de administração. Em meio a ensinamentos de logística e afins, também chama atenção dos estudantes o “telhado verde”, que pode ser visitado pela comunidade escolar. E, no futuro, também por moradores, já que a direção faz planos de abrir as portas do colégio nos finais de semana. Funciona assim: plantas espalhadas pela cobertura ajudam a reter a água da chuva, reduzir o calor e, de quebra, neutralizar as emissões de carbono.

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O fitoplâncton necessita de CO2!

O phytoplankton necessita de CO2 para produzir C e O2!
Por: Eng. Thomas Renatus Fendelwww.fendel.com.br

Muito mais do que os demais vegetais, o fitoplâncton formado pelos micro-vegetais que abundam e infestam os mares, consome vultosa quantidade de gás carbônico, acumula carbono, libera oxigênio e nada nos arredores da superfície da água em busca dos raios solares. Sua coloração é geralmente verde em função das clorofilas que fotossintetizam H2O e CO2 em carbohidratos, num processo semelhante ao efetuado por seus parentes terráqueos.

Estas singelas plantinhas aquáticas são verdadeiras micro-usinas de comida e de O2, constituindo a base alimentar da vida nos mares, sendo em parte consumidas por pequenos seres marinhos que se transformam em cardápio de peixes maiores; resultando este phytoplankton num volume que chega a 2/3 de todos os vegetais que habitam este planeta.
Muitos destes minúsculos seres fotossintéticos, em mais de 20 mil espécies diferentes e com vida de poucos dias, acabam decantando para as profundezas dos oceanos, onde se transformam em vultosos depósitos de carbono. Continuar lendo

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